terça-feira, 15 de julho de 2014

Uma memorável campanha I: pela porta dos fundos
Em 1992 definiram-se as candidaturas de Salviano, pela oposição, e de Mauro Sampaio, pela situação. A dinâmica da política mais uma vez dava provas de exuberância. Salviano me convidou para ser o assessor jurídico da campanha e eu aceitei, começando a atolar meus pés na política local.
Em setembro, a um mês das eleições, o presidente do TRE, Ernani Barreira, veio a Juazeiro para uma reunião com os candidatos, às nove horas, no hotel Panorama. Cheguei lá com dez minutos de antecedência e encontrei Wilton Almeida:
- Cadê Salviano?
- Disse que não vinha. Está lá pros lados do Novo Juazeiro, fazendo corpo-a-corpo.
Fiquei abismado. Peguei meu carro e voei para lá. O Novo Juazeiro ainda era um bairro em construção. Dei algumas voltas e findei por encontrá-lo, sozinho, sob o sol quente, de boné, batendo de casa em casa e distribuindo santinhos de campanha. Parei ao lado dele:
- Entra aí, Salviano. 
- Vamos pra onde?
- Para o Panorama. Trata-se do presidente do Tribunal Eleitoral, homem. Além do mais, você não precisa de nada disso. Você está com a eleição ganha, com muita folga. Basta não cometer nenhum erro grave. Ele se convenceu e entrou. Ainda me lembro das palavras iniciais de Ernâni, em sua fala:
- Eu sei que entrei no Tribunal pela porta dos fundos...

terça-feira, 8 de julho de 2014








A volta definitiva ao lar
Depois que me aposentei, desiludido com a magistratura e magoado por conta de três episódios, um no TRE e dois no Tribunal de Justiça, nos quais me senti injustificadamente injustiçado, voltei para Juazeiro com a família, as bagagens, o gato e os cachorros.
Acatei uma sugestão de Vanderlei Landim e abrimos um pequeno escritório de advocacia  na Padre Cícero. Carlos Cruz era o prefeito e comandava uma administração populista, empreguista e clientelista, que somente não era mais desastrosa por falta de tempo.
Como advogado eu andava pela cidade toda e conversava com pessoas das mais variadas escalas sociais e logo cheguei à conclusão, consultando o meu ibope particular e pessoal, de que a população juazeirense ansiava pela volta de Salviano à Prefeitura.
Na passagem de ano de 90 para 91, recebi a visita de Mauro e Salviano. Conversamos e indaguei-lhes se não estavam interessados em fundar o PSDB local. Este partido, uma costela formada pelo que de melhor havia no PMDB nacional à época possuía uma mensagem política moderna, pregando a moralidade, a ética política, o liberalismo, a valorização do indivíduo, a diminuição do Estado e o predomínio da livre iniciativa e do mercado liberto da praga do intervencionismo estatal, sem esquecer, contudo, o combate às desigualdades sociais, pelo aperfeiçoamento das regras de controle. 
Salviano me disse que providenciaria a papelada necessária e que eu seria o presidente da Comissão Provisória de instalação do partido. Aceitei a missão e conduzi o processo, filiando muita gente que compunha o círculo político de Salviano desde a sua administração.

Um jantar para gourmets
Nos anos 90 iniciais, Ciro Gomes era o governador e veio ao Cariri em uma Semana Santa, visitar obras e fazer contatos políticos. Era a sexta-feira e, depois de várias reuniões e discursos em diversas cidades da região, aquela canseira, resolveram sair para jantar, lá pelas onze da noite. Era um grupo de umas oito pessoas, formado por Ciro, assessores, Carlos Cruz, então prefeito, o presidente da Câmara e senhoras. Dirigiram-se ao Restô Jardim, principal ponto de encontro da sociedade, ainda sob a administração de Jéferson Júnior. Quando Ciro leu o cardápio:
- Ôba, um restaurante com padrão internacional... admirou-se.
Cada um escolheu seu prato e fizeram os pedidos.
Cerca de meia-hora depois, o garçom voltou:
- Infelizmente, os pratos que vocês pediram não podem mais sair.
Decepcionados, trataram de fazer novas escolhas:
- Tem esse peixe aqui?
- Não senhor.
- Tem essa carne com tempero de ervas finas?
- Não senhor.
Cansado e faminto, Ciro então perguntou:
- Meu amigo, pra gente não perder mais tempo, o que é que pode sair?
- Só isca de peixe...
- Pois então traga iscas de peixe para todo mundo.
O padrão internacional já fora esquecido. Pelo menos não sairiam dali de barriga vazia. Outra meia-hora depois, o garçom voltou com cara de funeral:
- Infelizmente, as iscas de peixe se acabaram.
Frustrado e sonolento, já passando muito da meia-noite, Ciro ainda teve que ouvir uma galhofa final de Carlos, ao entrar no carro oficial:
- Ciro, vê se arranja umas bolachas creme-craquer e um guaraná lá no Panorama...

terça-feira, 1 de julho de 2014








Um efêmero retorno às raízes
Arnon e Carlos Cruz
Em setembro de 1978 fui promovido a Juiz de Sobral. Mesmo vindo com frequência a Juazeiro, nas férias e nos feriados prolongados, eu perdi contato com o cotidiano do mundo político local. Acompanhei de longe a vitória de Salviano, em 1982, que representou a vitória da facção de Mauro Sampaio sobre a da família Bezerra, já rompidas desde 76, quando Aílton Gomes venceu Doro Germano.
Em 1988, já Juiz da Comarca de Fortaleza foi nomeado pelo TRE para presidir as eleições e apurações de Milagres. Meu primo, Idelmar, viria para Juazeiro, ajudar a Suenon e Darival, então juízes locais. Falei com Idelmar e sugeri uma permuta. Ele me tinha muita consideração e amizade e não colocou a menor objeção. Fomos ao TRE falar com José Maria Melo, presidente do órgão, e poderoso desembargador do Tribunal de Justiça. Quando expliquei-lhe a proposta:
- Mas você é de lá. Sua mãe é titular do Cartório...
- Mas não do Eleitoral. Além do mais, sou amigo de todos os candidatos. Você não confia em mim?
- ´Tá louco. No Tribunal, todos admiram vocês dois. São juízes competentes e trabalhadores.
Saímos de lá com as nomeações redefinidas e garantidas.
Em Juazeiro, a disputa era renhida: Carlos Cruz, apoiado por um Salviano amparado na repercussão positiva de uma excelente e inovadora administração, contra Zé Arnon, um político iniciante que fizera um brilhante trabalho como Secretário de Saúde, apoiado pela facção bezerrista.
Cheguei à cidade cinco dias antes das eleições e me instalei no Fórum, então na rua São Pedro, logo abaixo da rua do Cruzeiro. Deu para sentir imediatamente o clima de hostilidade entre as forças disputantes. A campanha fora marcada por episódios como o do “elefante branco”, um suposto deslize verbal cometido por Carlos Macedo, vice da chapa de Arnon, em um discurso, de que se aproveitaram os adversários para impingir-lhe a acusação de que se referira ao intocável nome do Padre Cícero com uma expressão pejorativa. Os ânimos, pois, estavam exaltados. Tanto que o TRE solicitou e o governo federal enviou tropas do Exército para cá, ocorrência incomum ao longo da história.
Como Juiz da capital e mais experiente, com várias eleições no currículo, combinei com os colegas e adotei algumas decisões, simples mas eficazes. Como a tropa federal enviada era reduzida, convocamos o Tiro de Guerra para auxiliá-la no dia da eleição. Organizei o cadastramento de delegados e fiscais da apuração. Alguns presidentes de mesas receptoras, apesar de oficialmente notificados, ainda não haviam comparecido para apanhar o material no Cartório Eleitoral e provavelmente não compareceriam, criando mais um problema para o já complicado e atarefado dia do pleito. Solicitei um veículo, montei uma equipe de improviso, dois servidores do Cartório, chamei o major responsável e um soldado e fomos, de casa em casa, entregando a meia dúzia de material que faltava. Nenhum se recusou a receber. E alguns ainda nos ofereceram água e cafezinho.
No dia da eleição, me dirigi cedo para o Fórum. Sempre há incidentes a decidir em cima da hora e é bom ser previdente. Dar o exemplo, pois eleição é coisa séria. O processo de votação começou às oito horas, como é de praxe. Meia hora depois, chega uma pessoa esbaforida:
- ´Tá a maior confusão nos Franciscanos...
O Ginásio São Francisco, muito amplo, comportava cerca de doze seções eleitorais, uma ao lado da outra. Nas circunstâncias, era um barril de pólvora.
Chamei o major e uns quatro soldados, pegamos o veículo do Exército e seguimos para lá.
Havia uma pequena multidão concentrada fora dos portões e outra, maior, dentro. Entrei no recinto e tentei perceber o que ocorria. Logo concluí que o problema era a enorme quantidade de “cabos eleitorais” misturados aos eleitores, com visíveis propósitos de influenciá-los no momento decisivo de enfiar a cédula na cavidade. O famoso golpe da “boca de urna”, atitude condenável, criminosa.
Acompanhado pela tropa, metralhadoras em punho, percorri todo o espaço interno da escola, avisando que somente poderiam permanecer  os eleitores das seções ali localizadas e o pessoal das mesas receptoras, inclusive fiscais e delegados, desde que identificados com crachás oficiais. Sem alternativa, o pessoal de presença indesejável se retirou. Os mais renitentes foram Lurdes Morais, Antônio Balbino e Gumercindo Filho, tudo gente amiga e conhecida, mas não haveria exceções. Feita a limpeza interna, determinei que uma dupla de soldados se postasse no portão de entrada do prédio. A partir dali só era permitida a entrada de eleitores das seções e pessoas autorizadas. Foi um santo remédio. A eleição, ali fluiu tranquila e calma até o final do processo, às cinco da tarde.
De lá, fomos ao Ginásio Salesiano, também local de votação com inúmeras seções e forte potencial para tumultos. Fizemos o mesmo trabalho de assepsia cívica e prevenção. De volta ao Fórum, solicitei uma relação com diversos locais que acumulavam quatro ou mais seções e a entreguei ao major, instruindo-o de que se utilizasse dos componentes do Tiro de Guerra para vigilância e fiscalização das entradas. Deu tudo certo.
O restante do dia transcorreu calmo, sem qualquer transtorno de monta. Ainda houve uma denúncia de irregularidade em uma seção rural, acho que no sítio Sabiá, mas quando chegamos lá tudo estava em ordem.
Recebemos as urnas na AABB, local da apuração. Permaneceram lá armazenadas, sob custódia da tropa federal e olhos atentos de diversos eleitores interessados, que ali pernoitaram, desconfiados.
Na manhã seguinte, os trabalhos se iniciariam às oito horas. Cheguei uma hora antes e comecei a adotar providências. A apuração seria manual, como sempre, e eu chequei todos os detalhes apara que não ocorressem surpresas de última hora. Lá de fora vinha um rumor cada vez mais crescente que eu não conseguia identificar. Até que resolvi sair para ver o que ocorria. Fiquei estupefato. No topo da escada que dá acesso ao térreo estava postado o pelotão da tropa, armas de prontidão. A escada estava entupida de gente que se acotovelava, se empurrava, se queixava, se amassava, todos presos e encurralados, como sardinhas em uma latinha. Fui até lá e autorizei a entrada dos candidatos a prefeito e vice, fiscais naturais e maiores interessados na apuração; dos representantes do povo, como o deputado estadual Orlando Bezerra e vários vereadores a quem reconheci. Esta iniciativa aliviou o sufoco na escada e acalmou os ânimos excitados, dada sua natureza imparcial. Instantes depois, ouvidos os colegas juízes, foi permitida também a entrada de delegados e fiscais partidários, previamente cadastrados. Em seguida, a apuração foi iniciada. Houve tensão apenas no primeiro dia, mas logo ficou evidente que Carlos Cruz venceria com uma margem folgada de votos e o ambiente desanuviou-se. 
No transcorrer da apuração, fiquei um momento a sós com Mauro, na sacada de onde se avista os bairros Lagoa Seca e Jardim Gonzaga, separados pela antiga estrada Juazeiro-Barbalha:
- Mauro, sabe o nome dessa estrada?
- Sei. O nome de meu pai, Leão Sampaio.
- É... mas todos chamam de rodovia da morte. Isso precisa acabar.
Três anos depois, Ciro Gomes veio inaugurar a nova e moderna rodovia estadual, conhecida como avenida Leão Sampaio, cujas obras foram iniciadas ainda na gestão de Tasso, no ano anterior.
Em outra ocasião, já nos estertores da apuração, Sá e Sousa apareceu com um exemplar do “O Povo” e perguntei como estava a situação em Fortaleza:
- Ciro já ultrapassou Édson Silva. Parece que vai ganhar...
- Já ganhou. E fique certo de que ele será o futuro governador do Estado.
Acertei na mosca.
Antes de viajar de volta a Fortaleza, me encontrei com Neli Pereira na praça. Ela me disse que estivera com Orlando e que ele dissera:
- Aquele teu primo é um gentleman. 
Na verdade, era só bom-senso e experiência acumulada.

