quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Portador não merece pancada
Uns quinze dias depois da posse de Mauro fui à Prefeitura, falei com ele no gabinete, narrei toda a história e lhe passei uma cópia da confissão de dívida. Ele ensaiou um chilique de irritação, mas respondi à altura, avisando que era apenas o mensageiro. Ele se acalmou e pediu para que eu voltasse quinze dias após, que ele estudaria a situação. A partir daí, ele me colocou em um jogo de empurra-empurra, me pedindo para falar seguidamente com Daltro Alencar, Fernando Sampaio, Dedé Carneiro e outros. Agi pacientemente, sem entender o porquê de tanta hesitação e demora, uma vez que o mesmo Catarino era o contador da administração dele e poderia facilmente explicar tudo.
Na Semana Santa estive em Fortaleza e lá, depois de refletir, tomei a decisão de judicializar a questão, caso minha próxima conversa com o prefeito resultasse inútil. Quando conversei com Mauro, ele me pediu que eu fosse falar com Domingos Filho, no hotel Verde Vale, em reunião marcada para uma semana depois. Fui e expliquei todo o roteiro ao deputado. Quando terminei, ele me olhou e disse:
- Doutor, vamos fazer uma consulta ao Tribunal de Contas...
- Não. O senhor vai fazer a consulta. Eu vou procurar outro caminho.
Despedi-me e fui embora. A consulta jamais ocorreu. Eu já estava com tudo preparado. No dia seguinte ingressei em Juízo com duas ações, em nome do Instituto: um mandado de segurança, para obrigar o Município a cumprir a lei que criava o órgão e uma ação executiva do contrato de confissão de dívida, para que o Município cumprisse o que prometera.
Quando o prefeito foi citado, caiu na real. Não poderia mais protelar a situação, como viera fazendo. Certo dia, apareceram em minha casa Salviano e Catarino. Expliquei-lhes que não havia interesse pessoal envolvido. Eu fora nomeado presidente do Instituto e estava cumprindo meu dever. Caso contrário, poderia até ser acusado de prevaricação.
Ficou acertado que haveria uma reunião no dia seguinte, na casa de Salviano, com a presença de Mauro. Lá, conversamos e Mauro espanou meu ego e adubou minha autoestima afirmando que em mim confiava, mas temia pelos futuros gestores, e findou por dizer que, diante das circunstâncias, ele preferia extinguir o Instituto. Respondi que não faria a menor objeção. No momento em que eu visse o ato de extinção publicado no Diário Oficial, eu desistiria das ações impetradas, até por falta de objeto.
Aproximadamente um mês depois, fui procurado pela advogada Virlene Rolim, com a cópia do D.O. com o ato de extinção. No dia seguinte, cumpri o prometido e pedi a desistência das ações. Respirei aliviado, mas o pior estava por vir.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Nuvens escuras no céu de dezembro
Em novembro de 96, logo após a eleição de Mauro Sampaio, chegou a notícia de que o Tribunal de Justiça havia decidido a causa e que o Município poderia finalmente instalar o sonhado instituto previdenciário próprio. Em reunião no gabinete, soube que Liberal seria nomeado presidente do órgão. Fiz ver a Salviano que a lei exigia que o presidente fosse formado em Direito, o que não era o caso de Liberal, e que além disso, eu pedira e ele me prometera a nomeação, anos atrás.
- Procure Liberal e combine com ele.
Falei com Liberal, meu amigo desde os bancos escolares no Salesiano, e ele concordou comigo. Fui nomeado presidente temporário, de acordo com a legislação, com a função de preparar a documentação para a instalação definitiva do instituto, tarefa a que me dediquei imediatamente.
No dia 31 de dezembro, pelas 21 horas, recebi um telefonema de Liberal me convidando para uma reunião no gabinete do prefeito. Achei insólito, Estranhei, mas fui, porque era inadiável. Chegando lá, encontrei Salviano, Catarino e Liberal reunidos:
- Qual é o problema?
- Sávio, como presidente temporário do futuro instituto, você precisa saber de alguns detalhes...
- Que tipo de detalhes?
- Sabe a verba descontada para a previdência nestes três anos? Ela foi gasta.
- Gasta como?
- Com a reforma da Praça da Matriz, com a construção da escola João Alencar, com as desapropriações do Parque Ecológico...
- Não acredito... Salviano, o gasto da verba descontada dos salários dos servidores constitui crime de apropriação indébita. Está no Código Penal.
- Agora é tarde, já está feito. Pedi a Catarino para elaborar um documento para sanar a situação.
- E que documento é esse?
- Uma escritura de confissão de dívida. O Município reconhece que deve ao instituto e que se compromete a pagar em 120 parcelas, explicou o contador.
- E nós chamamos você aqui para ter conhecimento e assinar o documento.
Muito cômodo, pensei. Gasta-se o dinheiro e joga-se a responsabilidade do ressarcimento sobre o sucessor. Por dentro, eu fervia de indignação, mas não é de meu feitio criar caso, principalmente porque se tratava de um fato consumado. Agora entendia porque Salviano, que sempre me teve elevada consideração, queria me afastar da presidência do órgão. Ele deveria ter aberto o jogo comigo. Eu não faria a menor objeção, porque meu interesse não era pessoal. Acho que lhe faltou coragem de me confessar o que agora ele era obrigado a me revelar.
Quando Catarino finalizou o documento e me trouxe para conferir, pedi-lhe que refizesse a última folha, das assinaturas, pois eu assinaria como “Ciente” e não como parte contratante, como constava na versão original. E assim foi feito. Saí de lá com minha cópia e fui direto à casa de Luis Carlos, titular do 1º Cartório, e meu cunhado, e entreguei-lhe o papel, pedindo-lhe que providenciasse ainda naquela noite o registro da escritura no livro de Títulos e Documentos. Eu já antevia que nuvens escuras se formavam em meu céu. Depois voltei para casa, me preparar para a festa do primeiro réveillon do Hotel Verde Vale, recém-inaugurado.

terça-feira, 30 de setembro de 2014


Saindo pela entrada
Desde inícios de 95 eu alertava Salviano de que, pelas conversas na rua, a tendência era o eleitorado juazeirense votar maciçamente em Mauro para prefeito. Essa impressão só fez crescer ao longo dos meses. Apesar de ser palpável a preferência da população, havia pelo menos uns quatro pré-candidatos situacionistas ao redor do prefeito. No fim, Zé Arnon venceu a concorrência e foi apontado para a disputa. Fui escalado, mas recusei fazer parte do comitê de campanha, convicto de que era trabalho perdido e, sem entusiasmo, não rendo coisa alguma em campanha eleitoral. Cheguei a ser expulso de uma reunião na reta final da campanha, após um discurso realista, taxado de pessimista e pé-frio, embora os termos utilizados na ocasião não fossem assim elegantes. Aquela foi a primeira eleição municipal em que ocorreu a apuração eletrônica que, por sinal, foi anulada, para vereador, e recontada, porque houve uma fraude grotesca. Previsivelmente, Mauro ganhou com facilidade e Arnon ainda perdeu o segundo lugar para Carlos Cruz, que, de última hora, inventou uma senha carimbada com a imagem de um imóvel, para que o eleitor ingênuo acreditasse que aquilo valia como um compromisso de doação de casa própria. Quando querem, nossos políticos são muito imaginativos e criativos, principalmente em benefício próprio.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Picos sobre o vale
Um dos pontos altos da segunda administração de Salviano foi a criação do Parque Ecológico. Mesmo reduzido a uma pequena fração do que deveria ser o verdadeiro parque, o espaço correspondente à bacia do riacho da Timbaúba, foi um primeiro passo que, se tivesse recebido o apoio das administrações subsequentes, teria dotado a cidade de um bem de valor inestimável, uma joia rara e preciosa destinada à garantia da qualidade de vida das futuras gerações de juazeirenses. Infelizmente, predominaram a mesquinharia politiqueira, a ausência de visão estratégica no planejamento urbano e, até diria, a falta de amor a esta cidade tão explorada quanto mal recompensada pelos beneficiários de sua hospitalidade e da pujança de seu potencial econômico-financeiro. A inconclusão do Parque Ecológico é um tapa na cara da cidadania juazeirense. A população, hoje em dia, se manifesta nas ruas pelos motivos mais banais. Por que não se grita pedindo a continuação dessa obra essencial? Mais uma lástima a acrescentar no rosário.
Outros pontos elevados foram a Festa do Sesquicentenário, até hoje subestimada por quem não a vivenciou nem a acompanhou, desconhecendo que foi o evento melhor organizado e culturalmente mais relevante da história da cidade. A apresentação da orquestra sinfônica de João Pessoa no Memorial superlotado e a solenidade de entrega dos troféus do sesquicentenário, na capela do Socorro, por exemplo, foram eventos suficientemente grandiosos para trazer orgulho aos juazeirenses mais exigentes; a arborização urbana com fícus, graças ao empenho de Mara Cordeiro e sua equipe; a construção dos arcos ao redor da Matriz, replicando o belo trabalho de Fidel Tenório na festa do Sesquicentenário e dotando aquele logradouro de um novo e impactante visual.

