terça-feira, 21 de abril de 2015








Uma declaração infeliz
Três dias depois, ele me telefonou, pleno meio-dia, e pediu que eu fosse ao hotel Verde Vale. Chegando lá, encontrei-o sozinho em uma saleta. Pediu-me que providenciasse uma série de atos de nomeação, inclusive a de Zé Ivan, para a Secretaria de Administração, e a minha, para a recém-criada Ouvidoria-Geral do Município.
- Vou à Prefeitura preparar os atos. Quanto a sua oferta, vou pensar e lhe respondo dentro de alguns dias...
Tudo preparado, saí com Orlete. Nas escadas, cruzamos com o prefeito, chegando para a solenidade de posse. Encabulado, nos cumprimentou vagamente.
Entramos no carro e Orlete:
- Como é que você está se sentindo, meu filho?
- Aliviado.
A única visita que recebi, de solidariedade, foi de Salviano, acompanhado por Catarino.
Três dias depois, oficiei ao prefeito, agradecendo e declinando da nomeação ofertada.
Na semana seguinte, fui procurado por um servidor municipal que se tornara meu amigo. Ele me disse que estivera no Panorama Hotel para despachar com o prefeito quando chegou uma pessoa muito conhecida na sociedade e disse:
- Dr. Raimundo, jamais o senhor poderia ter exonerado o dr. Sávio. Pegou muito mal.
- Fui obrigado. O nome dele esteve envolvido no escândalo do Instituto, na época de Salviano.
Raimundo me nomeou com a caneta de prefeito e poderia me exonerar, como fez, com a mesma caneta, sem qualquer objeção de minha parte. Faz parte do jogo político e suas circunstâncias, extremamente voláteis. Jamais, contudo, ele poderia usar esse tipo de argumentação para se justificar. Ele conhecia toda a história, nos mínimos detalhes e sabia que eu estava isento de qualquer culpa e acima de qualquer suspeita. Aquela, portanto, foi uma declaração infeliz e imperdoável.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Reprisando o filme do Instituto
Depois de alguns meses de gestão, Raimundo concluiu que não dava para continuar com o INSS. Quase toda a verba federal recebida mensalmente era usada para pagar a previdência oficial, uma caixa preta, em razão de vários parcelamentos ao longo dos anos. Resolveu criar o Instituto Municipal. De novo, encampei a ideia, com a convicção reforçada por uma lei recente que elevara os níveis de segurança e as exigências de garantias para um funcionamento adequado do órgão. Depois de uma pesquisa pela internet, contratei uma empresa especializada do Mato Grosso do Sul para a elaboração da lei e para a instalação da repartição. Fui o único assessor do prefeito que vestiu a camisa do Instituto. Proferi palestras em escolas e reuni pelo menos três vezes os servidores das diversas secretarias que funcionavam no prédio da Prefeitura, para esclarecer as regras e dirimir dúvidas. Havia muita desconfiança, por causa dos antecedentes, por conta da oposição do Sindicato, bem como da Câmara de Vereadores.
Certa tarde, fiz um pronunciamento no plenário da Câmara, tentando convencer os edis das vantagens da adoção do Instituto Municipal. Quase fui agredido. Na plateia, apenas oposicionistas, gente ligada ao PT e ao Sindicato dos servidores. Após minha fala, fui entrevistado por Murilo Siqueira e disse que, se o Instituto ficasse sob minha responsabilidade, eu garantiria o bom desempenho dele, tal a clareza das regras agora vigentes. Contudo, o projeto de lei foi retirado de pauta, porque não seria aprovado.
Milagrosamente, uns dois meses depois, Raimundo conseguiu convencer os vereadores e o projeto finalmente foi acolhido, sem mudança de uma vírgula. A empresa contratada voltou a Juazeiro e apresentou a lista de exigências para a instalação: prédio próprio, pessoal, computadores, móveis, utensílios, tudo bem relacionado. Fomos nos encontrar com o prefeito no Ingra Hotel. Expliquei-lhe que, de acordo com o texto da lei aprovada, o Secretário de Administração seria automaticamente o gestor do órgão. Raimundo não falou nada, apenas gesticulou, abrindo as mãos sobre a mesa, no que interpretei como uma aprovação, mas sem entusiasmo, o que me causou a desconfiança de que algo não estava bem.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

DR. FLORO BARTOLOMEU DA COSTA (Fernando Maia da Nóbrega)