terça-feira, 24 de junho de 2014








Algodão entre as pedras da APUC

Por essa época, havia um grupo enorme de profissionais liberais que se reunia frequentemente na AABB. Jogávamos futsal e, aos sábados, nos encontrávamos para um bate-papo regado a uma cervejinha gelada. Havia um clube de cinema, o Cinejuno, que eu presidia, que funcionava lá às sextas à noite. Nesse contexto, surgiu a ideia de fundarmos um clube, uma associação com fins sociais e culturais. Havia um núcleo, formado por Carlos Macedo, Cícero Landim, Everardo Menezes, Érico Matos, Limeira, Guálter, Dante e Teive Alencar, Zé Afonso, eu e alguns outros. O nome escolhido foi Associação dos Profissionais Liberais do Cariri – APUC. Como pontapé inicial foi realizado um jogo no Romeirão, com ingressos pagos e transmissão radiofônica, entre os profissionais liberais de Juazeiro e Crato. A renda foi destinada ao Orfanato Jesus, Maria e José, na avenida Pe. Cícero. Este jogo, vencido por Juazeiro por 4 X 1, registrou uma curiosidade jocosa: Gílson Sobreira era nosso treinador e, ao fazer uma substituição, pedia ao substituído que permanecesse em campo. Houve um princípio de confusão, alguma discussão e foi solicitada uma recontagem dos jogadores: Juazeiro estava com 15 e Crato, com 12. Restabelecida a normalidade, o jogo fluiu normalmente até o apito final.
Surgiu então o embate da escolha do presidente do clube. Aílton Gomes era o prefeito e não queria Carlos Macedo na liderança do projeto e este, por sua vez, vetava os nomes apresentados pelo grupo ligado ao prefeito. O impasse ameaçava exterminar a iniciativa no nascedouro. Houve então uma reunião na Usina Zé Bezerra, escritório de Ivan Bezerra. Estávamos presentes eu, Geraldo Barbosa, Carlos Macedo e Ivan. O diálogo não progredia, ninguém queria ceder. Virei-me para Geraldo e sussurrei:
- Por que a gente não coloca Ivan na presidência?
Geraldo se levantou, entusiasmado, e externou a sugestão. Ninguém era louco de se opor e aí o acordo foi selado instantaneamente: Ivan na presidência e Carlos na vice.
Trabalhei durante uma semana e consegui elaborar os estatutos da novel entidade. Veio então a reunião, no auditório do Ginásio Municipal, para debate e deliberação sobre o texto. Tudo correu bem, até que chegou o artigo que definia as exigências para os associados. Meu texto previa que qualquer pessoa poderia filiar-se, desde que comprasse o título de sócio-proprietário. Uma ala, liderada por Paulo Machado e dr. Miguel Alencar Furtado, Juiz de Direito de Juazeiro, opinava contra, exigindo dos sócios que possuíssem curso superior, como condição indispensável. Fui derrotado em minha proposta e jamais me conformei com a discriminação. Desiludido, no ano seguinte fui morar em Sobral, promovido, e vendi meu título a meu irmão Lula.















Da esq. para a dir. : em pé: Lacerda; Teive; Antônio José; Gumercindo; Valtemar; Paulo Machado; Guálter; Mauro Sampaio; Sávio; Renatão; Limeira; Zé Maurício Sá e Gílson Sobreira.
Agachados: Geraldo Beserra [GB]; Dr. Zi; Sodson Sabiá; Luis de Sousa; Zé Lívio; Ticiano; Zé Livônio; Carlos Macedo e Isaías [massagista]

terça-feira, 17 de junho de 2014








O mundo é um círculo
Em 1976 eu era Juiz Zonal do Crato. Neste cargo, minha tarefa era substituir os colegas de férias ou de licença, ou mesmo responder pelo expediente de alguma Comarca vaga, em uma vasta região centrada na Comarca de Crato. Em determinado momento cheguei a acumular os trabalhos em quatro Comarcas diferentes. À noite lecionava na Faculdade de Direito da URCA. Era ano de eleições e estávamos em setembro, em seu terço final. Recebi um telegrama da Presidência do TRE, à época ocupada pelo desembargador Nogueira Sales, me nomeando Juiz Eleitoral da Zona de Missão Velha. Foi uma surpresa, porque eu estava preparado para presidir as eleições de Farias Brito, cujo processo eu dirigira até então.
Aconteceu que o Juiz de Missão Velha, Alberto Calou Torres, diligente, preparado e imparcial, tudo que se pode exigir de um bom magistrado, impugnou por sentença a candidatura de Elce Santana a prefeito municipal porque foi flagrado um incidente de falsidade no livro de filiação partidária. Posteriormente, eu manuseei este livro e constatei que a falsificação foi uma obra grosseira, coisa amadorística. Elce era o favorito disparado para vencer as eleições e desbancar do poder o grupo de Stênio e Senhor Dantas, os donos da política local há anos. Houve uma reação forte entre a população, dada a contrariedade, e Alberto preferiu se licenciar do cargo. Ana Ester, mulher de Elce, foi escolhida como sua substituta e o ambiente estava pegando fogo.
Cheguei a Missão Velha em um sábado à tarde, sozinho, dirigindo meu Chevette. Pedi informações e logo localizei o Cartório Eleitoral. Entrei e me identifiquei à moça que estava por dentro do balcão, solicitando que lavrasse um termo de posse. Bastou em me identificar como Juiz para uma pessoa, que estava encostada ao balcão:
- O senhor é o novo juiz? Pois o prefeito está lá dentro, com as folhas de votação...
Nem ouvi direito e já fui entrando pelo corredor até uma saleta lá atrás. Encontrei Senhor Dantas com o arquivo de folhas de votação de uma seção aberto sobre a mesa. Fiquei em pé ao lado dele:
- O senhor é o prefeito municipal?
- Sou, sim senhor.
- Pois me faça o favor de se retirar imediatamente.
Ele me obedeceu. Peguei o pacote,de folhas, entreguei-o à moça, recriminando-a só com os olhos, cheios de autoridade.
- Qual é seu cargo aqui?
- Sou funcionária eleitoral. O cartório está sem titular...
Saí dali e fui ao cartório do 2° Ofício. Eu conhecia Regilânio, um médico, cuja mãe era a titular. Falei com Régia, irmã dele e perguntei se a mãe poderia ser a escrivã eleitoral.
- Não, doutor. Ela vive doente e além disso temos vários parentes candidatos nesta eleição.
A cada minuto eu sentia que a tarefa seria mais árdua do que imaginara. A cidade estava dividida, a disputa era acirrada e os ânimos acompanhavam bem de perto.
De lá fui ao Primeiro Cartório, perto da saída para Juazeiro. Encontrei Acelino Jácome, a quem jamais vira na vida.
- Como é a situação deste cartório?
- A titularidade está vaga há anos. Minha tia é escrevente substituta, mas está muito idosa e doente, vive prostrada.
- E você é o que?
- Escrevente compromissado. Tenho uma portaria do Juiz da Comarca para responder pelos serviços e assinar os documentos.
- Pois a partir de agora, você é o escrivão eleitoral da Zona. Vamos para o Cartório Eleitoral lavrar os termos de posse. No ano seguinte, Acelino foi meu aluno na URCA. Hoje é Juiz de Direito de uma das Varas da Comarca de Juazeiro. Como diria Dilma, o círculo é redondo...
Quando estávamos finalizando as formalidades, entra no cartório um senhor idoso e se dirige a mim:
- Doutor, queria convidar o senhor a se hospedar em minha casa. Sou muito amigo de seu pai, gosto muito dele. Seria um prazer e uma honra para nós.
Era Zé Norões, a quem não conhecia e de quem nunca ouvira falar. Um grave defeito meu. Aceitei na hora a tão gentil oferta, aliviado por não ter que me hospedar em alguma pensão local, de condições imprevisíveis.
Foi uma eleição trabalhosa, lotada de denúncias de ambos os lados. Viajei por todos os recantos do município, inclusive na serra, checando as condições e adotando providências para que tudo corresse bem. 
No dia da eleição, os incidentes e as denúncias de sempre, cada lado querendo prejudicar os adversários. No fim do dia, urnas recolhidas à agência dos Correios, tive que lacrar todas as portas e janelas do prédio com fita gomada. Assinei tudo e pedi a todos os presentes que também assinassem. Afinal, fora uma exigência deles. Por dentro, eu ria com a marmota. E a Polícia Militar ficou encarregada da vigilância noturna. Desnecessária, porque havia dezenas de interessados, de ambos os lados, acordados a noite toda ao redor do prédio.
No último dia de apuração, fui procurado por Geraldão, pai de Ana Ester:
- Doutor, queremos que o senhor autorize uma passeata da vitória.
Pensei um pouco. Era arriscado, mas era justo. Ao vencedor, as batatas.
- Faça um ofício, solicitando a autorização. E ficam estabelecidas duas condições: é proibido bebida alcoólica e não será permitido passar em frente às casas do prefeito e do candidato adversário. Quero ver o roteiro, junto ao requerimento.
Depois dessa conversa, fui à casa de Senhor Dantas, avisar de minha autorização e pedir colaboração para evitar qualquer confronto. A esposa dele me recebeu mal, como se eu fora responsável pela derrota do candidato da situação, mas o anfitrião se desculpou e me tratou muito bem.
Em eleições é como no futebol. Em caso de derrota, o culpado é sempre o juiz.