terça-feira, 16 de setembro de 2014


O embrião da FMJ
No transcorrer do ano de 1994, o Cirão estava pronto, obra da administração de Ciro no governo do Estado. Salviano reuniu todo o primeiro escalão e fomos visitar o prédio, totalmente desocupado, na companhia do almirante Ernani Aboim, juazeirense nato, residente no Rio de Janeiro. Matreiro, o prefeito homenagearia o almirante, batizando com seu nome o laboratório de física e química da nova escola e lhe pediria a doação de todo o equipamento necessário ao funcionamento do laboratório. Após os discursos informais, o almirante se comprometeu a doar o material e nos surpreendeu:
- Vocês já pensaram em abrir uma Faculdade de Medicina em Juazeiro?
Ninguém sequer sonhara com isso. Era uma ideia absolutamente nova e chegava a nós a bordo de uma oferta oriunda de uma autoridade que possuía credenciais federais elevadas.
- Faço parte do Conselho Nacional de Saúde, mas conheço os componentes do Conselho Nacional de Educação e vou levar a sugestão para ver como será recebida, concluiu o generoso almirante conterrâneo.
A Universidade carioca Estácio de Sá comprou a ideia e findou por abrir em Juazeiro a FMJ, Faculdade de Medicina que foi o pontapé inicial para a verdadeira revolução que transformou a cidade em um canteiro de obras, alargando os limites urbanos e verticalizando gradualmente o seu perfil.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Uma aquisição valiosa
Na Semana Santa, Ciro Gomes, governador, estava em Juazeiro. O plano era subirmos ao Horto, na sexta pela manhã, uma antiga tradição da população juazeirense. O encontro foi na praça do Memorial. Atravessamos o prédio por dentro do salão de exposições, o Museu. Quando chegamos em frente à coleção de dez magníficas pinturas de Marcus Jussier, retratando sinteticamente a trajetória de vida do padre Cícero, que Marcus produzira especialmente para expor em evento incluso na programação oficial do sesquicentenário, paramos e nos quedamos a admirá-las. Eu arrisquei:
- Ciro, estes quadros não podem mais sair de Juazeiro. Já fazem parte de nosso patrimônio cultural.
- E o que está faltando?
- Dinheiro para comprá-las. São trinta mil reais, a coleção.
- Faça um ofício para a Secult e me ligue avisando...
Sem querer, atropelei as pretensões de Salviano, que planejara pedir algumas obras ao governador, aproveitando a visita. No fim, deu tudo certo. Salviano conseguiu as obras e Juazeiro recebeu de presente uma mostra extraordinária do talento do artista plástico mais bem sucedido de sua história e que está até hoje lá no Memorial, à disposição de quem sabe apreciar a beleza.

terça-feira, 26 de agosto de 2014







Aprendiz de administrador

A experiência como secretário de Educação foi frustrante desde o primeiro dia. Conheci e me cerquei de gente disposta a fazer um bom trabalho, como Nailê Feitosa, mas a realidade da escola pública é inviável. O salário de professores e servidores é irrisório, o que, de cara, afasta os melhores quadros para outras carreiras mais compensadoras. Claro que há os vocacionados, que se esforçam, se preocupam com a qualidade do ensino como fator de propulsão para uma sonhada ascensão social via conhecimento. Mas estes são a exceção. Para piorar o que já é péssimo, os administradores adotaram o costume de nomear diretores e secretários escolares a partir do quadro de professores. Pelo perverso critério do apadrinhamento, desfalcam as escolas de alguns de seus melhores profissionais, que precisam ser substituídos por novatos despreparados, inexperientes. A primeira conclusão a que cheguei foi que o sonho de quase todos os professores era sair da sala de aula, seja lá o que os motivava para essa fuga.

Uma semana após minha posse na Educação, Salviano apareceu na Secretaria, localizada no Poliesportivo:

- Vamos preencher os cargos da Secretaria.

Sentamo-nos, ele, eu e Nailê e passamos a escolher diretores, vices e secretários das unidades escolares e o pessoal administrativo da própria Secretaria. Eu apenas concordava com as sugestões dele ou de Nailê, pois conhecia poucos nomes relacionados. Quando se aproximou de meio-dia, os trabalhos apenas iniciados:

- Salviano, meu relógio biológico me obriga a almoçar ao meio-dia. Vamos interromper e depois continuar?

- Não. Vamos aproveitar e fazer tudo de uma vez.

Não me dei tempo nem de refletir:

- Pois você fica aí com a Nailê, que eu vou em casa.

Depois, soube que ele comentara a meu respeito que eu era um filósofo preguiçoso. Houvesse ele usado o adjetivo entediado, teria se aproximado de definir meu estado de espírito à época com mais exatidão. Eu era mesmo um estranho no ninho da Educação.

Acreditava, e ainda acredito, que apenas um choque revolucionário no setor educacional pode alavancar o desenvolvimento sustentável deste gigante adormecido. Infelizmente, o primeiro passo dessa radical transformação ainda não foi dado, o que nos condena a ser um eterno “país do futuro”. Um futuro que jamais se concretizará, mantidas as atuais condições de temperatura e pressão. Ninguém me convencerá de que não exista um “sistema” perverso por trás dessa cruel realidade, com intenção explícita de manter o grosso da população jovem na ignorância. É o ancestral lema: “Dá-lhes pão e circo”. Desse “sistema” fazem parte as igrejas, os políticos e outras instituições poderosas, interessadas na manutenção do status quo. Some-se a isso a alienação de pais e professores, que acham que está tudo bem, e o quadro está completo. Certa vez, expus esta tese a Salviano:

- Você não é louco de pensar numa bobagem dessa?

- Sou. As soluções para uma transformação na educação, a começar pela adoção do regime de tempo integral, não são um bicho de sete cabeças. Tem que haver algo mais sórdido a impedi-las.

Na Secretaria de Cultura, minha atuação foi mais gratificante. Criamos os jogos estudantis – Jejuno´s – que, durante os quatro anos, foi um evento bem sucedido, com maciça adesão das escolas públicas e privadas, cuja integração social era o objetivo maior dos jogos. O Ginásio Poliesportivo fervilhava de crianças e adolescentes empolgados com a grata novidade. A intenção era que os jogos, dado o sucesso da fórmula, se eternizassem. Juazeiro não possui eventos tradicionais significativos. O Crato tem a Exposição. Barbalha tem a festa de Santo Antônio. Juazeiro não tem nada. Os Jejuno´s poderiam preencher tal lacuna. Minha maior decepção, com a administração municipal e com os corpos discente e docente das escolas envolvidas, é ver que um projeto simples e eficaz como esse não vingou, não recebeu a devida atenção, minguou ao longo dos anos e hoje é uma pálida lembrança. Uma lástima.

Logo no início da administração, Salviano acenou com a possibilidade de criar um Instituto Municipal de Previdência. A nova Constituição Federal, a “cidadã”, criara a possibilidade. Aderi desde logo à ideia, convicto de que era o melhor caminho. A previdência oficial, o INSS, era uma instituição caótica, deficitário, dominada pela politicagem, onde vicejava a corrupção. A municipalização, se bem administrada, era uma tentativa atraente de obter melhores resultados. A lei foi redigida, enviada à Câmara e aprovada. Alegando irregularidades formais na tramitação do projeto, três vereadores oponentes, Zé de Amélia, Fran Pereira e Gilson de Sousa, recorreram ao Judiciário e o projeto foi travado até que a Justiça decidisse. Entrementes, Salviano determinou a abertura de uma conta e passou a depositar os descontos previdenciários mensais, da municipalidade e dos servidores.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014





O ausente presente
No dia da posse da Salviano, compareci à Câmara de Vereadores. Havia uma questão pendente, em torno da possibilidade de Arnon acumular legalmente o cargo de deputado com o de vice-prefeito. Um assunto polêmico, sobre que inexistia uma norma ou mesmo uma jurisprudência definidora. Ele foi esperto e ingressou em juízo, solicitando uma solução judicial. Com a maioria controlada por Salviano, a Câmara lhe deu posse. 
Achei a solenidade aborrecida: espaço exíguo, gente em demasia, muita confusão, muito calor. Parecia a escada da AABB.
Élida me comunicara que à noite, no auditório do Memorial haveria outra solenidade de posse. Ressabiado pela experiência matinal, preferi faltar e ir direto para o Restô Jardim, onde haveria um encontro mais saboroso depois da solenidade.
Estava lá com Orlete, quando a comitiva começou a chegar. Quando me viu, de longe mesmo, Salviano:
- Além da Secretaria de Cultura, você vai acumular a Secretaria de Educação.
Ele sabia mesmo como agradar. Solange Tenório deveria ser a secretária de Educação, mas, na última hora, houve um veto incontornável e sobrou para mim.
Wilton Almeida me disse que, no Memorial, quando chamaram meu nome e eu não apareci, o governador Tasso Jereissati, de cuja presença, se eu soubera antes, teria ido, para prestigiá-lo, comentou:
- Este aí começou bem...
E foi então que Salviano fez o anúncio da acumulação. O Galeguim deve ter ficado perplexo