I – A CHEGADA
Em princípio de maio de 1908 (01), dois homens montados a cavalos e puxando duas burras, carregadas com apetrechos, sob um sol escaldante, cruzaram as ruas empoeiradas de Juazeiro e pediram informações sobre onde morava o padre Cícero. Um chamava-se Floro Bartolomeu da Costa e o outro Adolfo Van den Brule. Diferentemente da maioria dos emigrantes em busca dos milagres ocorridos na cidade, os dois forasteiros vinham com o objetivo declarado de explorar as “minas de cobre do Coxá”, pertencentes ao sacerdote, localizadas na cidade de Aurora. O primeiro era um médico baiano e o segundo, um francês, engenheiro de minas, intitulado de Conde. Este fixou-se na cidade definitivamente, constituiu família e se tornou amigo íntimo do sacerdote. Já o doutor Floro, de simples ádvena, com o correr dos anos, transformou-se no comandante dos destinos políticos da cidade por quase duas décadas consecutivas.
Nascido em Salvador, Bahia, a 17 de agosto de 1876, sendo filho legítimo de Virgilio Bartolomeu da Costa e de dona Maria Josefina da Costa de Jesus Batista (02), recém-formado em medicina, clinicou em Patamuté, município de Capim Grosso e depois em Vila Ventura, distrito de Morro do Chapéu. Foi no primeiro povoado que conheceu o conde Adolfo Van den Brulle, do qual se tornou sócio na exploração do garimpo local. O êxodo da dupla para o sul cearense não foi única e exclusivamente o intuito de explorar as minas do Coxá, porquanto seria trocar o certo pelo duvidoso. Há indícios que o motivo tenha sido a fuga da justiça ou o medo da vingança, em razão de um assassinato praticado pelo doutor na cidade baiana. Há duas versões sobre o a motivação do delito praticado. Em uma, Floro Bartolomeu se defende, alegando legítima defesa ao ser agredido por um garimpeiro; noutra fala-se em crime passional, posto ter o médico se apaixonado pela primeira esposa do conde, dona Albertina e tendo, por essa razão, morto um Don Juan local que cortejava a condessa. (03)
O primeiro encontro entre o padre Cícero com os dois recém-chegados teve um caráter estritamente comercial no tocante à exploração das minas do Coxá, grande parte pertencente ao sacerdote. Embora exercendo a medicina, Floro era advogado provisionado e orientou ao reverendo sobre a necessidade da demarcação judicial com o intuito de assegurar legalmente a posse da terra. Coube aos visitantes essa incumbência. Nascia um forte vínculo de amizade entre o padre Cícero e doutor Floro que duraria quase vinte anos. Foi a união perfeita de duas pessoas que se completavam. Um era a luva; o outro, a mão.
II - FIXANDO-SE NA CIDADE.
O padre Cícero foi muito além de um simples anfitrião para o doutor Floro: foi o pai que recebe de braços abertos o filho pródigo. Deu-lhe casa, comida e emprego. Afagou-lhe o ego a tal ponto de mandar fazer calça e paletó de linho e presentear, de surpresa, ao médico que usava uma só vestimenta rota e velha.
Por seu lado, Floro que havia saído de sua terra natal no mínimo em situação embaraçosa, encontrou em Juazeiro a boa semente para seus sonhos. Em troca da receptividade, defendeu com unhas e dentes através do jornal o Rebate, as críticas deferidas pelo bispo interino D. Manuel Lopes, quando em visita ao Crato, dirigidas ao povo de Juazeiro.
Abraçou ao lado do padre Alencar Peixoto, José André de Figueiredo, major Joaquim Bezerra de Menezes, José Marrocos e outros a causa da independência administrativa do distrito em relação a Crato.
Sua residência tornou-se ponto de encontro de políticos e pessoas da alta sociedade juazeirense. Lá eram realizados saraus literários com leitura de poesias e músicas. Os serões varavam a madrugada onde a boa prosa e piadas divertiam os participantes.
Tratando as pessoas com delicadeza e atenção, logo despertou a confiança de todos, a ponto de tornar-se padrinho de “São João” de muitos garotos da cidade. É bom realçar que na cultura nordestina daquela época existiam dois tipos de batismo: na pia batismal e na “fogueira de São João”, ambos com relevante expressão social. Se cabia ao Padre Cícero ser o padrinho oficial com aspersão de água, era do doutor a preferência sobre a labareda de fogo. O compadrio era levado a sério criando forte vínculo entre as partes envolvidas. (04)
Tornou-se de imediato o médico particular do padre Cícero e abriu uma farmácia na rua São Pedro denominada “Ambulância de Dr.Floro”, local onde fazia pequenas cirurgias e receitava gratuitamente as pessoas desvalidas de recursos. (05) Pouco a pouco doutor Floro foi consolidando sua imagem de homem prestativo, caridoso, amigo incondicional do padre Cícero e defensor da cidade.
III - O POLÍTICO.
Dr. Floro (de cócoras) numa das trincheiras durante a Revolução de 1914
É evidente que o sonho de ser prefeito do novel município, quando veio a independência, havia povoado a mente do doutor Floro. Porém, como homem prático fez, de pronto, uma análise da conjuntura, esboçou o retrato dinâmico da realidade local e do período, e foi além das aparências,  deduzindo  haver pouquíssimas chances de ser o escolhido por simples razão: era um adventício! Faltavam-lhe tanto as raízes genealógicas na região, quanto a posse de propriedades, qualidades exigidas então pela cultura da época.
Arguto, sutil, engenhoso, Floro tinha plena consciência que era alter ego do padre Cícero e sendo conhecedor da inabilidade do venerando para situações práticas e técnicas do dia a dia, posto dedicar-se total e exclusivamente da parte pastoral, viu a oportunidade de tornar-se o senhor absoluto da política local usando o sacerdote! Sendo o braço direito do padre certamente conduziria o destino político da cidade em tendo-o  como prefeito! Para tanto, teria de eliminar os pretendentes ao cargo afastando algumas pessoas formadoras de opinião que circulavam em torno do reverendo. E foi assim que passou a agir.
Seu primeiro e grande empecilho foi José Marrocos, sem sombra de dúvida, o amigo mais íntimo do reverendo e nutridor de clara antipatia ao médico baiano, a ponto de chamá-lo de aventureiro. Padre Azarias Sobreira o define o seminarista da seguinte forma:
“(...) era um grandioso abolicionista cearense, jornalista experimentado, professor de profissão, teólogo da questão religiosa local e, além do mais, alvo de rasgada estima de Alencar Peixoto (...)” (06).
Após pequeno incômodo, decorrente talvez de uma pneumonia, Marrocos foi medicado pelo doutor Floro vindo a falecer em 14 de julho de 1910, gerando a suspeição de envenenamento perante o povo.
No campo político, dois adversários deviam ser removidos: padre Alencar Peixoto e José André de Figueiredo. Quanto ao primeiro, devido à virulência e gênio atribulado, logo se afastou do convívio do reverendo; ao segundo, Floro divulgava inverdade e estimulava intrigas com políticos adventícios.
Em 1911, como nome de consenso, padre Cícero tornou-se o primeiro prefeito da cidade, ficando com doutor Floro a presidência da Câmara de Vereadores.