terça-feira, 10 de junho de 2014


Chutando o balde do poder
Orlando Bezerra, Expedito Pereira, Dr. Mozart Cardoso de Alencar e Cap. Erivano Cruz
Em 1972 ocorreu um episódio bizarro. Orlando Bezerra foi eleito em 1970 para um mandato-tampão de apenas dois anos e seus familiares estavam todos impedidos de concorrer, por conta da legislação vigente. No auge da ditadura militar, Adauto e Humberto dominavam a política local, aliados a Mauro Sampaio e outras lideranças, com o apoio de 95% do eleitorado. Dizia-se, então, que a oposição, em Juazeiro, cabia em uma Kombi. Espremida, mas cabia. Eram os tempos gloriosos da imponente ARENA contra o minúsculo MDB. Um Golias bombado e malhado contra um mirrado Davi, sem qualquer munição.
Depois de muita boataria e conversas, as negociações políticas fixaram-se em três nomes de pré-candidatos: Dr. Mozart, meu pai e Argemiro Mota. Expedito Pereira não queria ser candidato em hipótese alguma. Admitia participar das negociações por cortesia e dada a sua natureza cordata e conciliatória. Argemiro Mota era proveniente do antigo PSD, partido dos feitosistas, adversários dos udenistas de Zé Bezerra e Zé Geraldo. Um homem de bem, ficha limpa, mas não tinha chances. Sobrava Dr. Mozart. O problema é que ele não era o predileto dos chefões. Era um cidadão de personalidade forte, um profissional respeitado, e poderia erguer uma liderança própria, capaz de futuramente criar embaraços a seus planos políticos. Em razão disso, houve uma carga formidável de pressão em cima de meu pai, para que aceitasse a indicação. Eu já era Juiz de Direito, com jurisdição em Farias Brito, mas pessoalmente participei de reuniões e pelo menos dois almoços no restaurante de Francisquinha, sogra de Mussolini Campelo, ali na José Marrocos, por trás da Prefeitura, em companhia de Mauro Sampaio, Orlando e Leandro Bezerra, Gumercindo Ferreira Lima, Raimundo Sá e Sousa e tantos outros. Meu pai ouvia as ponderações, as promessas, os planos, mas jamais o ouvi dizer que aceitava. Certa vez o abordei:
- Papai, porque o senhor não aceita ser prefeito?
- Porque não estou preparado para enfrentar uma missão como essa.
- Mas eu e Itamar podemos ajudá-lo nos bastidores. Itamar era um primo, filho de Lauro e Santinha, economista de renome na capital, superintendente da SUDEC.
- Meu filho, o poder sempre corrompe.
A partir daí me tornei um aliado dele na ingente tarefa de driblar a indicação, sem ferir as suscetibilidades. Um filho dele, Herialdo, era casado com Regina, filha de Adauto Bezerra, de modo que era necessário agir com sutileza. Não era possível, por exemplo, abrir o jogo e externar as verdadeiras razões da recusa, sem implicar a participação automática dos outros em escusos esquemas dominantes.
No último dia do calendário das convenções partidárias, o prazo final, na hora do almoço, o telefone tocou lá em casa. Meu pai atendeu e, da mesa, a gente ouvia o monólogo repleto de nãos, mas ditos com civilidade e polidez.
- Era Adauto, fazendo um último apelo para que eu aceitasse, me oferecendo todo apoio de que eu precisasse...
À noite, na convenção, o nome do Dr. Mozart foi escolhido. Ele ganhou as eleições com enorme vantagem e tentou administrar o município de forma independente, livre do garrote dos coronéis. Menos de dois anos depois, Adauto governador, foi decretada a intervenção e Erivano Cruz assumiu as rédeas da administração.

terça-feira, 3 de junho de 2014








A partir de hoje passaremos a apresentar semanalmente esta coluna de Sávio Leite Pereira. focalizando os bastidores da política recente de Juazeiro. O autor, que é juiz aposentado e também  ocupou cargos na administração pública municipal, foi testemunha de muitos fatos políticos os quais agora passam a ser relatados para conhecimentos dos nossos leitores. E assim estamos contribuindo para resgate da história política juazeirense, registrando os fatos para a posteridade. A seguir o primeiro texto da série.

 Brincando de ser juiz
A partir de 1955, em decorrência de nossa mudança de endereço para a rua Padre Cícero, passei a frequentar quase diariamente o Cartório do 1º Ofício, que ficava a menos de cem metros de nossa casa. Se havia algum serviço a fazer, eu o fazia, também os deveres escolares e, se houvesse companhia, seguia para a praça, em frente, para brincar. Se não aparecesse ninguém aproveitável, eu ficava pelo cartório, procurando o que fazer. As urnas utilizadas nas eleições gerais de 1954 estavam armazenadas na parte posterior do prédio. Eram caixotes retangulares de ferro fundido, pintados de verde e fechados com cadeados. Depois da apuração, era preciso esperar os prazos dos recursos. Esgotados estes e proclamados oficialmente os resultados definitivos, as urnas se transformaram em um brinquedo para mim. Meu pai me entregou as chaves, abri os cadeados e refiz a apuração, urna a urna, anotando os resultados em folhas de papel almaço. Meu pai foi candidato a vereador pelo PTB, contra a vontade dele e acho que foi daí que surgiu meu interesse em recontar a votação. O voto era depositado na urna dentro de pequenos envelopes azuis. O eleitor já conduzia consigo as pequenas chapas, para cada cargo, com o nome do candidato de sua preferência impresso. Aldeziro Maia possuía uma tipografia na rua São Pedro, vizinho ao Treze, e veio ao cartório entregar 500 chapas com o nome de Expedito Pereira para vereador. Meu pai estranhou:
- O que é isso, Aldeziro?
- Foram os seus amigos que encomendaram. Já está tudo pago.
Ele se conformou, até porque já não havia jeito. Mas se interessou tanto pela candidatura que viajou à capital do Estado às vésperas do dia 3 de outubro, data tradicional das eleições à época. Nem o voto próprio ele teve. Mas foi votado por outros 128 eleitores e ajudou a eleger Miguel Rocha, que ficou à frente dele na mesma legenda, além de Zé Néri, primeiro suplente.
Naquele ano, foram eleitos Paulo Sarasate e Flávio Marcílio, para governador e vice. Manoel Fernandes Távora foi o candidato a senador mais votado. Leão Sampaio o mais lembrado para deputado federal e José Monteiro de Macedo se elegeu para a Assembleia Legislativa, graças aos votos dos juazeirenses. Almino Loiola também se elegeu deputado estadual, mas teve poucos votos por aqui. Dentre os vereadores eleitos, me lembro de Zé Machado, Dr. Mozart, Orlando Beserra, dr. Ney, Almeidinha, Raimundo Viana, Geraldo Barbosa e Wilson  Correia. Mas havia outros. O referido é verdade. Dou fé, com carimbo e tudo.

terça-feira, 6 de maio de 2014

RASGANDO A FANTASIA – JUAZEIRO E OS VELHOS CARNAVAIS - Por Sávio Leite Pereira

Nos anos 40 a 60 o carnaval de Juazeiro se resumia aos bailes clubísticos, no Doze e depois no Treze, localizado na Praça Almirante Alexandrino, rua São Pedro. Como morávamos em frente ao Clube dos Doze, na Rua da Conceição (hoje é um agência do Bradesco), todo ano a gente presenciava o ritual: primeiro no sábado magro e depois no sábado gordo, no instante imediatamente anterior ao início do baile, um clarinetista assomava na sacada do clube e tocava a eterna marchinha “Viva Zé Pereira” a icônica abertura oficial de todos os carnavais brasileiros.

Darim e Mascote
Na rua praticamente inexistiam manifestações, infantis ou adultas. Raras as pessoas que se fantasiavam de pierrôs, colombinas, piratas ou arlequins. Os foliões de Juazeiro eram contados nos dedos de uma mão: Sulino Duda, mascarado e com um tubo de cloretil à mão; o desinibido Azarias Araújo, que invariavelmente se travestia, se maquiava exageradamente e atraía a atenção da gurizada; Dário Maia Coimbra, o Darim, sempre muito falante e agitado, Raimundo Maciel, o eterno Rei Momo, com sua roupa verde e dourada e a coroa enfeitada. E havia o carro-chefe do nosso carnaval, Antônio Fernandes Coimbra, o Mascote, que patrocinava um bloco feminino já tradicional, Garotas Infernais. Ele colocava as meninas na carroceria de um caminhão, com alguns músicos e saía desfilando pela cidade, com paradas esporádicas em alguns lugares, como a Praça Almirante, para animar a folia. Nós, crianças, nos contentávamos em olhar, e comprar, de ambulantes na rua São Pedro, artefatos como uma máscara de plástico colorido com elástico, bem popular, para proteção dos olhos;  uma bisnaga de plástico para encher com água e molhar os outros; pacotinhos de confete e tubos de serpentina, com dez unidades, o mais apreciado de todos, que requisitava certa habilidade para ser lançado corretamente e se desdobrar no espaço formando uma cortina de papel colorido. Esse movimento na rua se concentrava na praça e em suas imediações, no fim da tarde, no domingo e na terça. E era só.

Com o fechamento do Doze, em 51, os bailes carnavalescos se concentraram no Treze e eram bastante concorridos. Mas era divertimento para adultos, embora, de vez em quando, houvesse bailes infantis no domingo à tarde, sem grande repercussão.

Antiga sede do Treze no Salgadinho
Meu primeiro carnaval foi em 1961. O Treze já se mudara para a sede do Salgadinho. Meu pai comprou uma caixa de cloretil Rodouro, da Rhodia, e me entregou. Eram quatro ampolas metálicas douradas, com aquele tradicional fecho emborrachado que, quando aberto, esguichava uma mistura líquida de cloro, perfume, éter e outras substâncias, como um spray. Uma para cada noite de brincadeiras. E eu desperdicei os meus quatro tubos de cloretil mirando nos olhos dos amigos, José Hildon, Hélio Luna, Herman Morais, Mirival, quando eles se viravam a um toque que eu aplicava em seus ombros. Aos 17, incompletos, era um meninão. Lembro-me dos grandes sucessos de minha estreia carnavalesca: A lua é dos namorados; O velho gagá... já deu o que tinha que dar; Índio quer apito. E continuou fazendo enorme sucesso uma marchinha lançada no ano anterior por um desconhecido Moacyr Franco: Me dá um dinheiro aí. Na última noite, terça-feira, criara-se o costume de encerrar o baile em cima da praça, ao redor da estátua do padre. A orquestra tocava no clube até às cinco horas da manhã e depois saía desfilando pela rua São Francisco até a praça. Retirávamos as últimas reservas de energia de corpos estropiados por quatro noites seguidas de farra só pelo prazer de se vangloriar depois. Era uma atitude. As pessoas passavam, curiosas, em direção à tradicional missa de cinzas na Matriz. Provavelmente nos enxergavam como ET´s, adoradores do sol nascente.

Cloretil
O ano seguinte foi quase uma réplica, com a sutil diferença de que, desta vez, não estruí o cloretil. Aprendera que o uso correto era molhar um lenço e cheirar. O efeito é imediato: zumbido nos ouvidos, ausência de consciência, taquicardia, entorpecimento dos sentidos, principalmente visão e audição: a música se reduz a um som primitivo e parece vir de um lugar indefinido e a visão torna-se borrada, sem foco. Por sorte, o efeito é rápido, quase instantâneo, demora menos de um minuto. No ano anterior, Jânio Quadros, durante sua curtíssima presidência de sete meses, proibira o comércio de cloretil no país, mas havia muita mercadoria estocada em todos os Estados e durante alguns anos mais o Rodouro reinou absoluto na preferência dos usuários, até rarear, com preços inacessíveis.

Em 63 não brinquei carnaval. Sequer vim passar as férias em Juazeiro. Enfrentei o vestibular em fevereiro e fiquei por lá mesmo, ante a iminência do início das aulas na Faculdade de Direito. Como não testemunhei, não posso depor, mas, pela lógica dos fatos da vida, nada mudou. O carnaval era então uma festa eminentemente democrática, onde estranhos, de repente, podiam estar abraçados, cantando e pulando, mãos sobre os ombros uns dos outros. Em solos, em duplas, em trios, em grupos maiores, formando trenzinhos, o importante era incorporar o transe coletivo que parecia permear os foliões enquanto reproduziam as marchinhas animadas, os frevos febris, os sambas e as indolentes marchas-rancho do repertório, ao mesmo tempo em que se improvisavam passos e coreografias. Quando o calor da festa sugeria um esfriamento, a orquestra atacava de Zé Pereira, e a temperatura voltava ao pico, como se fora um ritual inconsciente envolto em uma magia peculiar e única.

64 foi uma nova reprise, tudo quase igual: o Treze, os amigos, as garotas, as marchinhas e o cloretil. Com vários primos hospedados em casa e amizade estreita com a família de João Menezes e Neide Almeida, resolvemos alugar dois jipes na praça, sem capota, e ficamos rodando pela cidade, subindo pela Pe. Cícero, dobrando na Carlos Gomes e descendo pela São Pedro até a praça. Muitos veículos participavam desse corso improvisado. Nas esquinas das ruas percorridas, muita gente se juntava para ver a anárquica folia e as crianças jogavam água nos veículos, com suas bisnagas de plástico. Depois, nos deslocávamos, primeiro para Barbalha e na sequência para o Crato, cujo carnaval de rua começava a se destacar, com blocos organizados e desfiles pela rua João Pessoa. Esses passeios, regados álcool e a cloretil, demoravam de quatro da tarde até sete da noite, quando voltávamos à casa para tomar banho, comer e logo se preparar para o baile no Treze e outros clubes. Haja energia. Terminada a folia, a gente constatou que sobraram dois tubos de cloretil. Sem ter o que fazer, aguardando a data de retornar aos estudos, eu, Hélio, Carlúcio e Mirival nos isolamos na casa de seu Arlindo, pai de Hélio, ao lado da Matriz e passamos a tarde cheirando cloretil, rindo, contando e recontando os episódios marcantes das férias, totalmente desatentos aos riscos potenciais desse tipo de “programa”.