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Uma mancha indelével
A carreata final foi uma apoteose. Quando percorremos a rua São Benedito, tivemos a dimensão exata da vitória folgada. O povo delirava nas esquinas apinhadas. Salviano parecia um pop-star, caminhando à frente do cortejo, acenando para a multidão. 
Depois de uma eleição tranquila e de uma apuração mais serena ainda, comemoramos a vitória na casa de Carlão. Uma festa improvisada, com muita gente, a maioria cansada dos esforços.
Dias após, houve uma recepção mais formal na casa de Dedé Tavares. Quando cheguei, vi que Salviano estava reunido com um grupo de amigos lá na parte mais baixa. Quando me aproximei, ele me apontou:
- Aí está um que sempre me alertou que eu venceria por uma larga margem de votos.
Deduzi logo que ele se referia a um empréstimo financeiro de última hora, para enfrentar despesas não-contábeis, que eu condenara por julgar totalmente desnecessário e, pior, antiético.
Semanas depois, recebi a visita de Salviano e Arnon. Conversamos, e ele:
- Sávio, estamos aqui para lhe oferecer a Procuradoria Geral do Município ou a Secretaria de Cultura e Desportos. Você escolhe.
Não pensei nem um segundo:
- Prefiro a Secretaria. Quero mais é fugir de problemas judiciais.
Ficaram surpresos, mas sabiam que eu passara uns dois meses me reunindo com uma equipe, planejando o que seria o desempenho futuro da administração nos setores de Cultura e Esportes.

terça-feira, 22 de julho de 2014



Uma memorável campanha – II: os outdoors da discórdia
Collor de Melo enfrentava o processo de impeachment no Congresso, por conta do escândalo envolvendo seu tesoureiro de campanha, Paulo César Farias. Aproveitamos a deixa e criamos um evento: uma passeata contra a corrupção. Foi um estrondoso sucesso. Descemos a rua São Pedro a pé, com vasto acompanhamento de veículos de todo tipo, desde a Castelo Branco, contornamos a praça Almirante Alexandrino e terminamos nas imediações do Memorial. Cada participante exibia um detalhe em preto na roupa, símbolo da intenção de protestar contra a corrupção em Brasília. Quem conhecia o ramo, afirmava que havia mais de dez mil pessoas no desfile. A passeata das flores de dr. Feitosa, em 1958, gerara um filhote robusto.
Passados alguns dias, apareceram espalhados pelas principais vias de acesso à cidade, os outdoors falando da morte de Soraya e clamando pela punição de Paulinho Ceará, filho de Mauro, indiciado como réu no rumoroso caso de duplo assassinato que assombrou e revoltou a sociedade caririense uns anos antes. A repercussão foi enorme na cidade. Falei com Salviano e ele me garantiu que fora iniciativa da família de Soraya, que ele nada tinha a ver com o episódio. Não tive como duvidar.
Dias após, fui convocado para uma reunião com o juiz eleitoral, Carlos Feitosa, em uma sala do Memorial. Estavam presentes Carlos Cruz, Mauro Sampaio e dois advogados da coligação deles. Eu e Jônio Sampaio representávamos o PSDB. O principal foco eram os outdoors. O juiz queria que a gente os retirasse. Argumentei que não fôramos nós quem os colocaram e que, portanto, não nos cabia a retirada. Os ânimos se exaltaram. O juiz acintosamente bateu com o punho na mesa:
- Parece que em Juazeiro não tem gente educada.
- Os que vem de fora são piores, excelência. E também esmurrei a mesa em resposta.
Sua excelência se descontrolou e disse que a partir dali estavam suspensos os programas radiofônicos, da propaganda eleitoral gratuita; estavam suspensos os comícios, até segunda ordem e que nossa coligação dispunha de 24 horas para retirar os outdoors.
- O senhor está me comunicando tudo isso verbalmente e eu, também verbalmente, estou recorrendo desde já ao TRE.
A reunião terminou em clima de animosidade. À saída, emparelhado com Carlos Cruz e Mauro, ainda fui suficientemente desaforado para comentar:
- Não entendi porque vocês não defenderam o Juazeiro daquele ataque despropositado...
Ambos fizeram cara de paisagem e me ignoraram.
O TRE acatou o recurso que eu e Sérgio Gurgel fizemos, via telex, e derrubou as decisões do juiz. Mas Salviano, para evitar mais contratempos, conseguiu convencer a família e providenciou a retirada dos polêmicos outdoors.

Uma memorável campanha-III: New York é aqui
Certa noite, atendi a um convite de um grupo de intelectuais e artistas locais e me reuni com eles no SESC. Depois que fiz uma explanação superficial, mas genérica, sobre os planos da futura administração para o setor, o artista plástico Petrônio observou:
- Dr. Sávio, parece que o senhor pensa que está em New York?
- Não. Mas a gente tem que trabalhar como se estivesse lá.
Hoje eu reconheço que era um sonho impossível. Nossa realidade cultural, com raros bolsões de exceção, são os cordéis, o artesanato, as xilogravuras, os reisados, as bandas de pífaro, as lapinhas e similares.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Uma memorável campanha I: pela porta dos fundos
Em 1992 definiram-se as candidaturas de Salviano, pela oposição, e de Mauro Sampaio, pela situação. A dinâmica da política mais uma vez dava provas de exuberância. Salviano me convidou para ser o assessor jurídico da campanha e eu aceitei, começando a atolar meus pés na política local.
Em setembro, a um mês das eleições, o presidente do TRE, Ernani Barreira, veio a Juazeiro para uma reunião com os candidatos, às nove horas, no hotel Panorama. Cheguei lá com dez minutos de antecedência e encontrei Wilton Almeida:
- Cadê Salviano?
- Disse que não vinha. Está lá pros lados do Novo Juazeiro, fazendo corpo-a-corpo.
Fiquei abismado. Peguei meu carro e voei para lá. O Novo Juazeiro ainda era um bairro em construção. Dei algumas voltas e findei por encontrá-lo, sozinho, sob o sol quente, de boné, batendo de casa em casa e distribuindo santinhos de campanha. Parei ao lado dele:
- Entra aí, Salviano. 
- Vamos pra onde?
- Para o Panorama. Trata-se do presidente do Tribunal Eleitoral, homem. Além do mais, você não precisa de nada disso. Você está com a eleição ganha, com muita folga. Basta não cometer nenhum erro grave. Ele se convenceu e entrou. Ainda me lembro das palavras iniciais de Ernâni, em sua fala:
- Eu sei que entrei no Tribunal pela porta dos fundos...

terça-feira, 8 de julho de 2014








A volta definitiva ao lar
Depois que me aposentei, desiludido com a magistratura e magoado por conta de três episódios, um no TRE e dois no Tribunal de Justiça, nos quais me senti injustificadamente injustiçado, voltei para Juazeiro com a família, as bagagens, o gato e os cachorros.
Acatei uma sugestão de Vanderlei Landim e abrimos um pequeno escritório de advocacia  na Padre Cícero. Carlos Cruz era o prefeito e comandava uma administração populista, empreguista e clientelista, que somente não era mais desastrosa por falta de tempo.
Como advogado eu andava pela cidade toda e conversava com pessoas das mais variadas escalas sociais e logo cheguei à conclusão, consultando o meu ibope particular e pessoal, de que a população juazeirense ansiava pela volta de Salviano à Prefeitura.
Na passagem de ano de 90 para 91, recebi a visita de Mauro e Salviano. Conversamos e indaguei-lhes se não estavam interessados em fundar o PSDB local. Este partido, uma costela formada pelo que de melhor havia no PMDB nacional à época possuía uma mensagem política moderna, pregando a moralidade, a ética política, o liberalismo, a valorização do indivíduo, a diminuição do Estado e o predomínio da livre iniciativa e do mercado liberto da praga do intervencionismo estatal, sem esquecer, contudo, o combate às desigualdades sociais, pelo aperfeiçoamento das regras de controle. 
Salviano me disse que providenciaria a papelada necessária e que eu seria o presidente da Comissão Provisória de instalação do partido. Aceitei a missão e conduzi o processo, filiando muita gente que compunha o círculo político de Salviano desde a sua administração.

Um jantar para gourmets
Nos anos 90 iniciais, Ciro Gomes era o governador e veio ao Cariri em uma Semana Santa, visitar obras e fazer contatos políticos. Era a sexta-feira e, depois de várias reuniões e discursos em diversas cidades da região, aquela canseira, resolveram sair para jantar, lá pelas onze da noite. Era um grupo de umas oito pessoas, formado por Ciro, assessores, Carlos Cruz, então prefeito, o presidente da Câmara e senhoras. Dirigiram-se ao Restô Jardim, principal ponto de encontro da sociedade, ainda sob a administração de Jéferson Júnior. Quando Ciro leu o cardápio:
- Ôba, um restaurante com padrão internacional... admirou-se.
Cada um escolheu seu prato e fizeram os pedidos.
Cerca de meia-hora depois, o garçom voltou:
- Infelizmente, os pratos que vocês pediram não podem mais sair.
Decepcionados, trataram de fazer novas escolhas:
- Tem esse peixe aqui?
- Não senhor.
- Tem essa carne com tempero de ervas finas?
- Não senhor.
Cansado e faminto, Ciro então perguntou:
- Meu amigo, pra gente não perder mais tempo, o que é que pode sair?
- Só isca de peixe...
- Pois então traga iscas de peixe para todo mundo.
O padrão internacional já fora esquecido. Pelo menos não sairiam dali de barriga vazia. Outra meia-hora depois, o garçom voltou com cara de funeral:
- Infelizmente, as iscas de peixe se acabaram.
Frustrado e sonolento, já passando muito da meia-noite, Ciro ainda teve que ouvir uma galhofa final de Carlos, ao entrar no carro oficial:
- Ciro, vê se arranja umas bolachas creme-craquer e um guaraná lá no Panorama...