A construção do raciocínio do doutor fora perfeita. Nomeado prefeito, padre Cícero entregou-lhe o destino da cidade! Floro de imediato fez modificações na localidade. Providenciou a coleta sistemática do lixo e pavimentou algumas ruas, embora cobrasse dos proprietários das casas certo valor por metro de calçamento e arbitrariamente destinava a si as receitas provenientes da arrecadação:
“(...) e pagando aos empreiteiros apenas a metade das mencionadas quantias.
A outra metade ele embolsava em pagamento de seu trabalho de administrador de tais obras. (“...)” (07).
De tal forma Floro apoderou-se da prefeitura que levou ao padre Cícero afirmar:
“Sôbre o governo do município eu nada sei: quem faz tudo é o Doutor Flóro”  (sic) (08)
Em 1913 comandou a revolução que depôs o governador do Estado, Franco Rabelo, ocasião em que foi eleito presidente da assembleia, reunida em Juazeiro, assumindo, logo após, o cargo de governador até março de 1914.
Na primeira eleição após a emancipação do município foi eleito deputado estadual para o biênio 1915\16. Reelegendo-se para os anos 1917\1920. Caracterizou-se como parlamentar combativo nos interesses de Juazeiro e temido por seus pares.
Também exerceu o cargo de deputado federal por dois mandatos; 1921\1924 e 1925\1926. Repeliu corajosamente a injúrias cometidas ao padre Cícero pelo deputado Paulo Morais e Barros.
Em 1925, o presidente da República Arthur Bernardes encarregou Floro Bartolomeu, na época deputado federal, de defender o Ceará dos ataques da C oluna Prestes. Tem-se, então, uma ideia do prestígio do doutor em escala nacional.
A fama de tirano, déspota, extrapolava as fronteiras do Juazeiro. Na Assembleia Legislativa do Ceará Floro Bartolomeu era denunciado por mortes acontecidas na cidade do padre Cícero. O deputado Godofredo Maciel defendendo o colega juazeirense assim se pronunciou:
“Só pode extinguir bandido, matando bandido!”
Martins Rodrigues, outro membro da Assembleia, retorquiu:
-“Nesse caso, o Floro deve suicidar-se.” (09).
IV –  COMPORTAMENTO MÓRBIDO
Quais os fatores que levaram o doutor Floro a  modificar tão bruscamente seu modo de ser e agir?  Do homem polido, tratável, festeiro e amigo, foi-se transformando, dia a dia, numa pessoa ríspida, bruta, insociável e perigosa!
Amália Xavier atribui essa mudança comportamental a dois fatores. O primeiro, decorrente de uma doença, a osteíte, causadora de sua irritabilidade a todo o momento.  Num segundo plano estaria o poder adquirido pela sua ascensão política, transformando-o num déspota.
O historiador Irineu Pinheiro, seu amigo particular, mostra essa modificação na personalidade do Floro:
“[...] “mas com o tempo com as lutas que teve de sustentar, se lhe  foram aos poucos acidulando o caráter até atingir-lhe o estado da alma  as raias de extrema irascibilidade, de nítida morbidez”(10)
Mas não devemos deixar de lado a propensão do médico às crises de explosões de temperamento desde sua saída da Bahia onde cometeu um crime independente do motivo que o levou a ceifar a vida de um homem. Esse fato, em si, já denotava o espírito bélico existente desde cedo. Se conseguiu ocultar seu mórbido temperamento sob a pele de cordeiro, quando aqui chegou, é porque se fazia necessário numa terra estranha. Como bem frisou padre Azarias Sobreira:
“Para ele pesavam, mais do que tudo as vantagens políticas imediatas” (11),
Enfoquemos essa transformação psicológica do doutor Floro nos seguintes campos:
a) O Criador e a Criatura
O próprio padre Cícero foi vítima dos impulsos coléricos do médico baiano. Certo momento, durante a revolução de 1914, Floro insistia em fazer saques nas cidades vizinhas para poder sustentar a tropa. Padre Cícero ao discordar foi acintosamente confrontado:
“Ou faz assim, ou vou-me embora, deixando Você nesse cipoal” (sic) 12.
Noutra ocasião ao ser contrariado pelo padre Cícero quanto à prisão injustificada de pessoas por serem apenas amigas do seu adversário político Zé Geraldo, Floro respondeu-lhe aos gritos:
--(...) “Você é um Padre Velho besta”! Quem entende de política sou eu! Trate de seus romeiros bestas e não me azucrine a paciência, que padre para mim é m. (13).
O domínio do doutor sobre o Patriarca foi cada vez mais absoluto e crescente. Chegou a transferir coercitivamente o padre Cícero para um pequeno quarto ao lado da cadeia municipal, alegando que a residência do reverendo era insalubre. E, por duas vezes em público, proibiu o padre Cícero de realizar suas vontades.
Certa feita, cansado do seu cativeiro, quis visitar uma pessoa amiga. Quando pôs o pé no estribo do carro ouviu os gritos do Floro que se aproximava:
-“Volte padre; não vai não!” (14).
Doutra feita, quis visitar a Serra do Horto. O farmacêutico Zé Geraldo da Cruz providenciou um transporte para levar o sacerdote e quando padre Cícero entrou no carro, o médico simplesmente o puxou pelo braço e ordenou:
-“Não vai!” (15)
O padre Cícero já não possuía vontade própria fora de sua área religiosa; Floro era o mandachuva local.
b) O Coronel
Senhor absoluto do baraço e do cutelo doutor Floro tornou-se o Luiz XIV regional e se apoderou da frase "L'État c'est moi!” Desrespeitava a todos e a tudo se sentindo a cima da moral e da lei. O povo lhe dera a delegação de representá-lo como deputado, porém, ele estendeu esse poder agregando o de delegado, promotor, juiz e déspota supremo da cidade. Sem a devida competência legal, o deputado tomou as seguintes providências em alguns casos mais notórios:
I – Tendo o padre Cícero recebido um touro da raça zebu, presente de Delmiro Gouveia, entregou o animal aos cuidados do beato Zé Lourenço, morador do sítio Baixa da Anta. Diferente do gado mestiço existente na região e principalmente por pertencer ao padre Cícero, o touro foi tratado com carinho especial. Além de capim novo, era banhado com frequência e ornamentado com laços e fitas. Não custou muito para que o povo acreditasse que o “Boi Mansinho” operasse milagres através de sua urina e fezes. 
Criticado pela imprensa, Floro prendeu o beato Zé Lourenço e alguns seguidores, mandou executar o animal, distribuiu a carne à população e no almoço destinado aos presos havia bife extraído do boi.
II - Os penitentes, conhecidos como Corte Celestial, era um grupo constituído por pessoas que acreditavam ser a reencarnação de santos católicos e perambulava pelas ruas cantando ladainha e entoando cânticos religiosos.  Sob a suspeita de haver agredido um homem, Floro mandou prender todos e deportou alguns membros do grupo. 
III – Ele reuniu em Juazeiro os mais famosos cangaceiros de Pajeú de Flores e Riacho do Navio, Pernambuco, formando um verdadeiro exército para a deposição do governador do Estado major Franco Rabelo. Percorreu do sul do Ceará até Fortaleza, espoliando e matando adversários na chamada “Revolução de Juazeiro”.
IV – Comandou o “Batalhão Patriótico” onde arregimentou 1.200 cangaceiros e combatentes para enfrentar a Coluna Prestes.
V- Em 1925, mandou executar sumariamente ladrões e malfeitores. Eram indefesos ladrões de galinha retirados da cadeia à noite e executados na rodagem ligando Juazeiro a Crato, chegando a número superior a 70!
“(...) Foi ordenado o fuzilamento de dezenas de homens nem sempre os acusados de crime de morte ou roubos e isto trouxe revolta ao povo que se escandalizou com as barbaridades cometidas(...)” (16).