Nesse mesmo ano, vieram duas garotas de Rio Bonito-RJ passar as férias na casa de João e Neide, parentes dela. Eu e Hélio conquistamos a simpatia das irmãs e iniciamos namoros bem-comportados. O carnaval foi animado, como é de seu estilo, mas diferente, porque desta vez estávamos presos a parceiras fixas. Fomos a bailes em Crato e Barbalha, além do já tradicional Treze. Foi um carnaval morno, sem maiores novidades.

Passado mais um ano, a gente compunha uma turma grande, para os padrões da época, irrequieta, sequiosa por diversão. Com a proximidade do carnaval, resolvemos formar um bloco. Mirival foi o idealizador e era o líder. Eu estava namorando e não queria saber de responsabilidades. O fato é que o “Bloco dos Pescadores” foi configurado e providenciado: fantasias, estandarte, coreografia. Havia até uma marchinha própria, composta por Assis Menezes e outros:

“Nós somos pescadores,
Temos vida infernal.
Pesquei esta sereia
Pra brincar no carnaval”
“Sereia... sereia...
Com todo teu esplendor.
Joguei a rede fora,
Pra fisgar o teu amor”. Depois repetia.

A sereia era uma cavala de seis quilos que a gente comprou no comércio de Zé Nilson, pai de Auronílson, ali na praça. Ele tinha um balcão frigorífico e, na última noite, nós entramos com a sereia, digo, a cavala, estendida em cima de uma rede de pescador. Todo mundo fantasiado a caráter. Fizemos parte deste bloco: eu e Vera Menezes; Dante Alencar e Miriam Calado; Marconi e Durcélia; Durval e Salma; Mirival e Norma. Acho que me lembrei de todos. Nossa entrada no salão do Treze foi como uma apresentação teatral: a orquestra parou, o locutor anunciou o bloco, a orquestra começou a tocar nossa música... e entramos, alegres,faceiros e excitados. Assim que terminou esta apoteose, Mirival correu ao hotel Calado para colocar a cavala na geladeira. Era nosso almoço amanhã.

Minha irmã Elba estava no Garotas infernais de Mascote mas, por azar, adoeceu na véspera do sábado gordo e perdeu a festa. Lembro-me de que todas as componentes do bloco foram lá em casa visitá-la, fantasiadas: Tenísia, Arleta, Selca, Marta Grangeiro, Jacira Leite e tantas outras.

Mais uma vez, o carnaval terminou na praça, pelas seis horas. Fomos dormir no hotel, ali perto e fomos acordados, lá pela uma da tarde, por um garoto de uns 13 anos, vassoura à mão, de voz e gestos efeminados, que trabalhava no hotel, na faxina dos quartos, que disparou, como uma metralhadora giratória:

-Dona Isabel tá chamando vocês pro almoço...
- E eu preciso arrumar o quarto...
- Pelo cheiro, a cavala ficou uma delícia.

Espancando um resto de sono dos olhos inflamados, saímos do quarto e o ouvimos cantar, vozinha aguda, mas entoada: “Nós somos pescadores...”

Ele estivera atento aos ensaios. Não resistimos e caímos na risada...
Ainda no transcorrer desse ano, o Clube dos Doze, como uma fênix, renasceu dos escombros. A dinâmica e empreendedora Neide Almeida assumiu a tarefa de soerguer o clube e contou com a ajuda de inúmeras personalidades de nosso meio social, como Expedito Pereira, Leandro Bezerra, Alberto Morais, José Machado, Dorival Nascimento, Dedé Matias, Cazuza Alves, Doro Germano, Wilson Campos e tantos outros. A ressurreição do clube criou mais uma opção de lazer para uma juventude ansiosa por novidades, arejada e nutrida pela revolução de hábitos e costumes que vinha da Inglaterra e dos EUA, Beatles à frente.

Em 1966, quando se aproximou o carnaval, Jane Menezes me convidou para formar um bloco e eu topei. Ela conseguiu um patrocínio com Júlio Caldas, um amigo da família, que era representante do relógio Grão-Duque, muito popular à época, para todo o Nordeste, com sede em Recife. Não era muito dinheiro, mas ajudou a comprar as fantasias de relógio estilizado, cujos esboços vieram da Veneza brasileira, o estandarte, pagar as costureiras, essas coisas. Participaram do bloco: Jane, Jonei e Nélson Almeida, eu, Hélio, Itim Néri, Ricardo “Pinguim” e outros. Nós nos reuníamos na casa de João e Neide, horas antes de seguir para o clube. O Rodouro já escasseara, mas Itim, que era abonado, conseguira comprar alguns tubos. Toda noite ele se apresentava com uns três, um em cada bolso trazeiro e outro no bolso da camisa preta do bloco. Quando ele dava uma cheirada mais funda, caía desmaiado ao chão e nós, como urubus famintos, pegávamos os tubos e ensopávamos os lenços. Ele fingia que nem notava:

- Parece que esses tubos de hoje em dia secam mais rápido...

Nosso carnaval foi no Doze, mas o Treze comandou a folia, pois a maioria preferiu se manter conservadora. Havia pouca gente, mas foi animado e muito ordeiro.
Os Pinduras
Meus irmãos, Herialdo e Deca, conviviam com uma turma grande de adolescentes. Fundaram um grupo informal chamado “Os Pinduras”, composto também por Tadeu Pinheiro, Breno Teixeira, Juvêncio Gondim, Hildegardes Onofre, Edson Amorim, Bertim Pita, Edion, Cícero Wágner, Sérgio e Roberto Belém, dentre muitos outros. Na primeira noite em que o “Grão-Duque” adentrou o salão do Doze, eles, surpreendentemente, que estavam escondidos entre os veículos estacionados à frente do clube, ingressaram no salão logo atrás de nós, com um estandarte mambembe onde se lia: “Grão-Nada”. Uma espécie de pegadinha.

Um ano depois formamos o “Folia do Mug”. O Mug era um personagem de sucesso, acho que nascido na Itália e que se espalhara pelo mundo como uma epidemia. Era usado como talismã em chaveiros, artefatos e utensílios, estampado em todo tipo de gadget possível. Era um monstrinho, com aspecto de gremlin. O bloco tinha as fantasias, estandarte e até uma marchinha, composta, salvo engano, por Fantinha Menezes:

“O mug chegou...
Pra nos dar sorte
Sim senhor.”

Éramos 16 participantes: Anchieta Machado, Theresa Cristina Menezes, Célia, Marconi Carneiro, Darival e Marta Grangeiro, Wolney Magalhães, Alcélia Nobre, Váldsen Pereira, Fantinha, Miriam Calado, Ricardo “Pinguim”, Vânia, Jacira Leite, eu e meu irmão Herialdo. Brincamos no Treze, por opção da maioria, mas o Clube dos Doze também fez seu carnaval. O cloretil agora era a marca “Universitario”, da Argentina. Era uma droga: menor e menos cheiroso que o da Rhodia, de vidro e sempre apresentava problemas de manuseio. Contribuiu para a queda do uso do produto no país. Também já se começava a utilizar o loló, ou cheirinho da loló, uma explosiva, perigosa mistura de perfume, clorofórmio e éter, que pode provocar até parada cardíaca. Certa noite, Chico Luna apareceu no Treze com um vidro contendo uma substância desconhecida, para por no lenço e cheirar. Chico Romeiro estava na portaria, recebendo os ingressos. Quando viu Chico distribuindo doses, pegou o lenço e pediu uma. Cheirou... e caiu duro no chão da entrada, ficando desacordado por uns dois minutos. Enquanto alguns se abaixaram para socorrê-lo, muitos aproveitaram e caíram de graça na folia. Coisas da natureza humana.

Mais um ano se passou, o mundo mudava rápido e a gente acompanhava. O ano de 68 ficou conhecido na história como o “ano que nunca terminou”, alusão óbvia aos sonhos de mudança acalentados pela juventude em todo o planeta e que resultaram em frustração. Era a época dos hippies, do chavão “paz e amor”, do auge dos Beatles e, no Brasil, da Tropicália. Com a proximidade do carnaval, resolvemos organizar mais um bloco e o batizamos de “Alegria Alegria”, para combinar com o psicodelismo dominante e que a gente queria homenagear nos trajes. Muita gente, garotos e garotas, nos procuraram para aderir. O quartel-general, para não variar, era na casa de Neide. Um mês antes da abertura da folia começou o movimento de jovens trocando ideias, dando palpites, sugerindo detalhes. As meninas costuravam e colavam ali mesmo, um quarto no andar de cima. Foi um bloco de criação coletiva, cuja maior característica era o ecletismo da constituição e cujo maior efeito foi a camaradagem que resultou da convivência nos preparativos. Havia mais rapazes que moças, quase o dobro: eu, Vevé, Dudu Matos, Marcus Carneiro, Ítalo Pereira Matos, Jane e Jonei Menezes, Rita Pinheiro, Ivanhoé Bezerra, Vera Lavor, Djercília Almeida, Guálter e Dante Alencar, Nélson Almeida, Adérson Júnior, Márcia Carneiro e Ana Pinheiro. (Foto abaixo)

A diversão foi no Doze, pela primeira e única vez capitaneando o movimento, com o apoio da sociedade juazeirense, acostumada a frequentar as inesquecíveis vesperais do clube, que atraía gente jovem de toda a região aos domingos. Eu entrava com o bloco, mas namorava uma garota não-participante, a quem, no salão, dedicava minha atenção. Mas, quando o bloco resolvia ir ao Tênis, se exibir, por solidariedade eu o acompanhava, e a garota ficava. Só o espírito do carnaval pode explicar tal paradoxo.

No ano posterior, uma travessura imperdoável: embalados no álcool, um grupo de rapazes saímos pelas ruas do “corso” de Juazeiro lançando cal virgem sobre os curiosos que se aglomeravam nas esquinas. Era a versão local do mela-mela, que fazia muito sucesso nas localidades praianas do Ceará. Em anos anteriores, já se tornara comum se jogar maisena, arrozina, qualquer tipo de farinha fina uns nos outros, nas esquinas da cidade, por onde passavam os jipes sem capota. Outras pessoas, geralmente crianças, jogavam água, com bisnagas de plástico. Resolvemos inovar e compramos uma lata de cal virgem. Nós possuíamos uma Rural Willys, abrimos a porta de trás e nos sentamos ali, com a lata ao alcance das mãos. Quando chegávamos em uma esquina lotada, era só parar e disparar os punhados do pó. Se caísse no olho de alguém, era choro certo. Entre os participantes desta traquinagem estávamos, Luis Carlos, Hélio, Herman Morais, Chico Noca, Dante, eu e Hélido Magalhães. Foi um ato impensado, alavancado pelo irresponsável ardor juvenil, mas carnaval tem dessas coisas, principalmente quando os efeitos do álcool embotam a razão e predominam sobre o bom senso.

Depois daí somente vim a participar de outro bloco em fevereiro de 1971. Arregimentamos outra turma de número alentado e começamos a investir. A AABB era um clube bem frequentado, fazia festas jovens muito concorridas com Os Águias, Os Barulhentos e outras bandas locais, mas nunca patrocinara um carnaval. Além das peladas de futsal, muitos participantes do bloco habitualmente aparecíamos por lá, principalmente aos sábados pela manhã, para um bate-papo regado a uma cervejinha gelada, servida por Tarso e Pretim, com feijão verde, ovos cozidos e tripa de porco pra tira-gosto. Nosso bloco ajudou a decorar as inúmeras vidraças das portas e as paredes do clube com motivos carnavalescos. Ajudamos com as serpentinas e os confetes, para criar o clima. A AABB era-nos um lugar familiar, onde estávamos à vontade, com inúmeros amigos entre os sócios-bancários.