terça-feira, 1 de julho de 2014








Um efêmero retorno às raízes
Arnon e Carlos Cruz
Em setembro de 1978 fui promovido a Juiz de Sobral. Mesmo vindo com frequência a Juazeiro, nas férias e nos feriados prolongados, eu perdi contato com o cotidiano do mundo político local. Acompanhei de longe a vitória de Salviano, em 1982, que representou a vitória da facção de Mauro Sampaio sobre a da família Bezerra, já rompidas desde 76, quando Aílton Gomes venceu Doro Germano.
Em 1988, já Juiz da Comarca de Fortaleza foi nomeado pelo TRE para presidir as eleições e apurações de Milagres. Meu primo, Idelmar, viria para Juazeiro, ajudar a Suenon e Darival, então juízes locais. Falei com Idelmar e sugeri uma permuta. Ele me tinha muita consideração e amizade e não colocou a menor objeção. Fomos ao TRE falar com José Maria Melo, presidente do órgão, e poderoso desembargador do Tribunal de Justiça. Quando expliquei-lhe a proposta:
- Mas você é de lá. Sua mãe é titular do Cartório...
- Mas não do Eleitoral. Além do mais, sou amigo de todos os candidatos. Você não confia em mim?
- ´Tá louco. No Tribunal, todos admiram vocês dois. São juízes competentes e trabalhadores.
Saímos de lá com as nomeações redefinidas e garantidas.
Em Juazeiro, a disputa era renhida: Carlos Cruz, apoiado por um Salviano amparado na repercussão positiva de uma excelente e inovadora administração, contra Zé Arnon, um político iniciante que fizera um brilhante trabalho como Secretário de Saúde, apoiado pela facção bezerrista.
Cheguei à cidade cinco dias antes das eleições e me instalei no Fórum, então na rua São Pedro, logo abaixo da rua do Cruzeiro. Deu para sentir imediatamente o clima de hostilidade entre as forças disputantes. A campanha fora marcada por episódios como o do “elefante branco”, um suposto deslize verbal cometido por Carlos Macedo, vice da chapa de Arnon, em um discurso, de que se aproveitaram os adversários para impingir-lhe a acusação de que se referira ao intocável nome do Padre Cícero com uma expressão pejorativa. Os ânimos, pois, estavam exaltados. Tanto que o TRE solicitou e o governo federal enviou tropas do Exército para cá, ocorrência incomum ao longo da história.
Como Juiz da capital e mais experiente, com várias eleições no currículo, combinei com os colegas e adotei algumas decisões, simples mas eficazes. Como a tropa federal enviada era reduzida, convocamos o Tiro de Guerra para auxiliá-la no dia da eleição. Organizei o cadastramento de delegados e fiscais da apuração. Alguns presidentes de mesas receptoras, apesar de oficialmente notificados, ainda não haviam comparecido para apanhar o material no Cartório Eleitoral e provavelmente não compareceriam, criando mais um problema para o já complicado e atarefado dia do pleito. Solicitei um veículo, montei uma equipe de improviso, dois servidores do Cartório, chamei o major responsável e um soldado e fomos, de casa em casa, entregando a meia dúzia de material que faltava. Nenhum se recusou a receber. E alguns ainda nos ofereceram água e cafezinho.
No dia da eleição, me dirigi cedo para o Fórum. Sempre há incidentes a decidir em cima da hora e é bom ser previdente. Dar o exemplo, pois eleição é coisa séria. O processo de votação começou às oito horas, como é de praxe. Meia hora depois, chega uma pessoa esbaforida:
- ´Tá a maior confusão nos Franciscanos...
O Ginásio São Francisco, muito amplo, comportava cerca de doze seções eleitorais, uma ao lado da outra. Nas circunstâncias, era um barril de pólvora.
Chamei o major e uns quatro soldados, pegamos o veículo do Exército e seguimos para lá.
Havia uma pequena multidão concentrada fora dos portões e outra, maior, dentro. Entrei no recinto e tentei perceber o que ocorria. Logo concluí que o problema era a enorme quantidade de “cabos eleitorais” misturados aos eleitores, com visíveis propósitos de influenciá-los no momento decisivo de enfiar a cédula na cavidade. O famoso golpe da “boca de urna”, atitude condenável, criminosa.
Acompanhado pela tropa, metralhadoras em punho, percorri todo o espaço interno da escola, avisando que somente poderiam permanecer  os eleitores das seções ali localizadas e o pessoal das mesas receptoras, inclusive fiscais e delegados, desde que identificados com crachás oficiais. Sem alternativa, o pessoal de presença indesejável se retirou. Os mais renitentes foram Lurdes Morais, Antônio Balbino e Gumercindo Filho, tudo gente amiga e conhecida, mas não haveria exceções. Feita a limpeza interna, determinei que uma dupla de soldados se postasse no portão de entrada do prédio. A partir dali só era permitida a entrada de eleitores das seções e pessoas autorizadas. Foi um santo remédio. A eleição, ali fluiu tranquila e calma até o final do processo, às cinco da tarde.
De lá, fomos ao Ginásio Salesiano, também local de votação com inúmeras seções e forte potencial para tumultos. Fizemos o mesmo trabalho de assepsia cívica e prevenção. De volta ao Fórum, solicitei uma relação com diversos locais que acumulavam quatro ou mais seções e a entreguei ao major, instruindo-o de que se utilizasse dos componentes do Tiro de Guerra para vigilância e fiscalização das entradas. Deu tudo certo.
O restante do dia transcorreu calmo, sem qualquer transtorno de monta. Ainda houve uma denúncia de irregularidade em uma seção rural, acho que no sítio Sabiá, mas quando chegamos lá tudo estava em ordem.
Recebemos as urnas na AABB, local da apuração. Permaneceram lá armazenadas, sob custódia da tropa federal e olhos atentos de diversos eleitores interessados, que ali pernoitaram, desconfiados.
Na manhã seguinte, os trabalhos se iniciariam às oito horas. Cheguei uma hora antes e comecei a adotar providências. A apuração seria manual, como sempre, e eu chequei todos os detalhes apara que não ocorressem surpresas de última hora. Lá de fora vinha um rumor cada vez mais crescente que eu não conseguia identificar. Até que resolvi sair para ver o que ocorria. Fiquei estupefato. No topo da escada que dá acesso ao térreo estava postado o pelotão da tropa, armas de prontidão. A escada estava entupida de gente que se acotovelava, se empurrava, se queixava, se amassava, todos presos e encurralados, como sardinhas em uma latinha. Fui até lá e autorizei a entrada dos candidatos a prefeito e vice, fiscais naturais e maiores interessados na apuração; dos representantes do povo, como o deputado estadual Orlando Bezerra e vários vereadores a quem reconheci. Esta iniciativa aliviou o sufoco na escada e acalmou os ânimos excitados, dada sua natureza imparcial. Instantes depois, ouvidos os colegas juízes, foi permitida também a entrada de delegados e fiscais partidários, previamente cadastrados. Em seguida, a apuração foi iniciada. Houve tensão apenas no primeiro dia, mas logo ficou evidente que Carlos Cruz venceria com uma margem folgada de votos e o ambiente desanuviou-se. 
No transcorrer da apuração, fiquei um momento a sós com Mauro, na sacada de onde se avista os bairros Lagoa Seca e Jardim Gonzaga, separados pela antiga estrada Juazeiro-Barbalha:
- Mauro, sabe o nome dessa estrada?
- Sei. O nome de meu pai, Leão Sampaio.
- É... mas todos chamam de rodovia da morte. Isso precisa acabar.
Três anos depois, Ciro Gomes veio inaugurar a nova e moderna rodovia estadual, conhecida como avenida Leão Sampaio, cujas obras foram iniciadas ainda na gestão de Tasso, no ano anterior.
Em outra ocasião, já nos estertores da apuração, Sá e Sousa apareceu com um exemplar do “O Povo” e perguntei como estava a situação em Fortaleza:
- Ciro já ultrapassou Édson Silva. Parece que vai ganhar...
- Já ganhou. E fique certo de que ele será o futuro governador do Estado.
Acertei na mosca.
Antes de viajar de volta a Fortaleza, me encontrei com Neli Pereira na praça. Ela me disse que estivera com Orlando e que ele dissera:
- Aquele teu primo é um gentleman. 
Na verdade, era só bom-senso e experiência acumulada.