VI - Ao denunciar as barbaridades praticadas por doutor Floro, o hebdomadário ”O Ideal”, pertencente a José Geraldo da Cruz, foi empastelado e seu editor teve que se mudar para Crato sob pena de ser assassinado!  
c) Casos Famosos
Uma faceta que deve ser desmitificada do doutor Floro é a pecha de valente. Seria mesmo Floro um homem de coragem comprovada, intimorato, ou simplesmente uma pessoa poderosa capaz de se fazer temido pelo poder absoluto que detinha e pelas maldades praticadas?  
Ao analisarmos miudamente algumas atitudes do doutor, veremos que muitas vezes se esquiva das situações difíceis, adoece nos momentos de luta e noutras se acovarda. Deduzindo-se, então, que Floro era frio analista e passava ao arrepio do perigo iminente e evitava confrontos que não lhe eram propícios. Eis alguns casos:
I - Quanto à imputação sobre os “Crimes da Rodagem” defendia-se dizendo que apenas deixava a polícia agir...
II – Ao comandar o “Batalhão Patriótico” que enfrentou a “Coluna Prestes” ao passar por Campos Sales, Floro adoeceu. Geraldo Menezes Barbosa assim comenta:
“(...) os 2 mil homens do Batalhão Patriótico deslocavam-se à cidade de Campos Sales sob o comando do Dr. Floro. Durante a viagem o valente líder sentiu-se doente e logo agravado na sua enfermidade, sendo obrigado a voltar a Juazeiro, porém comandando seu Batalhão à distância. (...)” (17). (sic)
III – Durante a “Revolução de Juazeiro”, ao invadir Barbalha, Floro determinou que não houvesse nenhuma algazarra em virtude do prefeito ser amigo do padre Cícero. Ficando os revoltosos embaixo de uma frondosa tamarineira, Floro com dois auxiliares se dirigiu à prefeitura. Ao confabular com o chefe da municipalidade, Floro ouviu tiros provenientes do local onde ficaram os revoltosos. Inconformado com a desobediências da ordem anteriormente dada, dirigiu-se ao local, apeou-se do cavalo, colérico, com uma chibata em punho gritou: 
“_ Quem foi quem deu o primeiro tiro?”
Após estupefação geral, um silencio sepulcral, morno, tenso, tomava conta do grupo.
Repetiu Floro:
-“Quem foi o cabra sem-vergonha que deu o primeiro tiro?”.
Após alguns instantes de tensão, um vulto assomou à frente do chefe e disse sereno: 
-“Seu doutor não foi um cabra sem-vergonha que deu o primeiro tiro. Quem deu o primeiro tiro foi um de bem. Fui eu!” (18).
Era a voz firme de Canuto Reis.
Inconformado com a desobediência, Floro dirige-se a Canuto Reis com o objetivo de lhe tomar o rifle de suas mãos. O revoltoso dá um passo atrás e diz com firmeza:
_ “Seu doutor, se vosmicê passar o pé daí prá diante, por Deus que nos ouve, a tora de cima cai primeiro que a debaixo” (19) (sic).
Acovardado ou aconselhado por amigos, Floro deu meia volta e foi embora.
III - Outro fato que demonstra a tibiez do médico diante de pessoas determinadas e intimoratas aconteceu durante a invasão da “Coluna Prestes” que acampara no sítio “Izidoro” por mais de uma semana e se dirigia ao baixo Jaguaribe. Doutor Floro, mais uma vez doente, deitado numa rede no vagão de trem, em rumo a Fortaleza, soube que uma composição ferroviária, com a Força Policial do Piauí, sob o comando do capitão do exército Gaioso e Almendra, chegara a Iguatu. Mandou chamar o militar e aos gritos indagou:
- “Então os revoltosos vão para o Jaguaribe e o senhor vai com sua tropa em direção de Lavras?”
Gaioso perfilado, calmo retrucou:
- “A linha não tem desvio para Jaguaribe. E V.Excia. que vai para Fortaleza? (20).”
c) Suspeição em alguns crimes.
O grande orador e cônsul romano Cícero teve a coragem de acusar Catilina de conspirador do estado romano ao pronunciar a frase: “O Senado tem conhecimento destes fatos, o cônsul tem-nos diante dos olhos; todavia, este homem continua vivo”! 
Em Juazeiro todos eram sabedores das barbaridades e dos hediondos crimes praticados por doutor Floro Bartolomeu, mas silenciavam sobre os fatos por uma única razão: o medo! Padre Azarias Sobreira bem descreve esse receio:
“(...) Floro Bartolomeu não era somente pouco ou nada convidativo, mas também perigoso” (21).
Somente o padre Manuel Macedo Filho não se calou e intimorato como Cícero, o senador romano, teve a firmeza e a intrepidez cívica de denunciar essas atrocidades através de acirrada campanha!
Alguns escritores juazeirenses utilizaram de certos artifícios literários para denunciar, de forma indireta, os crimes cometidos pelo doutor Floro. Ora se debruçavam sobre a técnica do subtendido onde expõem os fatos evitando se comprometer, ou como no caso de Xavier de Oliveira que usando de pressupostos expõe suas ideias de maneira não explícita, mas que nos leva à conclusão que Floro teve participação direta em vários crimes.
Muito embora doutor Floro jamais tenha deixado provas de sua participação em alguns homicídios, usando constantemente o álibi de nunca estar no local e data do crime, mas é do saber geral que um delito dessa magnitude partia de uma pessoa de alto cargo e que tinha autorizado a execução.
Vejamos algumas mortes  
1- José Marrocos
No tocante a morte repentina e inexplicável de José Marrocos comentava-se à boca miúda ter sido Floro Bartolomeu o autor, posto que, logo após medicar o professor que tivera um pequeno incômodo, este veio a óbito suspeitando-se de envenenamento. Mais uma vez o médico usara seu álibi preferido: ausentara-se de Juazeiro, indo para sua fazenda em Missão Velha, só voltando para o sepultamento no dia seguinte.  
2 - Paulo Maia
Assassinado no dia 09 de julho de 1914, a mando de Nazário Landim, delegado local, e tendo como executor o pistoleiro Mané Chiquinha.
Teve doutor Floro participação nesse homicídio? As evidências confirmam os fatos. Havia razões pessoais e políticas para que Floro tivesse consentido e aprovado a execução. No dia do crime, Floro encontrava-se em Fortaleza. Vejamos:
a) Paulo Maia era filho do ex-deputado Aristides Ferreira de Menezes, amigo e correligionário de José Belém de Figueiredo, deposto do cargo de prefeito do Crato a “manu militari” por Antonio Luiz Alves Pequeno III, uma das pilastras do doutor Floro na “Revolução de Juazeiro”;
b) Paulo Maia, embora parente do padre Cícero, sempre acompanhou politicamente seu cunhado  José André de Figueiredo  inimigo figadal de doutor Floro;
c) Nazário Landim, autor intelectual do homicídio, fora nomeado delegado de Juazeiro por Floro Bartolomeu;
d) Mané Chiquinha, o executor, fora trazido de Pajeú das Flores, Pernambuco, e era um dos cangaceiros preferidos do médico.
O deputado e escritor Xavier de Oliveira no seu livro “Beatos e Cangaceiros” acusa Floro da participação da morte de Paulo Maia através de ideias não explícitas, mas percebíveis através de pressupostos quando afirma sobre esse crime:
“(...) No sertão os cangaceiros só cometem um crime quando teem as costas quentes. (...) Fulano me dá cem mil réis p’réu dá um carreira... em sicrano, que vosmecê acha? “Ganhe seu dinheiro, responde um chefe (...) um coronel ou doutor, nunca um padre” (15) (sic).
Xavier de Oliveira acusa diretamente Floro, inocentando a participação do padre Cícero.