O bloco não possuía denominação nem tinha estandarte. As fantasias eram variadas, uma diferente para cada noite. Era mais um agrupamento do que um bloco, mas sobravam animação e vontade de se divertir. Entre os inúmeros componentes, me lembro de Pereira, do Incra; Bertim Pita, Aurileide Pires, Bosco Mendonça, Célia Baiana, eu, Hildegardes Onofre e muitos outros.

Na primeira noite fomos fantasiados de havaianos. As mulheres de sarong e uma peça na parte superior, escondendo os seios, com colares coloridos de plástico. Os homens fomos de sarong, sem camisa, com os mesmos colares. Na entrada, o inesperado:

- Não é permitido entrar sem camisa.

A diretoria do clube estava plantada à porta. Tudo gente amiga: Lucinery, Vágner Oliveira, Haroldo, Edílson Sobreira, Fiúza. Ficamos pasmos.

- Não acredito que vocês vão nos barrar, depois de tudo que fizemos, apelou Pereira.
- A diretoria decidiu e não há exceção. Sem camisa, não entra.
- Mas é carnaval e nós estamos fantasiados de havaianos, ponderei.
- Onde já se viu havaiano de camisa, uma das meninas deixou escapar.

Não houve argumento que convencesse. Compráramos duas mesas no clube, mas ninguém queria dar o braço a torcer. Ou se entrava como se estava, ou nada. Deu o nada.

No impasse, todo mundo contrariado, alguém sugeriu:

- Neste caso, vamos para o Tênis.

Não precisou nem votar. Ir ao Crato era uma forma de esnobar a truculenta, retrógrada decisão da diretoria da AABB. E para lá fomos.

Chegando ao Tênis, semi-lotado, pedimos para falar com a direção do clube e explicamos toda a situação. O diretor Juvêncio Mariano, que nos atendeu:

- Precisamos consultar o dr. Jáder. Ele é quem vai decidir.

O dr. Jáder era Jáder Nogueira Santana, Juiz de Direito da cidade, a quem eu conhecia por causa do cartório e porque ele era amigo de Idelmar, um primo meu, também Juiz.

Ele nos recebeu de braços abertos. Combinamos de comprar duas mesas para o grupo todo, para as quatro noites, desistindo de vez da AABB.

O grupo era grande e se esforçou para ter um carnaval animado, mas havia uma sensação de incompletude no ar, faltava alguma coisa para que a festa fosse um sucesso.

Este foi um carnaval de decepções e frustrações, de excessos e extravagâncias. Já éramos adultos e a inocência, gradual e quase imperceptivelmente se despedira, cedendo lugar a desejos carnais, mais lascivos.

Na manhã de quarta-feira, demasiadamente sonolento, cansado, ainda sob o efeito embriagador do álcool consumido, guiando um Opala azul repleto de caronas entorpecidos, sob minha inteira responsabilidade, em direção ao Juazeiro, sofri um ataque agudo de remorso e concluí, filosofando com os botões da camisa, que aquele havia sido o último carnaval de minha juventude. As dissipações, as libações e os exageros comportamentais, concentrados no exíguo intervalo de um tríduo momino,  empurraram minha autoestima para profundezas de fossas oceânicas e soaram em meu cérebro agitado como tambores anunciando a necessidade de mudança, de uma nova postura na vida e quando o sol despontou no horizonte e um manto dourado acobertou a natureza neutra, o raiar de um novo dia, indiferente mas impávido, era a metáfora perfeita para a minha solitária resolução.
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Esta foto é da primeira noite de carnaval do Doze, em 66, quando da reabertura. Aparecem:
Em pé: Nilton Gomes, Leandro Bezerra e João Menezes; Sentados: Letícia Pereira, Elias Rodrigues, dra. Águeda, a juíza; Neide Almeida e Expedito Pereira




segunda-feira, 28 de abril de 2014

RELEMBRANDO A JUAZEIRO DOS ANOS 50: Uma homenagem póstuma a Zé Wilker - Por Sávio Leite Pereira

José Wilker  quando em companhia do autor deste texto visitava o Memorial Padre Cícero
Introito
A morte precoce e surpreendente de Zé Wilker me abalou emocionalmente muito além do que jamais imaginei. Mais que um ator consagrado, mais que um astro televisivo, mais que um intelectual irreverente e vanguardista, perdi um amigo de infância que durante anos me fez companhia, na escola e na rua, e junto com quem aprendi a amar o cinema e a literatura. Minhas lembranças dessa época como que ficaram órfãs. Posso até narrá-las, mas já não posso compartilhá-las com aquele que as vivenciou comigo e isso dói. 
Quando tomei a iniciativa de dar-lhes forma e comecei a escavar a memória, foi como se me defrontasse com bolsões de lembranças adormecidas, guardadas em esconderijos incrustados no cérebro, à espera do esquecimento. Resgatá-las foi uma experiência reconfortante. Em ordem quase cronológica, eis alguns dos fatos relembrados, sujeitos a correções em detalhes secundários, mas não em sua essência:

A pré-história
Comecei a estudar no Ginásio Salesiano em 1953, advindo do Dispensário N.Sra. das Dores, das irmãs missionárias, que ficava ali próximo à igreja Matriz. Fui submetido a um teste classificatório e autorizado a cursar o 2º ano primário, onde encontrei Wilker. Não sei dizer se ele fez o 1º ano ali mesmo ou se vinha, como eu, de outra escola.
Nos dois primeiros anos, 53 e 54, nossa convivência era apenas na sala de aula. Ele morava com a tia, Anunciada, na rua Grande (Padre Cícero) e eu, na rua da Conceição, quase em frente ao Clube dos Doze, hoje a agência do Bradesco. Por isso, a gente frequentava turmas diferentes de meninos nas brincadeiras de rua, longe do colégio.
 A única recordação vívida desse biênio era que nosso professor de Português era Luís Magalhães, tio de Wilker, que costumava beliscar os alunos irrequietos ou que, de alguma forma, atrapalhassem o bom andamento da aula. Luís beliscava um aluno na barriga e o xingava de “barata choca do diabo”, alto e bom som. Na sequência, aplicava também um beliscão em Wilker.
- “Mas eu não fiz nada”, ele gemia, reclamando.
- “É só pra não dizerem que eu estou protegendo você”, finalizava Luís. 

O início da amizade
Anunciada e Luiz Magalhães
Em novembro de 1954 nos mudamos da rua da Conceição para a rua Grande, vizinho ao Hotel Guarani. Uma casa maior, para acomodar os sete filhos de Expedito e Letícia. Essa troca de endereço acarretou uma série de mudanças: tornou-se habitual eu e Wilker nos encontrarmos a caminho da escola; tornou-se corriqueiro a gente conviver na praça, ponto de encontro de toda a garotada das redondezas; facilitou a gente combinar as idas ao cinema, quando descobrimos ser uma paixão em comum; nos aproximou muito mais porque, além da escola pela manhã, a gente tinha as tardes e as noites para fazer algo juntos: estudar, vaguear, brincar, ir ao cinema. Até porque, fora da sala de aula, éramos os únicos com residências próximas uma da outra.
Por essa época, Wilker sempre viajava para Recife nas férias e eu costumava passá-las em Aurora, na casa de minha avó materna, o que reduzia substancialmente a nossa convivência, durante meses em que tínhamos toda a disponibilidade de tempo possível.
No ano de 1955 nós cursamos a 4ª série primária. Havia um professor muito rigoroso e exigente, Geraldo Botelho. Lecionava Português e nos obrigava a ler e interpretar textos de um livro apropriado para a série, que englobava as quatro matérias básicas. Aos sábados havia só duas aulas, ambas dele. Era marcado um texto para estudar e a gente tinha que decorar o vocabulário, uma relação com as palavras mais difíceis e desconhecidas. Era como uma prova oral. O aluno que errasse um significado ou que confessasse não saber, por qualquer motivo, recebia duas aplicações de palmatória, uma em cada mão. O professor Geraldo era um homenzarrão, criado no leite de Caririaçu, e a gente temia essas pancadas, que pareciam doer como o inferno, de forma que a gente decorava até as vírgulas e nunca fomos espancados.
 Em novembro houve as provas finais. Quem passou teve mais uns vinte dias de aulas e depois veio o temido Exame de Admissão, a porta de entrada para o curso ginasial. No domingo anterior à primeira prova desse Exame eu fui ao Eldorado, como de hábito e na volta,  na praça, comprei e comi um saco de pipocas que, estranhamente, estavam com um gosto esquisito, de querosene ou algo similar. Não deu outra: na manhã seguinte amanheci obrando e vomitando, com uma aguda infecção gastrointestinal. Perdi as provas, mas meu pai conseguiu, justificadamente, que eu tivesse uma segunda chance, logo que me restabeleci. Quando fui fazer a prova de História do Brasil, sozinho em uma sala de aula, o professor Lessa me entregou uma prova já corrigida para que eu copiasse as questões. Era a prova de Wilker e ele havia tirado um 8. Nesse momento entrou na sala um garoto conhecido como Pita, filho de Osvaldo, que terminara o 1º ginasial:
- Não seja besta, você copia a prova dele e passa.
- Eu já li as respostas dele e eu sei mais, argumentei. A semana doente me deu uma mãozinha extra, mas sempre me saí bem em História e a Guerra do Paraguai, o ponto sorteado, era um tema que me atraía. Tirei um 10, sem maiores esforços e tirei o 1º lugar da turma no Admissão, iniciando uma trajetória bem-sucedida como ginasiano.

O ano da revelação
A partir do ano letivo de 1956, ao mesmo tempo em que estreávamos no curso ginasial, o Salesiano ganhou um reforço considerável em seu corpo discente: a chegada do clérigo Paulo Andrade, a quem nos acostumamos chamar de padre Paulo. Jovem, cheio de vigor, de ideias e de iniciativas, ele introduziu uma série de novidades que causaram uma espécie de revolução no aprendizado, nos hábitos e nas atitudes da maioria dos alunos. 
A primeira delas foi a criação de duas associações: o Pequeno Clero e a Companhia São Luís. Na primeira, associaram-se os alunos mais jovens, com a finalidade de estudar o catecismo, de aprender a ajudar às celebrações de missas e bênçãos como coroinhas, de formar um time de futebol, dentre outras menos memoráveis. Dela fizemos parte eu, Wilker, Liberal, Plácido, Rubens Darlan,
Idelvan
Aristóteles Braz, Idelvan Magalhães e muitos outros. Havia reuniões periódicas, com diretoria, atas, discursos e tudo mais. O principal resultado, além do futebol, foi o aprendizado das tarefas de coroinha. Havia dois em cada missa. Um era chamado “de primeira”, tinha inúmeras tarefas a fazer durante a solenidade, principalmente quando a missa era “cantada”, cheia de hinos e rituais litúrgicos. A outra era chamada “de segunda”, e aí eu e Wilker nos acomodamos. As tarefas eram mais leves e mais fáceis de decorar e menos sujeitas a erros e equívocos que poderiam comprometer o andamento da “santa missa”. Dessa fase da vida guardei na memória os versos de uma oração cantada nas bênçãos:


Tantum ergo sacramentum
Veneremur cernui,
Et antiquum documentum
Nova cedat ritui.
Praestes fides suplementum
Sensuum defectui.
Houve uma ocasião solene relacionada ao Pequeno Clero, meses após sua fundação. Talvez um retiro espiritual. O fato é que todos nós tivemos que comungar e por conta disso ficamos em jejum até depois de nove da manhã. Houve então uma reunião do grupo em que cada membro levou um item, comida ou bebida. A festa foi no auditório da escola e Idelvan levou uma garrafa de SOS, bebida alcoólica feita com ovos e outros ingredientes. Cada um tomou um pouco e ficamos levemente embriagados. Na saída do colégio, descendo pela rua Grande, chutamos todas as latas de lixo das calçadas, uma molecagem imperdoável. A partir daí, Wilker, por algum motivo, ficou estigmatizado com a fama de vândalo.
Hélio Luna
A Companhia São Luís possuía tarefas e atividades similares e comportava alunos mais graúdos, das 2ª e 3ª séries, dentre eles, Baiano, que era um interno da escola e o presidente, Marcus Jussier, Jairo Medeiros, Hélio Luna e tantos outros. Havia uma certa rivalidade nos times de futebol dessas entidades, mas, no geral, a gente sempre levava a pior, dada a disparidade física.
Outra iniciativa do padre Paulo foi a criação de certames: de Religião, de Matemática, de Declamação, pelo que me lembro. Eram eventos competitivos entre os ginasianos. O de Religião consistiu em perguntas sobre o catecismo. Tivemos que decorar as respostas. Quem conhece sabe que no início é fácil (Exemplo: o pai é deus? Sim, o pai é deus; o filho é deus? Sim, o filho é deus; o espírito santo é deus? Sim, o espírito santo é deus. Então são três deuses? Não, são três pessoas distintas, mas um só deus verdadeiro. Nunca esqueci, como também nunca entendi a lógica desse tipo de raciocínio dogmático), mas que, no final as perguntas são melhor elaboradas e as respostas mais longas e mais complexas. Os concorrentes, cerca de uns cinquenta, ficamos em pé, formando um círculo, o padre Paulo no centro ia perguntando um a um, na ordem do catecismo. Quem errasse era automaticamente eliminado e saía do círculo. Wilker foi eliminado na terceira rodada. No final ficamos eu e Francisco Rolim, meu colega de classe, mas um adolescente de uns quinze ou dezesseis anos. E chegáramos à parte final, aproximando-se das respostas que eu não conseguira decorar, mas o Rolim errou antes de chegar minha vez e me saí vitorioso. O prêmio foi uma estatueta de N. Sra. de Fátima fluorescente, dessas que brilhavam no escuro. 
O certame de matemática foi realizado separadamente pelas séries, obviamente, e também saí vencedor no 1º ano. Já o certame de declamação foi o mais empolgante. Primeiro houve uma competição interna em cada classe, para que fosse escolhido o melhor, que a representaria. Um a um fomos chamados à frente da sala e recitamos uma poesia previamente escolhida pelo padre. A mim me coube declamar “O livro e a América” de Castro Alves e me saí mediocremente, principalmente por conta da timidez. Quando chegou a vez de Wilker, ele começou:
“Estamos em pleno mar. doudo no espaço
Brinca o luar – dourada borboleta;
Estes versos, de “O navio negreiro”, foram ditos com tanta graça e leveza de gestos e entonação, que todo mundo parou até de pensar e passou a prestar atenção em Wilker. E ele prosseguiu, revelando um talento insuspeito, um domínio completo da tarefa que lhe foi atribuída, como se fosse um experimentado declamador. Era quase impossível acreditar que diante de nós, uma classe com quase cinquenta alunos, estivesse um menino de pouco menos que onze anos de idade, exibindo o fascínio da interpretação com tanta expressividade. E ele continuou, brilhante e competente, até os versos finais:
“Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais!...da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! Arranca esse pendão dos ares!
Colombo! Fecha a porta dos teus mares!”

Quando Wilker terminou de dizer estas palavras, empolgado e excitado, a classe entrou em clima de delírio. Não só ele foi longamente aplaudido como todo mundo se virava para os vizinhos com exclamações de surpresa e até de encantamento. Foi uma unanimidade. Não havia concorrência possível e Wilker representaria o 1º ano.
Marcus Jussier
Na etapa final, apenas Marcus Jussier, da 2ª série, depois um consagrado artista plástico, conseguiu rivalizar com Wilker, declamando, com empenho e arte, “Vozes d´África”, também de Castro Alves. Mas Wilker repetiu o brilho de seu desempenho anterior e logrou sair-se vitorioso, com sobras. 
Dias depois, ele voltaria a competir em outro evento semelhante, na escola de Zuila Morais, na rua Grande. A final foi contra Ângela Morais, então uma garotinha de uns cinco ou seis anos, que começou declamando:
“Rua de pobre não carece de asfalto.
Pobre não tem automóvel”.
Houve um efeito eletrizante, dada a tenra idade da artista, o seu jeito gracioso de interpretar os versos e o inusitado do poema “Rua de pobre”, de Marilia Pozzoli, desconhecida entre nós.
Ângela Morais
Era poesia moderna, já dominando o cenário poético do país. Mas em seguida a atuação de Wilker recitando os inflamados versos do vate baiano voltou a empolgar a plateia e ele novamente se consagrou, ultrapassando agora os muros do Salesiano com sua fama de declamador.
Meses depois, padre Paulo começou a ensaiar uma peça religiosa, sobre deus, demônio e pecado. Eu fui escalado para integrar uma espécie de coro grego, com mais três meninos, que ficava no fundo do palco, recitando e cantando. Wilker ficou com o papel mais destacado, depois do protagonista, desempenhado por um adulto já tarimbado. Todos no palco usávamos roupas da época medieval. Pelo menos, um arremedo de. O auditório da escola estava superlotado, o que me pôs nervoso e gaguejante. Para resumir: no dia seguinte, na escola e no bairro, o comentário único era a atuação de Wilker. Aos onze anos, se revelava um garoto-prodígio, de um talento enorme, inesperado.
Findas as aulas e terminadas as provas, houve uma solenidade de entrega de boletins finais no auditório, dia 8 de dezembro de 1956. O padre Nestor Sampaio chamou um a um os alunos do 1º ano, mas
Pe. Nestor
estranhamente saltou meu nome. Fiquei indócil em minha cadeira, ao lado do meu pai, sem saber o que ocorria. Depois ele chamou os alunos do 2º, do 3º e do 4º anos, e nada de me chamar. Cheguei a ensaiar uma caminhada até o palco para reclamar do equívoco, mas o padre Nestor sinalizou manualmente para que eu aguardasse. Chamado o último aluno, ele então disse: 
- “Vamos chamar agora o aluno que tirou a maior média de todo o ginásio, 9,6”. 
E falou meu nome. Subi ao palco sob aplausos, pernas tremendo de timidez, mas o peito estufado de orgulho por uma conquista que eu nem mesmo esperava.

Aventura prosaica na Princesa
O início do ano de 1957 trouxe a novidade do bambolê, um brinquedo preferencialmente feminino, uma roda fina, de tamanhos variados, na dependência da idade, que se usava na cintura ao mesmo tempo em que se rebolavam os quadris a uma velocidade suficiente a evitar que o bambolê despencasse. Exigia certa habilidade, mas as meninas logo pegavam o jeito. Esse brinquedo se tornou uma febre na cidade e os estoques do comércio logo desapareceram. Minhas três irmãs me procuraram para dizer que souberam que no Crato havia bambolês à venda. Para agradá-las, tomei a decisão de ir ao Crato. Falei com Wilker a respeito e ele disse que topava ir, mas sugeriu que a gente fosse de bicicletas, em vez de tomar a tradicional sopa. Não titubeei em acatar a ideia, imaginando o prazer de uma aventura inédita. O dia 20 de março foi escolhido quase aleatoriamente. A gente faltaria às aulas e eu tinha algum dinheiro, porque meu aniversário ocorrera dias antes.
Nino
Na data combinada, choveu durante a madrugada, mas o tempo amanheceu nublado, porém sem chuva. Depois do café, antes das sete horas passei na casa de Wilker e fomos até a rua Santa Rosa, alugar bicicletas no Posto de Nino. De lá alcançamos a Pe. Cícero e iniciamos nossa jornada.
O percurso de ida, pela estrada nova, recém-construída, mas com calçamento de pedra tosca, foi uma moleza. O templo nublado, o prazer da novidade, a sensação de liberdade, o ineditismo da paisagem, vez que jamais havíamos viajado ao Crato por ali, tudo se somava para nos manter animados, excitados, cheios de graça. Houve um ou dois trechos em que fomos forçados a descer das bicicletas e empurrá-las, nas longas subidas e nenhum contratempo mais.
Chegamos a Crato perto das nove horas e fomos direto para uma lanchonete para beber água e merendar. Em seguida fomos à rua João Pessoa e logo no primeiro quarteirão após a praça Juarez Távora,  nos deparamos com bambolês ostensivamente exibidos em uma loja. Realizada a compra, tratamos de iniciar a jornada de volta, receosos dos efeitos do sol do meio-dia. Por volta de dez horas, o tempo já estiado, saímos do Crato. Pedalar uma bicicleta já sob efeito do cansaço é duro. Mas fazê-lo carregando três bambolês de tamanhos variados é um tormento. A viagem de volta foi um rosário de sofrimentos. Várias vezes tivemos que empurrar as bicicletas pela mera impossibilidade de pedalá-las em qualquer subidinha, por mais modesta. Assim mesmo, aos trancos e barrancos, chegamos vivos para contar a história. Vermelhos, doloridos e suados, mas vivos. E recebidos com alegria e compensadores risos de satisfação por minhas irmãs.

Um flagrante histórico
Pe. Zigiotti, tendo ao seu lado o Pe. Mário Daurizzi e os
 coroinhas Sávio (atrás) e José Wilker (à frente)
Ainda no ano de 1957 ocorreu a solenidade de lançamento da pedra fundamental do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, uma futura majestosa igreja que seria erguida do outro lado da rua, em um terreno pertencente à Ordem. Para prestigiar o evento veio de Roma o padre Zigiotti, elevada autoridade dos Salesianos. Eu e Wilker servimos de coroinhas, vez que se tratava de uma mera benção. Foi organizado um cortejo, na escola, que atravessou a rua e se dirigiu para o local previamente preparado. Acompanhavam-nos o padre Mário Daorizzi, diretor do colégio, padre Nestor Sampaio, gerenciador do projeto, os demais padres e professores. Todos os alunos estavam lá, perfilados, aguardando. Logo que adentramos a quadra de terra, foi batida uma fotografia desse cortejo.
Dias depois, faltou um professor e a direção convocou um jovem, da família Vitorino, salvo engano, para substituí-lo. Era um fato incomum. Wilker e eu achamos que aquela aula não era para valer e por causa disso, em lugar de prestar atenção, passamos a brincar de algum jogo, talvez batalha naval, um de nossos prediletos. Irritado com a nossa desatenção, o novato mestre saiu da sala e voltou com o temido, iracundo padre Nestor. Ele simplesmente nos convocou com um movimento do dedo apontador direito e quando chegamos suficientemente próximos, nos agarrou a cada um pela orelha e assim saímos da sala de aula, humilhados e medrosos. Puxados pelas orelhas, fomos conduzidos à sala da diretoria, onde aguardamos em pé, temerosos de uma inédita e desastrosa suspensão, difícil de explicar em casa, com uma orelha cor de sangue e as faces coradas de vergonha.
Quando o padre Daorizzi entrou e nos viu, talvez já sabendo do que ocorrera, nos dirigiu algumas palavras conselheiras, pedindo que nos comportássemos melhor. Não aplicou qualquer punição, mas deu a cada um uma singela lembrança. A minha foi aquela foto histórica com o padre Zigiotti, que até hoje conservo. O diretor era um italiano simples, de sorriso simpático, muito terno.

Esperteza é prova de inteligência
Vevé
Desde o ano anterior, me habituara a receber medalhas douradas de honra ao mérito em função das notas obtidas nos boletins mensais. A mesma coisa ocorria com Everardo Matos, Vevé, que estudava na Escola Normal, era o primeiro da classe e estava sempre em minha companhia, desde que passei a morar na rua Grande. É meu amigo até hoje. Wilker ganhara algumas medalhas de bronze e nos desafiou para uma
competição singular. Fomos os três à casa de Generosa Alencar, tia Gênis, como a ela se referia Vevé, ali ao lado da Matriz. Sobre uma mesa, abrimos um livro oblongo de Geografia, grande e fino, cheio de mapas. O livro foi aberto no mapa da Europa Ocidental e o jogo consistia em um jogador escolher uma cidade em qualquer dos países do mapa e desafiar os outros dois a localizá-la com o dedo. Sempre que Wilker escolhia uma cidade, eu e Vevé quase nunca a localizávamos, então ele ganhava nossas medalhas. Quando era a nossa vez de escolher uma cidade, por mais que a gente se esforçasse para selecionar uma cidadezinha obscura, pouco conhecida, ele invariavelmente localizava, até com certa facilidade e rapidez, e ganhava nossas medalhas.
Dona Generosa
O resumo da ópera foi que eu e Vevé saímos da casa de tia Gênis, fim da tarde, de mãos abanando, enquanto Wilker saiu vergado ao peso de tantas medalhas penduradas no pescoço. Ele podia ser um aluno desatento e desinteressado, mas era, sem sombras de dúvidas, um garoto esperto, sinal de uma inteligência privilegiada, Notadamente por que ele era um ano e cinco meses mais novo que eu e dois anos e meses mais jovem que Vevé.