terça-feira, 24 de junho de 2014








Algodão entre as pedras da APUC

Por essa época, havia um grupo enorme de profissionais liberais que se reunia frequentemente na AABB. Jogávamos futsal e, aos sábados, nos encontrávamos para um bate-papo regado a uma cervejinha gelada. Havia um clube de cinema, o Cinejuno, que eu presidia, que funcionava lá às sextas à noite. Nesse contexto, surgiu a ideia de fundarmos um clube, uma associação com fins sociais e culturais. Havia um núcleo, formado por Carlos Macedo, Cícero Landim, Everardo Menezes, Érico Matos, Limeira, Guálter, Dante e Teive Alencar, Zé Afonso, eu e alguns outros. O nome escolhido foi Associação dos Profissionais Liberais do Cariri – APUC. Como pontapé inicial foi realizado um jogo no Romeirão, com ingressos pagos e transmissão radiofônica, entre os profissionais liberais de Juazeiro e Crato. A renda foi destinada ao Orfanato Jesus, Maria e José, na avenida Pe. Cícero. Este jogo, vencido por Juazeiro por 4 X 1, registrou uma curiosidade jocosa: Gílson Sobreira era nosso treinador e, ao fazer uma substituição, pedia ao substituído que permanecesse em campo. Houve um princípio de confusão, alguma discussão e foi solicitada uma recontagem dos jogadores: Juazeiro estava com 15 e Crato, com 12. Restabelecida a normalidade, o jogo fluiu normalmente até o apito final.
Surgiu então o embate da escolha do presidente do clube. Aílton Gomes era o prefeito e não queria Carlos Macedo na liderança do projeto e este, por sua vez, vetava os nomes apresentados pelo grupo ligado ao prefeito. O impasse ameaçava exterminar a iniciativa no nascedouro. Houve então uma reunião na Usina Zé Bezerra, escritório de Ivan Bezerra. Estávamos presentes eu, Geraldo Barbosa, Carlos Macedo e Ivan. O diálogo não progredia, ninguém queria ceder. Virei-me para Geraldo e sussurrei:
- Por que a gente não coloca Ivan na presidência?
Geraldo se levantou, entusiasmado, e externou a sugestão. Ninguém era louco de se opor e aí o acordo foi selado instantaneamente: Ivan na presidência e Carlos na vice.
Trabalhei durante uma semana e consegui elaborar os estatutos da novel entidade. Veio então a reunião, no auditório do Ginásio Municipal, para debate e deliberação sobre o texto. Tudo correu bem, até que chegou o artigo que definia as exigências para os associados. Meu texto previa que qualquer pessoa poderia filiar-se, desde que comprasse o título de sócio-proprietário. Uma ala, liderada por Paulo Machado e dr. Miguel Alencar Furtado, Juiz de Direito de Juazeiro, opinava contra, exigindo dos sócios que possuíssem curso superior, como condição indispensável. Fui derrotado em minha proposta e jamais me conformei com a discriminação. Desiludido, no ano seguinte fui morar em Sobral, promovido, e vendi meu título a meu irmão Lula.















Da esq. para a dir. : em pé: Lacerda; Teive; Antônio José; Gumercindo; Valtemar; Paulo Machado; Guálter; Mauro Sampaio; Sávio; Renatão; Limeira; Zé Maurício Sá e Gílson Sobreira.
Agachados: Geraldo Beserra [GB]; Dr. Zi; Sodson Sabiá; Luis de Sousa; Zé Lívio; Ticiano; Zé Livônio; Carlos Macedo e Isaías [massagista]

terça-feira, 17 de junho de 2014








O mundo é um círculo
Em 1976 eu era Juiz Zonal do Crato. Neste cargo, minha tarefa era substituir os colegas de férias ou de licença, ou mesmo responder pelo expediente de alguma Comarca vaga, em uma vasta região centrada na Comarca de Crato. Em determinado momento cheguei a acumular os trabalhos em quatro Comarcas diferentes. À noite lecionava na Faculdade de Direito da URCA. Era ano de eleições e estávamos em setembro, em seu terço final. Recebi um telegrama da Presidência do TRE, à época ocupada pelo desembargador Nogueira Sales, me nomeando Juiz Eleitoral da Zona de Missão Velha. Foi uma surpresa, porque eu estava preparado para presidir as eleições de Farias Brito, cujo processo eu dirigira até então.
Aconteceu que o Juiz de Missão Velha, Alberto Calou Torres, diligente, preparado e imparcial, tudo que se pode exigir de um bom magistrado, impugnou por sentença a candidatura de Elce Santana a prefeito municipal porque foi flagrado um incidente de falsidade no livro de filiação partidária. Posteriormente, eu manuseei este livro e constatei que a falsificação foi uma obra grosseira, coisa amadorística. Elce era o favorito disparado para vencer as eleições e desbancar do poder o grupo de Stênio e Senhor Dantas, os donos da política local há anos. Houve uma reação forte entre a população, dada a contrariedade, e Alberto preferiu se licenciar do cargo. Ana Ester, mulher de Elce, foi escolhida como sua substituta e o ambiente estava pegando fogo.
Cheguei a Missão Velha em um sábado à tarde, sozinho, dirigindo meu Chevette. Pedi informações e logo localizei o Cartório Eleitoral. Entrei e me identifiquei à moça que estava por dentro do balcão, solicitando que lavrasse um termo de posse. Bastou em me identificar como Juiz para uma pessoa, que estava encostada ao balcão:
- O senhor é o novo juiz? Pois o prefeito está lá dentro, com as folhas de votação...
Nem ouvi direito e já fui entrando pelo corredor até uma saleta lá atrás. Encontrei Senhor Dantas com o arquivo de folhas de votação de uma seção aberto sobre a mesa. Fiquei em pé ao lado dele:
- O senhor é o prefeito municipal?
- Sou, sim senhor.
- Pois me faça o favor de se retirar imediatamente.
Ele me obedeceu. Peguei o pacote,de folhas, entreguei-o à moça, recriminando-a só com os olhos, cheios de autoridade.
- Qual é seu cargo aqui?
- Sou funcionária eleitoral. O cartório está sem titular...
Saí dali e fui ao cartório do 2° Ofício. Eu conhecia Regilânio, um médico, cuja mãe era a titular. Falei com Régia, irmã dele e perguntei se a mãe poderia ser a escrivã eleitoral.
- Não, doutor. Ela vive doente e além disso temos vários parentes candidatos nesta eleição.
A cada minuto eu sentia que a tarefa seria mais árdua do que imaginara. A cidade estava dividida, a disputa era acirrada e os ânimos acompanhavam bem de perto.
De lá fui ao Primeiro Cartório, perto da saída para Juazeiro. Encontrei Acelino Jácome, a quem jamais vira na vida.
- Como é a situação deste cartório?
- A titularidade está vaga há anos. Minha tia é escrevente substituta, mas está muito idosa e doente, vive prostrada.
- E você é o que?
- Escrevente compromissado. Tenho uma portaria do Juiz da Comarca para responder pelos serviços e assinar os documentos.
- Pois a partir de agora, você é o escrivão eleitoral da Zona. Vamos para o Cartório Eleitoral lavrar os termos de posse. No ano seguinte, Acelino foi meu aluno na URCA. Hoje é Juiz de Direito de uma das Varas da Comarca de Juazeiro. Como diria Dilma, o círculo é redondo...
Quando estávamos finalizando as formalidades, entra no cartório um senhor idoso e se dirige a mim:
- Doutor, queria convidar o senhor a se hospedar em minha casa. Sou muito amigo de seu pai, gosto muito dele. Seria um prazer e uma honra para nós.
Era Zé Norões, a quem não conhecia e de quem nunca ouvira falar. Um grave defeito meu. Aceitei na hora a tão gentil oferta, aliviado por não ter que me hospedar em alguma pensão local, de condições imprevisíveis.
Foi uma eleição trabalhosa, lotada de denúncias de ambos os lados. Viajei por todos os recantos do município, inclusive na serra, checando as condições e adotando providências para que tudo corresse bem. 
No dia da eleição, os incidentes e as denúncias de sempre, cada lado querendo prejudicar os adversários. No fim do dia, urnas recolhidas à agência dos Correios, tive que lacrar todas as portas e janelas do prédio com fita gomada. Assinei tudo e pedi a todos os presentes que também assinassem. Afinal, fora uma exigência deles. Por dentro, eu ria com a marmota. E a Polícia Militar ficou encarregada da vigilância noturna. Desnecessária, porque havia dezenas de interessados, de ambos os lados, acordados a noite toda ao redor do prédio.
No último dia de apuração, fui procurado por Geraldão, pai de Ana Ester:
- Doutor, queremos que o senhor autorize uma passeata da vitória.
Pensei um pouco. Era arriscado, mas era justo. Ao vencedor, as batatas.
- Faça um ofício, solicitando a autorização. E ficam estabelecidas duas condições: é proibido bebida alcoólica e não será permitido passar em frente às casas do prefeito e do candidato adversário. Quero ver o roteiro, junto ao requerimento.
Depois dessa conversa, fui à casa de Senhor Dantas, avisar de minha autorização e pedir colaboração para evitar qualquer confronto. A esposa dele me recebeu mal, como se eu fora responsável pela derrota do candidato da situação, mas o anfitrião se desculpou e me tratou muito bem.
Em eleições é como no futebol. Em caso de derrota, o culpado é sempre o juiz.