V – A MORTE
Floro Bartolomeu da Costa foi o deputado federal nordestino mais prestigiado da “Velha República.” O presidente Arthur Bernardes em reconhecimento aos feitos do deputado ao depor o governador Franco Rabelo, encarregou-lhe a missão de combater a “Coluna Prestes” em nossa região.
Com correr dos anos, sua saúde abalada pela osteíte causadora de terríveis dores de cabeça, doutor Floro, solteiro e pobre, falece no Rio de Janeiro em 08 de março de 1926, acometido de uma “angina pectoris”.
Em virtude dos relevantes serviços prestados ao Brasil, Floro foi sepultado, no Rio de Janeiro, com as honras de “General Honorário do Exército Brasileiro”.

N o t a s 
1- OLIVEIRA, Amália Xavier de. O padre Cícero que eu conheci. Rio de Janeiro 1969 p. 217. Acesso em março 2015. Depoimento de Carlos Navarro
2- OLIVEIRA, Amália Xavier de. O padre Cícero que eu conheci. Rio de Janeiro 1969 p. 217.
3- http://www.fotosmcba.com.br/pagina.php?id=180 Acesso em março 2015. Depoimento de Carlos Navarro
4- OLIVEIRA, Amália Xavier op.cit. p.218.
5- op.cit.
6- SOBREIRA, Azarias padre. O patriarca de Juazeiro.Ed vozes Fortaleza 1968 p.73
7- DINIZ, M. Mistérios do joazeiro. Tip. do “O Joazeiro”.Joazeiro-Ce,1935
P.68
8- OLIVEIRA Amália Xavier op.cit p.220
9 MACEDO joaryvar. Império do bacamarte. Universidade federal do ceará.Fortaleza 1990 p.212 s apud MACEDO,Nertan. Floro Bartolomeu o Caudilho dos Beatos e Cangaceiros. Rio de Janeiro.Ag.Jorn.Image,1970, p.164
10- PINHEIRO, Irineu. O Joaseiro do Padre Cícero e a Revolução de 1914.2ª Ed.Ed.IMEPH.Fortaleza 2011 1 p.24
11- SOBREIRA, Padre Azarias oc. P 76.
12- Ibidem p227
13- DINIZ, M oc. p 70. Muito embora Manuel Diniz, talvez para não ferir a imagem do padre Cícero, afirme que essas palavras foram direcionadas ao padre Macedo, discordo, posto ter sido ditas aos gritos e diretamente ao padre Cícero.
14- FILHO,B.Lourenço. Obras Completas de Lourenço Filho volume I 3ª Edição Juazeiro do Padre Cícero. Edições Melhoramento p 80. Apud P.Manuel Macedo,Juazeiro em Foco,Fortaleza 1925 p 9.
15- Id. IBID 
16 - OLIVEIRA Amália Xavier op.cit p224
17- BARBOSA, Geraldo Menezes. História do Padre Cícero ao Alcance de Todos. Ed ICVC.Juazeiro do Norte 1992. P.69
18- OLIVEIRA, Antonio Xavier. Beatos e Cangaceiros. Rio de Janeiro 1920 p.
19- Id. ibidem
20- GUIMARÃES, Hugo Victor. Deputados Provinciais e Estaduais do Ceará. Assembléias Legislativos de 1835 a 1947 Ed.jurídica Ltda. apud http://ufdc.ufl.edu/AA00000242/00001/245.Março 2015
21- SOBREIRA, Padre Azarias op.cit p.74.
BIBLIOGRAFIA
BARBOSA, Geraldo Menezes. História do Padre Cícero ao alcance de todos. Juazeiro do Norte Ed ICVC1992
CAVA Ralph Della Milagre em Joaseiro, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976
FILHO,M.B.Lourenço. Juazeiro do Padre Cícero. Ed.Melhoramento3ª Ed. São Paulo 
GUIMARÃES, Hugo Victor. Deputados Provinciais e Estaduais do Ceará- Assembleias Legislativas 1835 -1947 Ed. Jurídica Ltda. Fortaleza. Site: http://ufdc.ufl.edu/AA00000242/00001/5j
MENEZES, Fátima. Homens e Fatos na história do Juazeiro. recife,Ed Universitária da UFPE
1989
MACEDO, Joaryvar. Império do Bacamarte. Fortaleza. Universidade Federal do Ceará 1990
MONTENEGRO, Abelardo F. Fanáticos e Cangaceiros. Fortaleza.Ed.Henriqueta Galeno.Fortaleza 1973
OLIVEIRA, Amália Xavier. O Padre Cícero que Eu conheci (Verdadeira história de Juazeiro) Rio de Janeiro 1969
OLIVEIRA, Antonio Xavier. Beatos e Cangaceiros. Rio de Janeiro 1920
 OTACILIO,Anselmo. Padre Cícero - Mito e Realidade. Ed. Civilização Brasileira S.A. Rio de Janeiro 1968.
PINHEIRO,Irineu. O Joaseiro do Padre Cícero e a revolução de 1914.Editora IMEPH Fortaleza 2001
ROCHA, Antonio José Dourado. Blog “Morro do Chapéu” http://www.adourado.com.br/pagina.php?id=180
SOBREIRA, Padre azarias. O Patriarca de Juazeiro. Ed. Vozes LTDA. 2ª Ed. Fortaleza 1968