Brigas, sangue e areia
Lula
Dias depois, em uma tarde qualquer, estávamos em bando, como habitualmente, na Praça Almirante. As brincadeiras mais comuns eram o pega, empunhação, esconde-esconde, bandeirinha. Estávamos sempre no coreto ou  na areia sob a generosa sombra do pé de juá. E foi ali mesmo que, de repente, observei que Wilker e Lula, meu irmão, estavam brigando. Wilker logo acertou o nariz dele e ocorreu a epistaxe de sempre: Lula começou a sangrar abundantemente e a chorar. Vendo aquilo, parti enfurecido pra cima de Wilker e, num golpe de sorte, acertei o nariz dele logo no primeiro soco. Ele também começou a sangrar e a chorar, enquanto corria para o ambulatório de Dade, que ficava ali mesmo na praça, lado da rua S. Francisco, enquanto eu corria para o cartório do meu pai, também na praça, mas na rua do Cruzeiro, receoso, principalmente, da reação de Antônio, que todos chamavam de “Antônio das cabras”, tio de Wilker e “prefeito” da praça.
Praça Almirante
Briga de meninos é assim. Quinze dias depois já esquecêramos tudo e o rio da vida voltara a seu leito normal. Em 1994, na primeira aparição no Arquivo Confidencial no Domingão do Faustão, narrei este episódio, dentre alguns outros, e a produção o escolheu na edição, com meu pedido de desculpas a Wilker, alardeado pelo rotundo apresentador. Puro teatro. Nós nos reconciliamos prontamente e muita coisa ainda ocorreria antes de nossa separação ao fim do curso ginasial.

Peripécias: Bigus e gazeta
Do Salesiano à praça era uma boa caminhada. A companhia de colegas e amigos amenizava, mas não suprimia a sensação de cansaço, principalmente na volta, pleno sol do meio-dia. De vez em quando, aparecia um caminhão descendo em direção à praça. Não tinha jeito: quem podia pegava bigu, jogava a pasta de livros e subia na carroceria. E aí era só se segurar e desfrutar.
Certa vez, um caminhão parou em frente ao colégio. O motorista não deu permissão, mesmo assim muita gente subiu para a carroceria, eu e Wilker inclusos. Em vez de descer até a praça, o sujeito surpreendentemente dobrou na rua Carlos Gomes e seguiu até a Feira do Capim. Lá, dobrou à direita na rua São Pedro e, sem nos dar a mínima chance de pular, nos levou e deixou na quadra Senhora Santana, o “Feixe de Varas”, limite urbano máximo da Juazeiro de então, com raríssimos casebres aqui e ali. O que antes era uma dificuldade passou a ser uma tortura: enfrentar quilômetros de caminhada sob um sol escaldante. O nome feio mais brando que a gente chamou com o chofer já ausente foi “fela da puta”. Para mim serviu de remédio. Nunca mais peguei bigu em caminhão à saída da escola. 
Mirival
Em outra ocasião, caímos na conversa de Mirival Calado e, pela primeira e única vez, gazeei aula. Com um grupo de meninos, cinco ou seis, eu e Wilker fomos ao que supostamente era o sítio do professor Macário, seduzidos pela promessa de ali encontrar saborosos e suculentos cajus. De longe, avistamos uma porção de cajueiros e, sem resistir, corremos sob o sol quente de setembro. Mas era pura miragem: os frutos das árvores eram cajuís, minúsculos e muito azedos. E os poucos que encontramos não serviram para mitigar a frustração de prazeres antecipados. Mirival também ouviu poucas e boas.
Cheguei em casa por volta de onze horas. Minha mãe:
- Hummmmm...chegou cedo hoje...
- Não tivemos a última aula.
Ela acreditou.

O ano da rebeldia
O ano de 1958 foi marcado por dois eventos impactantes: a grande seca no Nordeste e a realização de eleições municipais. O flagelo da seca acarretou inúmeras invasões de flagelados. Ficávamos na praça a observar levas e levas de homens e mulheres famintos, desfilando pela rua São Pedro com sacos vazios às costas na direção da Prefeitura e da Câmara, em busca de socorro e ajuda. Essas invasões já nos eram conhecidas, mas era a primeira vez que as víamos tão de perto e essas visões nos proporcionaram os primeiros comentários sobre a problemática social do país, sobre as carências de uma enorme parcela da população.
Pe. Mário Bálbi
No mês de junho, época das provas parciais, Wilker convidou a mim e a Vevé a estudarmos juntos na casa da tia dele, Anunciada, onde ele morava. A matéria era Geografia do Brasil. O professor era o padre Mário Balbi, a quem chamávamos pelas costas de padre “Corró”, apelido pejorativo que ele odiava. Nós três sempre apreciáramos Geografia, mas desta vez os pontos eram sobre o desenvolvimento econômico do país, os portos, a produção de mercadorias, números sobre importação e exportação de produtos. Apesar de Vevé frequentar outra escola, a matéria era coincidente. O plano era estudar durante a noite, à luz de velas, candeeiros e lampiões, diferentemente do que costumávamos fazer, estudando à tarde.
Às oito da noite, mais excitados com a novidade do que interessados, iniciamos nossa maratona. A matéria era insípida e a terminologia do livro nem sempre nos supria de entendimento capaz de interpretar corretamente a leitura. Em razão disso, mais divagávamos, discorrendo sobre cinema, poesia e a seca, do que estudávamos os assuntos da prova iminente. Simultaneamente, a tia de Wilker nos abastecia com café preto e bolacha Lídia, da padaria de seu Ângelo. E assim a noite se evaporou, sem que sequer tivéssemos lido metade dos capítulos predeterminados. Às onze horas, Anunciada nos obrigou a parar e a nos recolhermos ao quarto, onde a conversa, após os preparativos de praxe, ainda rolou por uma meia hora.
No dia seguinte, bem cedo, cada um voltou a sua casa para tomar café e trocar de roupa. Depois fomos às provas, cujos resultados foram desastrosos: Vevé, acostumado a tirar 10, ficou em um vergonhoso, para ele, 7. Eu tirei um medíocre 5 e Wilker, um vexaminoso 3.
E acabou-se por aí nossa experiência de estudo noturno. 
Dr. Feitosa, Zé Geraldo,
Raimundo Viana e Dr. Edvar
Em setembro, o clima eleitoral na cidade era tenso. O prefeito José Geraldo, da UDN, tentava emplacar o sucessor, Raimundo Viana, que enfrentaria nas urnas o ex-prefeito, dr. Conserva Feitosa, do PSD. A disputa era renhida, a cidade estava dividida, embora a classe média fosse majoritariamente situacionista. Dr. Feitosa teve então uma ideia genial, um golpe de mestre. Inventou uma procissão das flores em plena época de romaria. A procissão desceria à noite pela rua São Pedro e dobraria em direção ao Socorro, onde se situa o túmulo do Pe. Cícero, destino final das flores.
Na data do evento, pela manhã, no Salesiano, o baixinho e ágil padre Mário Balbi reuniu todos os alunos do ginásio nos corredores internos, subiu em um tamborete e fez um discurso inflamado sobre a realização da procissão das flores, nos admoestando a não presenciá-la e culminando com a ameaça de expulsa de qualquer aluno que fosse flagrado participando do rumoroso acontecimento. Lado a lado, eu e Wilker nos entreolhamos com laivos de desafio, rebeldia e cumplicidade, ante o absurdo daquela proibição, e eu tive certeza de que iríamos testemunhar o evento. A cidade não falava de outra coisa e não havia como evitar a curiosidade de meninos e adolescentes ávidos por novidades.
Por volta de sete horas da noite já era efervescente o movimento na praça, principalmente de pessoas jovens, estudantes. Como esperado, me encontrei com Wilker e logo em seguida com Hélio Luna, aluno da 4ª série, concludente. Ficamos batendo papo em um banco, na expectativa das ocorrências. Minutos depois a gente começou a ouvir, ao longe, um rumor surdo, indefinível. Aos poucos, as pessoas foram saindo da praça em direção à rua São Pedro e nós as seguimos. Paramos na esquina da farmácia Belém e aguardamos. O rumor era crescente, a gente já tinha certeza de que era a tal procissão que se aproximava, mas apenas quando ela despontou na esquina da São Pedro com a Santa Luzia foi que nos conscientizamos da realidade: a multidão que descia a rua rapidamente era tão enorme e emitia um clamor tão vigoroso, que nos assustamos e saímos correndo pela rua São Francisco, em direção à rua Grande e daí nos postamos à frente da casa de Zé de Matos Franca, pai de Vevé, quase vizinha à casa dos Bezerra, e perto da Farmácia
dos Pobres, cujo dono era o prefeito Zé Geraldo, em cujas calçadas a elite política da UDN estava reunida. A turba barulhenta apontou do outro lado da praça mas, em vez de dobrar em direção ao Socorro, o que já poderia ter feito na Santa Luzia ou na rua da Conceição, desceu até a rua do Cruzeiro, rodeando a praça e subindo pela Pe. Cícero, a rua Grande, passando exatamente em frente ao ponto onde nos instaláramos. A intenção era muito óbvia: desfilar diante do quartel-general dos opositores o formidável exército arregimentado, capaz de impressionar os eleitores indecisos, em uma demonstração de força inequívoca. Nem todos os participantes eram eleitores, é claro, e deveria haver muitos romeiros entre eles, mas era inegável que dr. Feitosa conseguira atingir seus objetivos eleitorais. De onde estávamos, deu para ouvir nitidamente as trocas de insultos entre os participantes da passeata e as pessoas que se postavam à frente da casa dos Bezerra, entre elas um destemido Promotor de Justiça, dr. Edvar Férrer, a quem eu conhecia por causa do Cartório, e que foi muito hostilizado.
Após a passagem da avalanche humana, voltamos à praça e demoramos algum tempo conversando sobre política, seca e outros temas adultos. A caminho de casa concluí com meus botões que estávamos crescendo, já tratando de temas adultos.
No dia seguinte a repercussão foi enorme na cidade, mas no Salesiano ninguém comentou nada, por medo das represálias. Dias após, Hélio comentou que o padre Corró, em uma rodinha com alguns concludentes dissera que fora mal interpretado e que a proibição de participação era para alunos fardados. O fato é que não houve punições.
Menos de um mês depois, dr. Feitosa ganhou as eleições, se tornou prefeito municipal e a “procissão das flores” entrou para a história política de Juazeiro.

Um discurso impressionante
Antes do fim do ano, chegou a Juazeiro uma comissão especial da Câmara de Deputados para avaliar os estragos da seca e averiguar as denúncias (verídicas) de que estaria ocorrendo desvio das verbas enviadas pelo governo federal para acudir os flagelados. Todo mundo comentava que alguns comerciantes juazeirenses estavam enriquecendo às custas do erário, em detrimento do socorro aos famintos sertanejos atingidos pela catástrofe natural. Em uma determinada noite, os membros desta comissão discursaram para
o público no cine Roulien. Eu, Wilker e vários outros colegas de classe estávamos lá. Quando um dos deputados, o gaúcho Fernando Ferrari, terminou sua fala foi delirantemente aplaudido e ovacionado. Ele, um homem alto, educado, elegante, feições delicadas, proferiu um discurso ético, moralizador, condenatório dos atos de corrupção, principalmente contra vítimas indefesas, ignorantes, sofridas. Saímos dali sensibilizados, impressionados com a atuação de Ferrari, antevendo o surgimento de uma nova e empolgante liderança jovem no país.
Com um slogan de enorme repercussão – a campanha das mãos limpas - Ferrari foi candidato independente a vice-presidente em 1960 e bem votado, mas perdeu para João Goulart e a história do Brasil se escreveu de outra maneira. Dois anos depois, em plena campanha para o governo do Rio Grande do Sul, faleceu em misterioso acidente aviatório. Uma pena.