terça-feira, 10 de junho de 2014


Chutando o balde do poder
Orlando Bezerra, Expedito Pereira, Dr. Mozart Cardoso de Alencar e Cap. Erivano Cruz
Em 1972 ocorreu um episódio bizarro. Orlando Bezerra foi eleito em 1970 para um mandato-tampão de apenas dois anos e seus familiares estavam todos impedidos de concorrer, por conta da legislação vigente. No auge da ditadura militar, Adauto e Humberto dominavam a política local, aliados a Mauro Sampaio e outras lideranças, com o apoio de 95% do eleitorado. Dizia-se, então, que a oposição, em Juazeiro, cabia em uma Kombi. Espremida, mas cabia. Eram os tempos gloriosos da imponente ARENA contra o minúsculo MDB. Um Golias bombado e malhado contra um mirrado Davi, sem qualquer munição.
Depois de muita boataria e conversas, as negociações políticas fixaram-se em três nomes de pré-candidatos: Dr. Mozart, meu pai e Argemiro Mota. Expedito Pereira não queria ser candidato em hipótese alguma. Admitia participar das negociações por cortesia e dada a sua natureza cordata e conciliatória. Argemiro Mota era proveniente do antigo PSD, partido dos feitosistas, adversários dos udenistas de Zé Bezerra e Zé Geraldo. Um homem de bem, ficha limpa, mas não tinha chances. Sobrava Dr. Mozart. O problema é que ele não era o predileto dos chefões. Era um cidadão de personalidade forte, um profissional respeitado, e poderia erguer uma liderança própria, capaz de futuramente criar embaraços a seus planos políticos. Em razão disso, houve uma carga formidável de pressão em cima de meu pai, para que aceitasse a indicação. Eu já era Juiz de Direito, com jurisdição em Farias Brito, mas pessoalmente participei de reuniões e pelo menos dois almoços no restaurante de Francisquinha, sogra de Mussolini Campelo, ali na José Marrocos, por trás da Prefeitura, em companhia de Mauro Sampaio, Orlando e Leandro Bezerra, Gumercindo Ferreira Lima, Raimundo Sá e Sousa e tantos outros. Meu pai ouvia as ponderações, as promessas, os planos, mas jamais o ouvi dizer que aceitava. Certa vez o abordei:
- Papai, porque o senhor não aceita ser prefeito?
- Porque não estou preparado para enfrentar uma missão como essa.
- Mas eu e Itamar podemos ajudá-lo nos bastidores. Itamar era um primo, filho de Lauro e Santinha, economista de renome na capital, superintendente da SUDEC.
- Meu filho, o poder sempre corrompe.
A partir daí me tornei um aliado dele na ingente tarefa de driblar a indicação, sem ferir as suscetibilidades. Um filho dele, Herialdo, era casado com Regina, filha de Adauto Bezerra, de modo que era necessário agir com sutileza. Não era possível, por exemplo, abrir o jogo e externar as verdadeiras razões da recusa, sem implicar a participação automática dos outros em escusos esquemas dominantes.
No último dia do calendário das convenções partidárias, o prazo final, na hora do almoço, o telefone tocou lá em casa. Meu pai atendeu e, da mesa, a gente ouvia o monólogo repleto de nãos, mas ditos com civilidade e polidez.
- Era Adauto, fazendo um último apelo para que eu aceitasse, me oferecendo todo apoio de que eu precisasse...
À noite, na convenção, o nome do Dr. Mozart foi escolhido. Ele ganhou as eleições com enorme vantagem e tentou administrar o município de forma independente, livre do garrote dos coronéis. Menos de dois anos depois, Adauto governador, foi decretada a intervenção e Erivano Cruz assumiu as rédeas da administração.

terça-feira, 3 de junho de 2014








A partir de hoje passaremos a apresentar semanalmente esta coluna de Sávio Leite Pereira. focalizando os bastidores da política recente de Juazeiro. O autor, que é juiz aposentado e também  ocupou cargos na administração pública municipal, foi testemunha de muitos fatos políticos os quais agora passam a ser relatados para conhecimentos dos nossos leitores. E assim estamos contribuindo para resgate da história política juazeirense, registrando os fatos para a posteridade. A seguir o primeiro texto da série.

 Brincando de ser juiz
A partir de 1955, em decorrência de nossa mudança de endereço para a rua Padre Cícero, passei a frequentar quase diariamente o Cartório do 1º Ofício, que ficava a menos de cem metros de nossa casa. Se havia algum serviço a fazer, eu o fazia, também os deveres escolares e, se houvesse companhia, seguia para a praça, em frente, para brincar. Se não aparecesse ninguém aproveitável, eu ficava pelo cartório, procurando o que fazer. As urnas utilizadas nas eleições gerais de 1954 estavam armazenadas na parte posterior do prédio. Eram caixotes retangulares de ferro fundido, pintados de verde e fechados com cadeados. Depois da apuração, era preciso esperar os prazos dos recursos. Esgotados estes e proclamados oficialmente os resultados definitivos, as urnas se transformaram em um brinquedo para mim. Meu pai me entregou as chaves, abri os cadeados e refiz a apuração, urna a urna, anotando os resultados em folhas de papel almaço. Meu pai foi candidato a vereador pelo PTB, contra a vontade dele e acho que foi daí que surgiu meu interesse em recontar a votação. O voto era depositado na urna dentro de pequenos envelopes azuis. O eleitor já conduzia consigo as pequenas chapas, para cada cargo, com o nome do candidato de sua preferência impresso. Aldeziro Maia possuía uma tipografia na rua São Pedro, vizinho ao Treze, e veio ao cartório entregar 500 chapas com o nome de Expedito Pereira para vereador. Meu pai estranhou:
- O que é isso, Aldeziro?
- Foram os seus amigos que encomendaram. Já está tudo pago.
Ele se conformou, até porque já não havia jeito. Mas se interessou tanto pela candidatura que viajou à capital do Estado às vésperas do dia 3 de outubro, data tradicional das eleições à época. Nem o voto próprio ele teve. Mas foi votado por outros 128 eleitores e ajudou a eleger Miguel Rocha, que ficou à frente dele na mesma legenda, além de Zé Néri, primeiro suplente.
Naquele ano, foram eleitos Paulo Sarasate e Flávio Marcílio, para governador e vice. Manoel Fernandes Távora foi o candidato a senador mais votado. Leão Sampaio o mais lembrado para deputado federal e José Monteiro de Macedo se elegeu para a Assembleia Legislativa, graças aos votos dos juazeirenses. Almino Loiola também se elegeu deputado estadual, mas teve poucos votos por aqui. Dentre os vereadores eleitos, me lembro de Zé Machado, Dr. Mozart, Orlando Beserra, dr. Ney, Almeidinha, Raimundo Viana, Geraldo Barbosa e Wilson  Correia. Mas havia outros. O referido é verdade. Dou fé, com carimbo e tudo.

terça-feira, 6 de maio de 2014

RASGANDO A FANTASIA – JUAZEIRO E OS VELHOS CARNAVAIS - Por Sávio Leite Pereira

Nos anos 40 a 60 o carnaval de Juazeiro se resumia aos bailes clubísticos, no Doze e depois no Treze, localizado na Praça Almirante Alexandrino, rua São Pedro. Como morávamos em frente ao Clube dos Doze, na Rua da Conceição (hoje é um agência do Bradesco), todo ano a gente presenciava o ritual: primeiro no sábado magro e depois no sábado gordo, no instante imediatamente anterior ao início do baile, um clarinetista assomava na sacada do clube e tocava a eterna marchinha “Viva Zé Pereira” a icônica abertura oficial de todos os carnavais brasileiros.

Darim e Mascote
Na rua praticamente inexistiam manifestações, infantis ou adultas. Raras as pessoas que se fantasiavam de pierrôs, colombinas, piratas ou arlequins. Os foliões de Juazeiro eram contados nos dedos de uma mão: Sulino Duda, mascarado e com um tubo de cloretil à mão; o desinibido Azarias Araújo, que invariavelmente se travestia, se maquiava exageradamente e atraía a atenção da gurizada; Dário Maia Coimbra, o Darim, sempre muito falante e agitado, Raimundo Maciel, o eterno Rei Momo, com sua roupa verde e dourada e a coroa enfeitada. E havia o carro-chefe do nosso carnaval, Antônio Fernandes Coimbra, o Mascote, que patrocinava um bloco feminino já tradicional, Garotas Infernais. Ele colocava as meninas na carroceria de um caminhão, com alguns músicos e saía desfilando pela cidade, com paradas esporádicas em alguns lugares, como a Praça Almirante, para animar a folia. Nós, crianças, nos contentávamos em olhar, e comprar, de ambulantes na rua São Pedro, artefatos como uma máscara de plástico colorido com elástico, bem popular, para proteção dos olhos;  uma bisnaga de plástico para encher com água e molhar os outros; pacotinhos de confete e tubos de serpentina, com dez unidades, o mais apreciado de todos, que requisitava certa habilidade para ser lançado corretamente e se desdobrar no espaço formando uma cortina de papel colorido. Esse movimento na rua se concentrava na praça e em suas imediações, no fim da tarde, no domingo e na terça. E era só.

Com o fechamento do Doze, em 51, os bailes carnavalescos se concentraram no Treze e eram bastante concorridos. Mas era divertimento para adultos, embora, de vez em quando, houvesse bailes infantis no domingo à tarde, sem grande repercussão.

Antiga sede do Treze no Salgadinho
Meu primeiro carnaval foi em 1961. O Treze já se mudara para a sede do Salgadinho. Meu pai comprou uma caixa de cloretil Rodouro, da Rhodia, e me entregou. Eram quatro ampolas metálicas douradas, com aquele tradicional fecho emborrachado que, quando aberto, esguichava uma mistura líquida de cloro, perfume, éter e outras substâncias, como um spray. Uma para cada noite de brincadeiras. E eu desperdicei os meus quatro tubos de cloretil mirando nos olhos dos amigos, José Hildon, Hélio Luna, Herman Morais, Mirival, quando eles se viravam a um toque que eu aplicava em seus ombros. Aos 17, incompletos, era um meninão. Lembro-me dos grandes sucessos de minha estreia carnavalesca: A lua é dos namorados; O velho gagá... já deu o que tinha que dar; Índio quer apito. E continuou fazendo enorme sucesso uma marchinha lançada no ano anterior por um desconhecido Moacyr Franco: Me dá um dinheiro aí. Na última noite, terça-feira, criara-se o costume de encerrar o baile em cima da praça, ao redor da estátua do padre. A orquestra tocava no clube até às cinco horas da manhã e depois saía desfilando pela rua São Francisco até a praça. Retirávamos as últimas reservas de energia de corpos estropiados por quatro noites seguidas de farra só pelo prazer de se vangloriar depois. Era uma atitude. As pessoas passavam, curiosas, em direção à tradicional missa de cinzas na Matriz. Provavelmente nos enxergavam como ET´s, adoradores do sol nascente.