terça-feira, 31 de março de 2015

Na antessala da morte
Ainda no primeiro ano da gestão, a equipe começou a se desfazer. Jaime se desentendeu com um parente do prefeito e pediu a exoneração. Foi substituído por Liberal. Depois saiu Wilton Bessa, substituído por Bismarck, seu principal assessor. Mais adiante sairia Nailê, trocada por Solange Tenório. Eu já perdera o ímpeto inicial, desiludido especialmente com os rumos da Educação, onde predominava o corporativismo, defendido rigidamente pelo Sindicato dos Servidores.
Fomos convidados pela Caixa Econômica para um seminário em Natal-RN, sobre finanças públicas. Eu estava escalado para viajar, em companhia de Wilton e de Bismarck, representando o prefeito. Desisti na última hora, porque achei que meu trabalho não tinha envolvimento direto com o tema e também porque Natal é um bocado longe.
Na volta, o veículo oficial do prefeito capotou antes de chegar a Missão Velha, matando Bismarck e o gerente da Caixa de Juazeiro. Só escapou Wilton, com vários ferimentos.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Uma operação cinematográfica
A formatação da futura equipe administrativa foi quase toda em minha casa. Por indicação de Tasso, vieram dois servidores da SEFAZ: Jaime Cavalcante, para a Secretaria de Finanças e Wilton Bessa, para o Planejamento. O restante era gente da coligação: Alcides Muniz, na Saúde; Wilton Almeida, como Chefe de Gabinete; Nailê, na Educação; Loureto, nas Ações Sociais; Felipe Santana, no Turismo; Mendonça, na Indústria e Comércio; Mário Bem, na de Obras; Silva Lima, no Meio-Ambiente; Sávio Beserra, na Agricultura; Sérgio Gurgel, na Procuradoria, logo substituído pelo filho dele, Paolo Quezado. Eu assumi a Secretaria de Administração e comecei a organizar o caos gerado pela administração anterior, principalmente na folha de pagamentos.
Convocados pelo Ministério Público, nos comprometemos a realizar um concurso público geral, para todas as secretarias. Carlos Cruz havia permitido um esquema com uma Cooperativa e lotara o Município de servidores contratados irregularmente. Por determinação de Raimundo, entrei em contato com uma empresa de Fortaleza, a FLATED, especializada em concursos. Desde a primeira entrevista, criou-se um forte laço de confiança entre mim e o diretor de operações da FLATED, João.
Realizado o concurso, saiu a lista provisória de aprovados, pendente de recursos. Às vésperas da divulgação da lista definitiva, na secretaria, recebi um telefonema de João:
- Dr. Sávio, acabei de receber uma ligação de uma pessoa dizendo que está vindo para cá com uma relação de mais de cem nomes para incluir entre os aprovados...
- Quem é ele?
- O primeiro-sobrinho.
- A lista definitiva já está pronta?
- Já, aqui na minha frente.
- Pois então eu vou para casa e você me manda por e-mail. Eu imprimo e divulgo pelo Diário Oficial e aí ninguém pode mais mexer no resultado.
E assim foi feito. Mandei antecipar a impressão do Diário Oficial daquele dia, com a lista definitiva de aprovados e determinei que a relação fosse exposta no prédio da Prefeitura, na Saúde e na Educação, criando um fato consumado.

terça-feira, 10 de março de 2015








A convincente apoteose
Aos trancos e barrancos, chegamos ao dia da carreata final. As pesquisas mostravam sistematicamente que o prefeito liderava com uma folga de oito a dez pontos percentuais. Nossa chance era o voto dos indecisos, que eram muitos. O encontro para a carreata foi marcado para a avenida Pe. Cícero, imediações do Shopping, pelas quinze horas. Chegamos e ficamos enfileirados. Passaram-se os minutos e nada de a carreata sair do lugar. Quando se movia, era apenas por poucos metros. Perto das cinco horas resolvi sair do carro e ver o que ocorria. Andei uns três ou quatro quarteirões pela Castelo Branco. A euforia era contagiante. Encontrei uma pessoa conhecida e perguntei o que ocorria.
- É gente demais, doutor. Só de carroças, tem mais de quinhentas. A carreata já entrou na São Benedito, mas ainda vai demorar a se mover.
Vi vários veículos com adversários passando do outro lado da pista. Todos com semblante de enorme surpresa, falando ao celular.
Voltei ao carro e pedi a Orlete que, na primeira esquina saísse da fila. Fomos para a rua do Cruzeiro e aguardamos em um barzinho, bebendo água mineral. Dali, teríamos uma visão completa do cortejo e poderíamos fazer uma avaliação.
A repercussão dessa carreata foi imediata. Ela foi tão volumosa e tão esfuziante que a visíbilidade de sua influência sobre os curiosos que se aglomeravam nas calçadas ou se postavam nas esquinas, era quase palpável. Concluí que o efeito sobre os indecisos fora extremamente benéfico e fui dormir pensando na vitória.
A eleição foi tensa, mas sem maiores incidentes. A apuração ocorreu no SEBRAE, mas preferi ficar em casa, acompanhando pelo rádio e pela internet. Os primeiros resultados foram favoráveis ao prefeito, com maioria apertada, mas logo a vitória de Raimundo se desenhou e se concretizou. Trocamos de roupa e fomos para o La Favorita, onde, aos poucos, foi se formando um grupo enorme de simpatizantes da coligação. Liguei para Raimundo e ele estava subindo a ladeira do Horto a pé, para pagar uma promessa, e ficou de se juntar a nós em seguida. A festa da vitória se estendeu madrugada a dentro.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015


O Instituto eficiente

Faltando uns três dias para o domingo do pleito, alguém teve a brilhante ideia de forjar uma pesquisa, com Raimundão ultrapassando Carlos. O Instituto Infodata, nome fictício, é claro, fez a pesquisa mostrando um resultado que, transformados os percentuais em números absolutos, dava a vitória à nossa coligação por uma diferença de cerca de mil e quinhentos votos. O boletim foi impresso aqui mesmo e derramado de madrugada nas principais esquinas da cidade. A situação agiu rápido, peticionou e o Juiz Eleitoral, Acelino Jácome, concedeu uma liminar determinando a apreensão dos folhetos. A polícia federal foi acionada e vasculhou nossos três comitês, mas não encontrou um mísero exemplar. Fui notificado por e-mail e fiz a defesa, negando a autoria da criminosa iniciativa, atribuindo-a a eleitores avulsos e desconhecidos. E ficou tudo por isso mesmo. O mais curioso é que o Infodata acertou quase exatamente o resultado final do pleito. Uma ironia do destino.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015



De olhos vendados
Atrás nas pesquisas, precisávamos de algum fato novo, capaz de infletir a tendência das intenções de voto. Chamei Silva Lima e propus que procurássemos Santana e Tarso Magno, candidatos minoritários, para uma conversa amistosa em torno de um provável acordo de última hora. Ligamos e a reunião foi marcada para a manhã seguinte no escritório de Tarso, em uma rua ali por trás da Prefeitura. Tomei a iniciativa:
- Santana, as pesquisas mostram que vamos perder por uma margem apertada. Se vocês renunciarem, com certeza seus eleitores vão votar na oposição...
- Você está enganado, Sávio, nós vamos ganhar as eleições. Essas pesquisas são manipuladas.
- É um ponto de vista. Mas a gente pode fazer um acordo, ganhar as eleições e governar o Município em conjunto. Posso garantir que a Secretaria de Saúde ficará com o PT.
- É impossível a gente renunciar a estas alturas. O eleitorado não aceitaria.
- Se Carlos Cruz ficar mais quatro anos no poder, vocês poderão ser os responsáveis.
- É um risco. Mas nós vamos ganhar.
E o papo morreu aí, ineficaz.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

JOSÉ ANDRÉ DE FIGUEIREDO - Um vulto histórico esquecido


Fernando Maia da Nóbrega



           

Inexiste em Juazeiro do Norte uma rua, praça ou, sequer, herma em homenagem a José André de Figueiredo. Embora tenha ele sido um dos maiores comerciantes do nosso município, na primeira década do século transato, e um político determinante na autonomia do nosso município, chegando a exercer o cargo de prefeito. A falta deste reconhecimento a ele é ocultar parte da história de nossa cidade.