O Clube da Juventude
Pe. Gino
Em um dos dias iniciais do ano letivo de 1959, o padre Gino Moratelli, sucessor do padre Daorizzi na direção desde o ano anterior, com seu carregado sotaque italiano, abordou a mim e a Wilker na saída da escola e nos incentivou, assim do nada, ou talvez porque fôssemos os melhores alunos em História Geral, matéria que ele lecionava, a realizar alguma atividade cultural, sugerindo uma pesquisa sobre o Pe. Cícero na farta documentação armazenada pela Ordem. A conversa foi curta e a gente ficou de dar uma resposta.
Em seguida, Wilker me procurou com a ideia de fundar um clube de leitura. A finalidade seria montar um acervo de livros (poesia, romances, ensaios, contos e tudo mais) a que os sócios teriam acesso para ler e escrever um resumo, uma interpretação, uma opinião. Aderi de imediato, até porque somava pontos para a sensação de amadurecimento que vinha experimentando, e resolvemos procurar Vevé, para realizar a primeira reunião. Nela ficou decidido que eu seria o Presidente; Vevé, o vice e Wilker, o secretário. Cada sócio aceito doaria dez volumes ao Clube, que se denominaria Clube da Juventude. A associação editaria um jornalzinho cultural, de quatro páginas, a ser distribuído gratuitamente. No campo das divagações, tudo pronto e acabado. Faltava combinar com a vida real.
Arregimentar sócios até que não se mostrou uma ingente tarefa. Cerca de dez dias depois já éramos uns quinze. Aí surgiu o problema da sede. As primeiras reuniões foram no Cartório mesmo, em um amplo salão na parte de trás, mas meu pai achou inconveniente. Surgiu a ideia de alugar um imóvel e logo localizamos uma sala barata ali na rua Santa Rosa, entre Conceição e Santa Luzia. Para enfrentar o aluguel, tivemos que aprovar a cobrança de uma mensalidade. Meu pai emprestou um birô, cadeiras e uma enorme estante, onde acomodamos o acervo de mais de cem obras, por ordem alfabética.
A trabalheira maior foi com o tal jornalzinho. A fonte primordial das matérias era a coleção em dezoito volumes “Tesouro da Juventude”, do Cartório. O jornal era datilografado e, para ganhar tempo, a gente se utilizava de duas folhas de papel-carbono, de forma a produzir três de cada vez. Mesmo sem curso, eu era um razoável datilógrafo, mas Wilker “catava milho”. O jornal trazia curiosidades científicas, poesias, charadas e até textos inéditos, criados por nós, quase sempre falando de filmes ou de acontecimentos locais. Nas ocasiões em que operávamos o “Jornal da Juventude” a gente ficava no 1º andar do Cartório, onde eram estocados os processos julgados e os autos de habilitação de casamento já arquivados.

O crime eleitoral perfeito
De tanto frequentar o cartório, Wilker percorreu todas as dependências e findou por encontrar o fichário geral dos eleitores juazeirenses. Era o arquivo dos “canhotos” dos títulos eleitorais que, juntamente com as folhas de votação, eram a fonte de buscas para a extração de segundas-vias, em caso de extravio. No ano anterior ocorrera o recadastramento eleitoral com a substituição dos títulos antigos, mais escuros, pelos brancos títulos novos de cartolina com fotografias em 3/4. E aí ele teve uma ideia ousada e atrevida e até hoje não sei como me convenceu: retirar os retratos das garotas bonitas da cidade, para colocar nos invólucros plásticos das carteiras que usávamos no bolso traseiro da calça, para guardar dinheiro. Mutilamos os canhotos eleitorais de Idílvia Luna, de Inês Mendonça, de Creusa Campos e de mais umas três belezuras e dividimos fraternalmente. Não sei se algum dia descobriram a travessura. Acho que não. E quando ele a revelou para todo o Brasil, em 1994, no Arquivo Confidencial, já era tarde. O crime prescrevera.

O melancólico fim de um sonho
Cerca de dois meses após a abertura, o clube já não era uma novidade, porque a atenção das crianças está permanentemente em mutação e nós já percebêramos a dificuldade de atrair o interesse delas para atividades culturais. Mas continuava funcionando, com entrada e saída de sócios, mantendo a média. Em uma noite em que haveria reunião ordinária, resolvi ir ao Eldorado ver o que eu achava imperdível “De folga para amar”, comédia romântica de Blake Edwards, com Tony Curtis e Janet Leigh. A sessão começava às 18:30 e a reunião às 19 horas. Mas eu entendi, brasileiramente, que daria tempo de conciliar, de justificar o atraso.
A primeira pessoa que encontrei no cinema foi Wilker:
- Ué... você não foi à reunião?
- Depois do filme a gente vai.
E assim caminhava, e ainda caminha, o Brasil.
Terminado o filme, passamos na sorveteria Rex, tomamos um sorvete de baunilha e saímos. Na praça encontramos um sócio, Chiquinho, filho do major Firmino, que vinha da reunião:
- Não houve. Foi a maior esculhambação.
- Ahn ???
- Amanhã eu conto. Agora tenho que ir pra casa, se não eu apanho.
Não foi necessário que ele contasse. Quando cheguei em casa, meu pai já soubera de tudo e me pediu para encerrar “essa história de Clube da Juventude”. E assim foi feito.
Afinal, o que aconteceu ? pergunta o leitor.
Um dos sócios era abertamente conhecido na cidade como gay (na época era viado, baitola) e alguns mais excitados, depois da leitura de um trecho erótico de um livro francês obscuro, do acervo, tentaram usá-lo à força, de forma inortodoxa, em plena sala do clube. Houve tumulto e algazarra, os vizinhos protestaram, alguém avisou a meu pai e o clube chegou a um final pífio, em cenário de anticlímax. Sobraram alguns livros, jamais reclamados pelos doadores: Wilker ficou com um, de Guimarães Rosa, e eu fiquei com “Eu e outras poesias”, de Augusto dos Anjos, até hoje meu poeta brasileiro predileto.

Fechando as cortinas
Tão logo começou o segundo semestre, iniciamos as atividades de preparação para as festividades de conclusão do curso ginasial. Em assembleia democrática, a classe escolheu Alberto Matos Feitosa, um dos mais velhos, para presidir a comissão. Criamos rifas, sorteios, leilões americanos, livro de ouro, tudo para arrecadar fundos para enfrentar as despesas com o tradicional quadro, com a festa dançante, confecção de convites, flâmulas comemorativas e tudo mais.
Mas antes havia as provas finais e o espectro da reprovação ou, menos mal, da segunda época rondava solto. O padre Corró lecionava Inglês e Português e não facilitava para ninguém, mesmo um concludente. A verdade é que não aprendêramos quase nada de análise sintática. Ficamos no limbo entre a velha e a nova Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), uma profunda mudança nas regras e denominações gramaticais, vigente a partir de janeiro de 1959. 
No dia do exame final de Português, o padre elaborou uma prova com uma redação (tema livre) e cinco questões gramaticais. Li as perguntas e vi que não conhecia as respostas, pois todas se relacionavam com a nova NGB e nunca fôramos preparados neste assunto. Fiz minha redação, um texto piegas, emocionalizado, sobre a morte e o enterro de um preto velho, a entreguei e saí, indo para casa.
À noite, fui ao Eldorado assistir ao musical “Cinderela em Paris”, de Stanley Donen, com Audrey Hepburn e Fred Astaire. Wilker me encontrou na fila:
- Cara, o que você escreveu naquela redação?
- Por quê?
- Porque o padre Corró leu, depois levantou a vista e disse: “um menino que faz uma redação dessas, é porque sabe Português. Vou dar um dez”. Ficou todo mundo curioso pra saber o que você escreveu.
- Nada demais. Vamos entrar?...
A solenidade de entrega dos diplomas foi no pátio externo da escola. Fernando Ferrari foi convidado para ser o paraninfo, aceitou e compareceu. Uma honra para nós. Depois, no Treze Atlético Juazeirense houve a festa dançante, onde pela primeira vez, dancei um bolero, além da valsa tradicional.
Turma do Salesiano de 1958. Da esquerda para a direita: Francisco. De Assis Casimiro, Sávio Leite Pereira, Francisco Rodrigues dos Santos, Cicero Roberto Vitorino, Cicero Ferreira Lopes (irmão de Escurinho); José Rodrigues Filho, Cícero Pereira da Silva, mais conhecido como Cícero Timóteo, José Wilker, Plácido Bezerra de Melo, Valmir Rodrigues da Silva, Volney Oliveira Araújo e José Renato Menezes Pereira. Sentado: Pe. Gino Moratelli.

Aguardando o avião-fantasma
Durante a festa no Treze foi formada uma comissão improvisada para falar com o deputado-paraninfo. O objetivo era pedir que ele conseguisse um avião da FAB que nos levasse a Salvador para uma sonhada excursão. Ele prometeu fazer o possível. Como líder da turma, Alberto foi quem conduziu as negociações. Todo dia era marcada uma data diferente até que finalmente o grande dia chegou. Embarcamos em um ônibus pela manhã e nos dirigimos ao campo de pouso, onde hoje é o Aeroporto Regional do Cariri. Não havia estação de passageiros. Ficamos dentro do ônibus até três horas da tarde, com o insuportável calor de dezembro cozinhando nossos juízos. Durante a longa e inútil espera por um avião que jamais apareceu, me lembro de que havia um rádio ligado, que tocou umas três vezes uma música de Nat King Cole, grande sucesso na época:

Ansiedad
Ansiedad, de tenerte en mis brazos
Musicando, ... palabras de amor
Ansiedad, de tener tus encantos
Y en la boca, volverte a besar

Tal vez este llorando mis pensamientos
Mis lagrimas son perlas que caen al mar
Y el eco adormecido, de este lamento
Hace que este presente en mi soñar

Quizás este llorando al recordarme
Estreche mi retrato con frenesi
Hasta tu oido llegue la melodia selvaje
Y el eco de la pena de estar sin ti

Ansiedad, de tenerte en mis brazos
Musicando, ... palabras de amor
Ansiedad, de tener tus encantos
Y en la boca, volverte a besar

Tal vez este llorando mis pensamientos
Mis lagrimas son perlas que caen al mar
Y el eco adormecido, de este lamento
Hace que este presente en mi soñar

Quizás este llorando al recordarme
Estreche mi retrato con frenesi
Hasta tu oido llegue la melodia selvaje
Y el eco de la pena de estar sin ti

Ansiedade
Ansiedade, de ter você em meus braços
Musicando palavras de amor
Ansiedade, de ter seus encantos
E voltar a te beijar na boca

Talvez eu esteja chorando meus pensamentos
Minhas lágrimas são pérolas que caem ao mar
E o eco adormecido, deste lamento
Faz que estejas presente em meu sonhar

Talvez eu esteja chorando ao lembrar
E aperte meu retrato com frenesi
E até a melodia selvagem chegar ao seu ouvido
E o eco da dor de ficar sem você

Ansiedade, de ter você em meus braços
Musicando palavras de amor
Ansiedade, de ter seus encantos
E voltar a te beijar na boca

Talvez eu esteja chorando meus pensamentos
Minhas lágrimas são pérolas que caem ao mar
E o eco adormecido, deste lamento
Faz que estejas presente em meu sonhar

Talvez eu esteja chorando ao lembrar
E aperte meu retrato com frenesi
E até a melodia selvagem chegar ao seu ouvido
E o eco da dor de ficar sem você.


Juazeiro do Norte, 29 de abril de 2014.
Sávio Leite Pereira