Cloretil
O ano seguinte foi quase uma réplica, com a sutil diferença de que, desta vez, não estruí o cloretil. Aprendera que o uso correto era molhar um lenço e cheirar. O efeito é imediato: zumbido nos ouvidos, ausência de consciência, taquicardia, entorpecimento dos sentidos, principalmente visão e audição: a música se reduz a um som primitivo e parece vir de um lugar indefinido e a visão torna-se borrada, sem foco. Por sorte, o efeito é rápido, quase instantâneo, demora menos de um minuto. No ano anterior, Jânio Quadros, durante sua curtíssima presidência de sete meses, proibira o comércio de cloretil no país, mas havia muita mercadoria estocada em todos os Estados e durante alguns anos mais o Rodouro reinou absoluto na preferência dos usuários, até rarear, com preços inacessíveis.

Em 63 não brinquei carnaval. Sequer vim passar as férias em Juazeiro. Enfrentei o vestibular em fevereiro e fiquei por lá mesmo, ante a iminência do início das aulas na Faculdade de Direito. Como não testemunhei, não posso depor, mas, pela lógica dos fatos da vida, nada mudou. O carnaval era então uma festa eminentemente democrática, onde estranhos, de repente, podiam estar abraçados, cantando e pulando, mãos sobre os ombros uns dos outros. Em solos, em duplas, em trios, em grupos maiores, formando trenzinhos, o importante era incorporar o transe coletivo que parecia permear os foliões enquanto reproduziam as marchinhas animadas, os frevos febris, os sambas e as indolentes marchas-rancho do repertório, ao mesmo tempo em que se improvisavam passos e coreografias. Quando o calor da festa sugeria um esfriamento, a orquestra atacava de Zé Pereira, e a temperatura voltava ao pico, como se fora um ritual inconsciente envolto em uma magia peculiar e única.

64 foi uma nova reprise, tudo quase igual: o Treze, os amigos, as garotas, as marchinhas e o cloretil. Com vários primos hospedados em casa e amizade estreita com a família de João Menezes e Neide Almeida, resolvemos alugar dois jipes na praça, sem capota, e ficamos rodando pela cidade, subindo pela Pe. Cícero, dobrando na Carlos Gomes e descendo pela São Pedro até a praça. Muitos veículos participavam desse corso improvisado. Nas esquinas das ruas percorridas, muita gente se juntava para ver a anárquica folia e as crianças jogavam água nos veículos, com suas bisnagas de plástico. Depois, nos deslocávamos, primeiro para Barbalha e na sequência para o Crato, cujo carnaval de rua começava a se destacar, com blocos organizados e desfiles pela rua João Pessoa. Esses passeios, regados álcool e a cloretil, demoravam de quatro da tarde até sete da noite, quando voltávamos à casa para tomar banho, comer e logo se preparar para o baile no Treze e outros clubes. Haja energia. Terminada a folia, a gente constatou que sobraram dois tubos de cloretil. Sem ter o que fazer, aguardando a data de retornar aos estudos, eu, Hélio, Carlúcio e Mirival nos isolamos na casa de seu Arlindo, pai de Hélio, ao lado da Matriz e passamos a tarde cheirando cloretil, rindo, contando e recontando os episódios marcantes das férias, totalmente desatentos aos riscos potenciais desse tipo de “programa”.

Nesse mesmo ano, vieram duas garotas de Rio Bonito-RJ passar as férias na casa de João e Neide, parentes dela. Eu e Hélio conquistamos a simpatia das irmãs e iniciamos namoros bem-comportados. O carnaval foi animado, como é de seu estilo, mas diferente, porque desta vez estávamos presos a parceiras fixas. Fomos a bailes em Crato e Barbalha, além do já tradicional Treze. Foi um carnaval morno, sem maiores novidades.

Passado mais um ano, a gente compunha uma turma grande, para os padrões da época, irrequieta, sequiosa por diversão. Com a proximidade do carnaval, resolvemos formar um bloco. Mirival foi o idealizador e era o líder. Eu estava namorando e não queria saber de responsabilidades. O fato é que o “Bloco dos Pescadores” foi configurado e providenciado: fantasias, estandarte, coreografia. Havia até uma marchinha própria, composta por Assis Menezes e outros:

“Nós somos pescadores,
Temos vida infernal.
Pesquei esta sereia
Pra brincar no carnaval”
“Sereia... sereia...
Com todo teu esplendor.
Joguei a rede fora,
Pra fisgar o teu amor”. Depois repetia.

A sereia era uma cavala de seis quilos que a gente comprou no comércio de Zé Nilson, pai de Auronílson, ali na praça. Ele tinha um balcão frigorífico e, na última noite, nós entramos com a sereia, digo, a cavala, estendida em cima de uma rede de pescador. Todo mundo fantasiado a caráter. Fizemos parte deste bloco: eu e Vera Menezes; Dante Alencar e Miriam Calado; Marconi e Durcélia; Durval e Salma; Mirival e Norma. Acho que me lembrei de todos. Nossa entrada no salão do Treze foi como uma apresentação teatral: a orquestra parou, o locutor anunciou o bloco, a orquestra começou a tocar nossa música... e entramos, alegres,faceiros e excitados. Assim que terminou esta apoteose, Mirival correu ao hotel Calado para colocar a cavala na geladeira. Era nosso almoço amanhã.

Minha irmã Elba estava no Garotas infernais de Mascote mas, por azar, adoeceu na véspera do sábado gordo e perdeu a festa. Lembro-me de que todas as componentes do bloco foram lá em casa visitá-la, fantasiadas: Tenísia, Arleta, Selca, Marta Grangeiro, Jacira Leite e tantas outras.

Mais uma vez, o carnaval terminou na praça, pelas seis horas. Fomos dormir no hotel, ali perto e fomos acordados, lá pela uma da tarde, por um garoto de uns 13 anos, vassoura à mão, de voz e gestos efeminados, que trabalhava no hotel, na faxina dos quartos, que disparou, como uma metralhadora giratória:

-Dona Isabel tá chamando vocês pro almoço...
- E eu preciso arrumar o quarto...
- Pelo cheiro, a cavala ficou uma delícia.

Espancando um resto de sono dos olhos inflamados, saímos do quarto e o ouvimos cantar, vozinha aguda, mas entoada: “Nós somos pescadores...”

Ele estivera atento aos ensaios. Não resistimos e caímos na risada...
Ainda no transcorrer desse ano, o Clube dos Doze, como uma fênix, renasceu dos escombros. A dinâmica e empreendedora Neide Almeida assumiu a tarefa de soerguer o clube e contou com a ajuda de inúmeras personalidades de nosso meio social, como Expedito Pereira, Leandro Bezerra, Alberto Morais, José Machado, Dorival Nascimento, Dedé Matias, Cazuza Alves, Doro Germano, Wilson Campos e tantos outros. A ressurreição do clube criou mais uma opção de lazer para uma juventude ansiosa por novidades, arejada e nutrida pela revolução de hábitos e costumes que vinha da Inglaterra e dos EUA, Beatles à frente.

Em 1966, quando se aproximou o carnaval, Jane Menezes me convidou para formar um bloco e eu topei. Ela conseguiu um patrocínio com Júlio Caldas, um amigo da família, que era representante do relógio Grão-Duque, muito popular à época, para todo o Nordeste, com sede em Recife. Não era muito dinheiro, mas ajudou a comprar as fantasias de relógio estilizado, cujos esboços vieram da Veneza brasileira, o estandarte, pagar as costureiras, essas coisas. Participaram do bloco: Jane, Jonei e Nélson Almeida, eu, Hélio, Itim Néri, Ricardo “Pinguim” e outros. Nós nos reuníamos na casa de João e Neide, horas antes de seguir para o clube. O Rodouro já escasseara, mas Itim, que era abonado, conseguira comprar alguns tubos. Toda noite ele se apresentava com uns três, um em cada bolso trazeiro e outro no bolso da camisa preta do bloco. Quando ele dava uma cheirada mais funda, caía desmaiado ao chão e nós, como urubus famintos, pegávamos os tubos e ensopávamos os lenços. Ele fingia que nem notava:

- Parece que esses tubos de hoje em dia secam mais rápido...

Nosso carnaval foi no Doze, mas o Treze comandou a folia, pois a maioria preferiu se manter conservadora. Havia pouca gente, mas foi animado e muito ordeiro.
Os Pinduras
Meus irmãos, Herialdo e Deca, conviviam com uma turma grande de adolescentes. Fundaram um grupo informal chamado “Os Pinduras”, composto também por Tadeu Pinheiro, Breno Teixeira, Juvêncio Gondim, Hildegardes Onofre, Edson Amorim, Bertim Pita, Edion, Cícero Wágner, Sérgio e Roberto Belém, dentre muitos outros. Na primeira noite em que o “Grão-Duque” adentrou o salão do Doze, eles, surpreendentemente, que estavam escondidos entre os veículos estacionados à frente do clube, ingressaram no salão logo atrás de nós, com um estandarte mambembe onde se lia: “Grão-Nada”. Uma espécie de pegadinha.