Em princípio do século XX ,havia em Juazeiro duas classes sociais dominantes na economia: os “Filhos da Terra” e os “Adventícios”. Os primeiros, constituídos de pessoas da localidade ou cidades vizinhas, cuja posição social era devido à linhagem ou pela propriedade, constituídos pelas famílias Bezerra de Menezes, Figueiredo, Lobo, Sobreira Maia, Cruz, Gonçalves, Rocha, Franca, Macedo e outras. Já o segundo grupo era de pessoas provenientes da Paraíba, Alagoas, Pernambuco, atraídas pelos milagres ocorridos na cidade e aqui se estabeleceram comercialmente. Em virtude da ascensão econômica de alguns “Adventícios” surgiu uma hostilidade marcante entre as duas classes que marcou profundamente a política do lugarejo. (01)

José André de Figueiredo era um “Filho da Terra” proprietário de lojas em Crato e Juazeiro com especialidade na venda de tecidos. Tornou-se um dos maiores comerciantes do Cariri. De linhagem familiar tradicional na região, seu pai Joaquim Inácio de Figueiredo casou-se duas vezes 

Com Ana da Franca de Figueiredo teve os seguintes filhos:

1- Abdísio Inácio de Figueiredo

2- Joaquina Figueiredo Matos

3- Otoniel Inácio de Figueiredo

4- José André de Figueiredo

5- Joaquim André de Figueiredo (02)

Do segundo casamento com Maria Leopoldino de Araujo advieram os filhos:

1- Raul Figueiredo

2- Aurora Adélia de Figueiredo Maia

3- Dirceu Inácio de Figueiredo

4- Amanda Figueiredo (Sinhá)

5- Carlota Figueiredo

6- Sigefredo Figueiredo

José André matrimoniou-se, igualmente ao pai, duas vezes: a primeira, com Maria Sobreira de Figueiredo, vulgo dona Maria, e, após a morte desta, convolou-se com Priscila Sobreira de Figueiredo, ambas filhas do casal Benedito Gonçalves Dias Sobreira, alcunhado de Bibiu, e sua mulher Ana Angélica da Silva Sobreira. Nos dois casamentos não deixou descendentes.

Homem de personalidade forte, adotou desde cedo a filosofia do ateísmo, razão pela qual não acreditou nos milagres ocorridos, fato este que gerou antipatia dos romeiros. Padre Azarias sobreira o descreve da seguinte maneira:

“(...) José André de Figueiredo, abastado comerciante, mas céptico e demasiadamente independente” (03).

A primeira participação política de José André ocorreu em agosto de 1910, quando juntamente com padre Alencar Peixoto, Paulo Maia, seu cunhado, José Marrocos, Joaquim Bezerra de Menezes, Manoel Vitorino, Francisco Nery da Costa Morato, Cincinato José da Silva, José Eleutério de Figueiredo e outros deflagraram o movimento libertário de Juazeiro.(04)

Os anseios de juazeirenses, no tocante à emancipação política, geraram inúmeros e graves conflitos entre o distrito e sede do município. Juazeiro rebelava-se e não pagava mais impostos ao Crato. Em contrapartida, Antônio Luiz, prefeito desta cidade, armou o povo para invadir Juazeiro. A beligerância era alimentada, ainda mais, pela imprensa através dos jornais Correio do Cariri, da Princesa do Cariri, e o Rebate, de Juazeiro. A crise chegou a tal ponto que somente através do diálogo, da boa política, se evitou uma guerra fratricida.

Com o objetivo de cessar as hostilidades, o prefeito do Crato enviou dois representantes a Juazeiro: o coronel Abdon Franca de Alencar e o coronel Nelson Alencar. Padre Cícero, por outro lado, outorgou poderes ao padre Peixoto e ao poderoso comerciante José André de Figueiredo a fim de conseguirem um armistício entre as partes (05). Do pacto bilateral surgiram as seguintes cláusulas:

1- Juazeiro tornar-se-ia independente;

2- Cessaria a briga entre os jornais Correio e o Rebate;

3- Juazeiro pagaria os impostos atrasados ao Crato, cerca de 30 contos de réis.

Decorrente do acordo para autonomia do município, vários cidadãos apareceram como candidatos a prefeito: Joaquim Bezerra de Menezes, José André, doutor Floro, padre Alencar Peixoto e o adventício Cincinato Silva.

As ambições políticas começaram a surgir. Havia a forte tendência de José André ser nomeado o primeiro prefeito da futura cidade. O próprio padre Alencar Peixoto abdicou de ser candidato ao cargo em prol do comerciante conforme narra o escritor Ralph Della Cava:

“Além do mais ele foi obrigado a apoiar pela imprensa a candidatura do cel .José André de Figueiredo, filho da terra, e para intendente da futura Câmara Municipal a do cel.Cincinato Silva, um adventício, sendo ambos comerciantes” (06).


Os candidatáveis ao cargo de prefeito foram pouco a pouco sendo ceifados. Dois fatores foram preponderantes: a eterna hostilidade entre os” Filhos da Terra” versus “Adventícios” e ação subterrânea de doutor Floro Bartolomeu minando os concorrentes. E com o objetivo de sanar as divergências, o padre Cícero, como Tertius, é nomeado gestor do município. Em carta dirigida ao secretário do interior, José Aciolly, em 18 de outubro de 1911,o reverendo explica sua atitude:

“As ambições permitiram que eu, atendendo ao desejo do povo, assumisse oficialmente a direção política d’aqui pª evitar embaraço na marcha dos negócios políticos” (07) (sic).