Um ano depois formamos o “Folia do Mug”. O Mug era um personagem de sucesso, acho que nascido na Itália e que se espalhara pelo mundo como uma epidemia. Era usado como talismã em chaveiros, artefatos e utensílios, estampado em todo tipo de gadget possível. Era um monstrinho, com aspecto de gremlin. O bloco tinha as fantasias, estandarte e até uma marchinha, composta, salvo engano, por Fantinha Menezes:

“O mug chegou...
Pra nos dar sorte
Sim senhor.”

Éramos 16 participantes: Anchieta Machado, Theresa Cristina Menezes, Célia, Marconi Carneiro, Darival e Marta Grangeiro, Wolney Magalhães, Alcélia Nobre, Váldsen Pereira, Fantinha, Miriam Calado, Ricardo “Pinguim”, Vânia, Jacira Leite, eu e meu irmão Herialdo. Brincamos no Treze, por opção da maioria, mas o Clube dos Doze também fez seu carnaval. O cloretil agora era a marca “Universitario”, da Argentina. Era uma droga: menor e menos cheiroso que o da Rhodia, de vidro e sempre apresentava problemas de manuseio. Contribuiu para a queda do uso do produto no país. Também já se começava a utilizar o loló, ou cheirinho da loló, uma explosiva, perigosa mistura de perfume, clorofórmio e éter, que pode provocar até parada cardíaca. Certa noite, Chico Luna apareceu no Treze com um vidro contendo uma substância desconhecida, para por no lenço e cheirar. Chico Romeiro estava na portaria, recebendo os ingressos. Quando viu Chico distribuindo doses, pegou o lenço e pediu uma. Cheirou... e caiu duro no chão da entrada, ficando desacordado por uns dois minutos. Enquanto alguns se abaixaram para socorrê-lo, muitos aproveitaram e caíram de graça na folia. Coisas da natureza humana.

Mais um ano se passou, o mundo mudava rápido e a gente acompanhava. O ano de 68 ficou conhecido na história como o “ano que nunca terminou”, alusão óbvia aos sonhos de mudança acalentados pela juventude em todo o planeta e que resultaram em frustração. Era a época dos hippies, do chavão “paz e amor”, do auge dos Beatles e, no Brasil, da Tropicália. Com a proximidade do carnaval, resolvemos organizar mais um bloco e o batizamos de “Alegria Alegria”, para combinar com o psicodelismo dominante e que a gente queria homenagear nos trajes. Muita gente, garotos e garotas, nos procuraram para aderir. O quartel-general, para não variar, era na casa de Neide. Um mês antes da abertura da folia começou o movimento de jovens trocando ideias, dando palpites, sugerindo detalhes. As meninas costuravam e colavam ali mesmo, um quarto no andar de cima. Foi um bloco de criação coletiva, cuja maior característica era o ecletismo da constituição e cujo maior efeito foi a camaradagem que resultou da convivência nos preparativos. Havia mais rapazes que moças, quase o dobro: eu, Vevé, Dudu Matos, Marcus Carneiro, Ítalo Pereira Matos, Jane e Jonei Menezes, Rita Pinheiro, Ivanhoé Bezerra, Vera Lavor, Djercília Almeida, Guálter e Dante Alencar, Nélson Almeida, Adérson Júnior, Márcia Carneiro e Ana Pinheiro. (Foto abaixo)

A diversão foi no Doze, pela primeira e única vez capitaneando o movimento, com o apoio da sociedade juazeirense, acostumada a frequentar as inesquecíveis vesperais do clube, que atraía gente jovem de toda a região aos domingos. Eu entrava com o bloco, mas namorava uma garota não-participante, a quem, no salão, dedicava minha atenção. Mas, quando o bloco resolvia ir ao Tênis, se exibir, por solidariedade eu o acompanhava, e a garota ficava. Só o espírito do carnaval pode explicar tal paradoxo.

No ano posterior, uma travessura imperdoável: embalados no álcool, um grupo de rapazes saímos pelas ruas do “corso” de Juazeiro lançando cal virgem sobre os curiosos que se aglomeravam nas esquinas. Era a versão local do mela-mela, que fazia muito sucesso nas localidades praianas do Ceará. Em anos anteriores, já se tornara comum se jogar maisena, arrozina, qualquer tipo de farinha fina uns nos outros, nas esquinas da cidade, por onde passavam os jipes sem capota. Outras pessoas, geralmente crianças, jogavam água, com bisnagas de plástico. Resolvemos inovar e compramos uma lata de cal virgem. Nós possuíamos uma Rural Willys, abrimos a porta de trás e nos sentamos ali, com a lata ao alcance das mãos. Quando chegávamos em uma esquina lotada, era só parar e disparar os punhados do pó. Se caísse no olho de alguém, era choro certo. Entre os participantes desta traquinagem estávamos, Luis Carlos, Hélio, Herman Morais, Chico Noca, Dante, eu e Hélido Magalhães. Foi um ato impensado, alavancado pelo irresponsável ardor juvenil, mas carnaval tem dessas coisas, principalmente quando os efeitos do álcool embotam a razão e predominam sobre o bom senso.

Depois daí somente vim a participar de outro bloco em fevereiro de 1971. Arregimentamos outra turma de número alentado e começamos a investir. A AABB era um clube bem frequentado, fazia festas jovens muito concorridas com Os Águias, Os Barulhentos e outras bandas locais, mas nunca patrocinara um carnaval. Além das peladas de futsal, muitos participantes do bloco habitualmente aparecíamos por lá, principalmente aos sábados pela manhã, para um bate-papo regado a uma cervejinha gelada, servida por Tarso e Pretim, com feijão verde, ovos cozidos e tripa de porco pra tira-gosto. Nosso bloco ajudou a decorar as inúmeras vidraças das portas e as paredes do clube com motivos carnavalescos. Ajudamos com as serpentinas e os confetes, para criar o clima. A AABB era-nos um lugar familiar, onde estávamos à vontade, com inúmeros amigos entre os sócios-bancários.

O bloco não possuía denominação nem tinha estandarte. As fantasias eram variadas, uma diferente para cada noite. Era mais um agrupamento do que um bloco, mas sobravam animação e vontade de se divertir. Entre os inúmeros componentes, me lembro de Pereira, do Incra; Bertim Pita, Aurileide Pires, Bosco Mendonça, Célia Baiana, eu, Hildegardes Onofre e muitos outros.

Na primeira noite fomos fantasiados de havaianos. As mulheres de sarong e uma peça na parte superior, escondendo os seios, com colares coloridos de plástico. Os homens fomos de sarong, sem camisa, com os mesmos colares. Na entrada, o inesperado:

- Não é permitido entrar sem camisa.

A diretoria do clube estava plantada à porta. Tudo gente amiga: Lucinery, Vágner Oliveira, Haroldo, Edílson Sobreira, Fiúza. Ficamos pasmos.

- Não acredito que vocês vão nos barrar, depois de tudo que fizemos, apelou Pereira.
- A diretoria decidiu e não há exceção. Sem camisa, não entra.
- Mas é carnaval e nós estamos fantasiados de havaianos, ponderei.
- Onde já se viu havaiano de camisa, uma das meninas deixou escapar.

Não houve argumento que convencesse. Compráramos duas mesas no clube, mas ninguém queria dar o braço a torcer. Ou se entrava como se estava, ou nada. Deu o nada.

No impasse, todo mundo contrariado, alguém sugeriu:

- Neste caso, vamos para o Tênis.

Não precisou nem votar. Ir ao Crato era uma forma de esnobar a truculenta, retrógrada decisão da diretoria da AABB. E para lá fomos.

Chegando ao Tênis, semi-lotado, pedimos para falar com a direção do clube e explicamos toda a situação. O diretor Juvêncio Mariano, que nos atendeu:

- Precisamos consultar o dr. Jáder. Ele é quem vai decidir.

O dr. Jáder era Jáder Nogueira Santana, Juiz de Direito da cidade, a quem eu conhecia por causa do cartório e porque ele era amigo de Idelmar, um primo meu, também Juiz.

Ele nos recebeu de braços abertos. Combinamos de comprar duas mesas para o grupo todo, para as quatro noites, desistindo de vez da AABB.

O grupo era grande e se esforçou para ter um carnaval animado, mas havia uma sensação de incompletude no ar, faltava alguma coisa para que a festa fosse um sucesso.

Este foi um carnaval de decepções e frustrações, de excessos e extravagâncias. Já éramos adultos e a inocência, gradual e quase imperceptivelmente se despedira, cedendo lugar a desejos carnais, mais lascivos.

Na manhã de quarta-feira, demasiadamente sonolento, cansado, ainda sob o efeito embriagador do álcool consumido, guiando um Opala azul repleto de caronas entorpecidos, sob minha inteira responsabilidade, em direção ao Juazeiro, sofri um ataque agudo de remorso e concluí, filosofando com os botões da camisa, que aquele havia sido o último carnaval de minha juventude. As dissipações, as libações e os exageros comportamentais, concentrados no exíguo intervalo de um tríduo momino,  empurraram minha autoestima para profundezas de fossas oceânicas e soaram em meu cérebro agitado como tambores anunciando a necessidade de mudança, de uma nova postura na vida e quando o sol despontou no horizonte e um manto dourado acobertou a natureza neutra, o raiar de um novo dia, indiferente mas impávido, era a metáfora perfeita para a minha solitária resolução.
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Esta foto é da primeira noite de carnaval do Doze, em 66, quando da reabertura. Aparecem:
Em pé: Nilton Gomes, Leandro Bezerra e João Menezes; Sentados: Letícia Pereira, Elias Rodrigues, dra. Águeda, a juíza; Neide Almeida e Expedito Pereira