A nomeação do padre Cícero para prefeito era de bom grado para o doutor Floro que passou a ser de fato quem mandava na cidade, inclusive nos cofres da prefeitura. A indicação do padre gerou sérias divergências políticas na cidade. O escritor Manuel Diniz assim retrata:

“(...) o Padre Peixoto, Jozé André e outros chefes do movimento em prol da autonomia deste município ficaram intimamente desgostozos com o Padre Cícero, por ter este aceito o cargo de Prefeito, e começaram logo a fomentar forte intriga política no sentido de conseguirem a nomeação do Sr. Jozé André para o dito cargo”. (...) (08) (sic)


Tais acontecimentos serviram de acicate para sérias desavenças futuras entre doutor Floro e o cel. José André.

Após a queda do governador Nogueira Aciolly, correligionário do padre Cícero, assumiu o governo estadual o major Franco Rabelo.

Em 11 de fevereiro de 1911 o governador Franco Rabelo exonera o padre Cícero do cargo de prefeito convoca José André de Figueiredo para uma reunião em Fortaleza e o nomeia prefeito da cidade

Nesse ínterim, doutor Floro usou de todas as formas para amedrontar José André. Mandou distribuir panfletos nas ruas, os quais insinuavam que José André planejava “deportar os romeiros e incitava o povo a não comprar nas lojas do comerciante” ” (9) Com o intuito de afastar definitivamente as pretensões políticas do rabelista, fez sérias e graves ameaças à família do novel gestor:

“Uma fonte contemporânea chegava mesmo a apregoar que a mulher e filhos de José André estavam retidos como reféns até que ele retirasse a indicação de seu nome” (10).


Doze dias após sua nomeação como prefeito, José André desistiu de exercer cargo para o qual fora nomeado, assumindo a prefeitura o senhor João Bezerra de Menezes.

As sequelas da disputa política geraram uma inimizade séria e profunda entre doutor Floro e José André.

Vale salientar que as truculências do médico deram continuidade mesmo depois da abdicação ao cargo por parte de José André. O sogro deste, Benedito Gonçalves Dias Sobreira teve sua casa invadida e foi ameaçado de morte. Tal fato fez com que ele se retirasse com a família para a cidade de Milagres CE.(11)

Sob o pretexto que José André havia pegado em arma contra a revolução de Juazeiro, quando os jagunços invadiram a cidade do Crato, em 24 de janeiro de 1914, saquearam uma loja pertencente a José André e sua cunhada Josefa Sobreira da Franca. (12).

O ódio implacável do doutor se fez mais uma vez presente no assassinato de Paulo Maia de Menezes, cunhado de José André, morto em 09 de julho de 1914. Muito embora os acusados do homicídio tenham sido Nazário Landim, como mandante, e Mané Chiquinha como executor, havia tácita autorização de Floro. “Xavier de Oliveira in “Beatos e Cangaceiros” inocenta a participação do padre Cícero e acusa nas entrelinhas o médico ao afirmar que nenhum cangaceiro comete um crime quando não tem as costas quentes, O crime só era perpetrado após a autorização do chefe. Em quase um libelo acusatório, o escritor esclarece:

“ É simples.O cabra chega-se para o chefe e diz em meias palavras:”Fulano me dá cem mil reais p’reu dar uma carreira...em sicrano. Que qui vosmicê acha? “Ganhe seu dinheiro” respondeu o chefe. (Um coronel, ou um doutor, nunca um padre” (sic) (13).


Descrente da política, prejudicado nas transações comerciais , José André ausenta-se definitivamente de Juazeiro e vai morar em outra cidade. Foi um dos raros homens que fez oposição política ao padre Cícero em sua terra.

E por fazer parte determinante da história de Juazeiro, José André deve ser lembrado e homenageado pelos pósteros. É o passado, o alicerce do futuro de qualquer povo.

N O T A S

1- Della Cava,Ralph,1976,Milagre em Joaseiro, pag. 139

“Com o passar do tempo, seus habitantes tinham-se divididos em dois grupos hostis: os filhos da terra e os adventícios. Os filhos da terra não eram apenas os nascidos em Joaseiro mas, também, alguns dos que chegaram provenientes de Crato e outros lugares do Cariri.(...) Os adventícios,que se tornaram maioria. Incluíam muito dos imigrantes recentes originários de regiões distantes”

 2- Sobreira, Padre Azarias, 1946, Minha Árvore de Família, pag. 33 e 34. No rodapé de cada página, o referendo fornece os dados genealógicos.


3- Sobreira, Padre Azarias, idem pg.30.



4- Menezes, Fátima ; Alencar, Generosa, “Homens e fatos na História do Juazeiro 1989 pag.63
 
5- Della Cava, Ralph o.c. pag. 166.



6- Della Cava, Ralph o.c. pg.162

7- Della Cava, Ralph o.c. 169.
 
8 – Diniz,M , Mistérios do Joaseiro,1935 pag. 119\120
 
9-Della Cava,Raph o.c. pag.181


10 – Della Cava,Ralph o.c. 181. Aqui há um pequeno equívoco. José André de Figueiredo embora tenha se casado duas vezes, não deixou prole. Por conseguinte não poderia ter havido a prisão de seus filhos. O que houve foi contundentes ameaças `a sua mulher e invasão à residência do seu sogro.
 
11- Sobreira, padre Azarias o.c. pag. 29 narra:

”Benedito Gonçalves Dias Sobreira, vulgo Bibiu (+ 1918) era casado com dona Ana Angélica da Silva Sobreira (...) foram, porém, já na velhice vítimas da chamada revolução de Juazeiro que os atingiu pesadamente, em manifesta represália a seu genro José André de Figueiredo, que na qualidade de prefeito governista, pegara em armas contra os revoltosos seus conterrâneos. Veio daí a retirada de sua família para Milagres (...)”.


12- Sobreira. Padre Azarias,1969, “O Patriarca de Juazeiro” pg. 230 informa sobre o saque à loja de José André quando da invasão dos jagunços de Juazeiro na cidade do Crato:

“Logo após a tomada do Crato, ao verificar. alta noite, que a referida casa de tecidos estava sendo saqueada (...)”.
 
13- Oliveira Xavier, 1920, “Beatos e Cangaceiros”pag. 105.



BIBLIOGRAFIA

1- Della Cava, Ralph. Milagre em Joaseiro.Rio de janeiro.paz e terra 1976

2- Dinis, Manoel. Misterios do Joaseiro. Juazeiro.Tipografia o Joazeiro 1935

3- Menezes, Fátima;Alencar Generosa. Homens e Fatos na História do Juazeiro.Recife, Ed.Universitária da UFPE 1989

4- Oliveira, Xavier. Beatos e Cangaceiros. Rio de janeiro 1920

5- Sobreira, Padre Azarias. Minha árvore genealógica ( E de muitos outros)

1946 Fortaleza Revista do Instituo do Ceará

6- Sobreira, Padre Azarias. Fortaleza 1969. Oficinas Gráficas VOZES limitada.