quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015


O Instituto eficiente

Faltando uns três dias para o domingo do pleito, alguém teve a brilhante ideia de forjar uma pesquisa, com Raimundão ultrapassando Carlos. O Instituto Infodata, nome fictício, é claro, fez a pesquisa mostrando um resultado que, transformados os percentuais em números absolutos, dava a vitória à nossa coligação por uma diferença de cerca de mil e quinhentos votos. O boletim foi impresso aqui mesmo e derramado de madrugada nas principais esquinas da cidade. A situação agiu rápido, peticionou e o Juiz Eleitoral, Acelino Jácome, concedeu uma liminar determinando a apreensão dos folhetos. A polícia federal foi acionada e vasculhou nossos três comitês, mas não encontrou um mísero exemplar. Fui notificado por e-mail e fiz a defesa, negando a autoria da criminosa iniciativa, atribuindo-a a eleitores avulsos e desconhecidos. E ficou tudo por isso mesmo. O mais curioso é que o Infodata acertou quase exatamente o resultado final do pleito. Uma ironia do destino.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015



De olhos vendados
Atrás nas pesquisas, precisávamos de algum fato novo, capaz de infletir a tendência das intenções de voto. Chamei Silva Lima e propus que procurássemos Santana e Tarso Magno, candidatos minoritários, para uma conversa amistosa em torno de um provável acordo de última hora. Ligamos e a reunião foi marcada para a manhã seguinte no escritório de Tarso, em uma rua ali por trás da Prefeitura. Tomei a iniciativa:
- Santana, as pesquisas mostram que vamos perder por uma margem apertada. Se vocês renunciarem, com certeza seus eleitores vão votar na oposição...
- Você está enganado, Sávio, nós vamos ganhar as eleições. Essas pesquisas são manipuladas.
- É um ponto de vista. Mas a gente pode fazer um acordo, ganhar as eleições e governar o Município em conjunto. Posso garantir que a Secretaria de Saúde ficará com o PT.
- É impossível a gente renunciar a estas alturas. O eleitorado não aceitaria.
- Se Carlos Cruz ficar mais quatro anos no poder, vocês poderão ser os responsáveis.
- É um risco. Mas nós vamos ganhar.
E o papo morreu aí, ineficaz.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

JOSÉ ANDRÉ DE FIGUEIREDO - Um vulto histórico esquecido


Fernando Maia da Nóbrega



           

Inexiste em Juazeiro do Norte uma rua, praça ou, sequer, herma em homenagem a José André de Figueiredo. Embora tenha ele sido um dos maiores comerciantes do nosso município, na primeira década do século transato, e um político determinante na autonomia do nosso município, chegando a exercer o cargo de prefeito. A falta deste reconhecimento a ele é ocultar parte da história de nossa cidade.

Em princípio do século XX ,havia em Juazeiro duas classes sociais dominantes na economia: os “Filhos da Terra” e os “Adventícios”. Os primeiros, constituídos de pessoas da localidade ou cidades vizinhas, cuja posição social era devido à linhagem ou pela propriedade, constituídos pelas famílias Bezerra de Menezes, Figueiredo, Lobo, Sobreira Maia, Cruz, Gonçalves, Rocha, Franca, Macedo e outras. Já o segundo grupo era de pessoas provenientes da Paraíba, Alagoas, Pernambuco, atraídas pelos milagres ocorridos na cidade e aqui se estabeleceram comercialmente. Em virtude da ascensão econômica de alguns “Adventícios” surgiu uma hostilidade marcante entre as duas classes que marcou profundamente a política do lugarejo. (01)

José André de Figueiredo era um “Filho da Terra” proprietário de lojas em Crato e Juazeiro com especialidade na venda de tecidos. Tornou-se um dos maiores comerciantes do Cariri. De linhagem familiar tradicional na região, seu pai Joaquim Inácio de Figueiredo casou-se duas vezes 

Com Ana da Franca de Figueiredo teve os seguintes filhos:

1- Abdísio Inácio de Figueiredo

2- Joaquina Figueiredo Matos

3- Otoniel Inácio de Figueiredo

4- José André de Figueiredo

5- Joaquim André de Figueiredo (02)

Do segundo casamento com Maria Leopoldino de Araujo advieram os filhos:

1- Raul Figueiredo

2- Aurora Adélia de Figueiredo Maia

3- Dirceu Inácio de Figueiredo

4- Amanda Figueiredo (Sinhá)

5- Carlota Figueiredo

6- Sigefredo Figueiredo

José André matrimoniou-se, igualmente ao pai, duas vezes: a primeira, com Maria Sobreira de Figueiredo, vulgo dona Maria, e, após a morte desta, convolou-se com Priscila Sobreira de Figueiredo, ambas filhas do casal Benedito Gonçalves Dias Sobreira, alcunhado de Bibiu, e sua mulher Ana Angélica da Silva Sobreira. Nos dois casamentos não deixou descendentes.

Homem de personalidade forte, adotou desde cedo a filosofia do ateísmo, razão pela qual não acreditou nos milagres ocorridos, fato este que gerou antipatia dos romeiros. Padre Azarias sobreira o descreve da seguinte maneira:

“(...) José André de Figueiredo, abastado comerciante, mas céptico e demasiadamente independente” (03).

A primeira participação política de José André ocorreu em agosto de 1910, quando juntamente com padre Alencar Peixoto, Paulo Maia, seu cunhado, José Marrocos, Joaquim Bezerra de Menezes, Manoel Vitorino, Francisco Nery da Costa Morato, Cincinato José da Silva, José Eleutério de Figueiredo e outros deflagraram o movimento libertário de Juazeiro.(04)

Os anseios de juazeirenses, no tocante à emancipação política, geraram inúmeros e graves conflitos entre o distrito e sede do município. Juazeiro rebelava-se e não pagava mais impostos ao Crato. Em contrapartida, Antônio Luiz, prefeito desta cidade, armou o povo para invadir Juazeiro. A beligerância era alimentada, ainda mais, pela imprensa através dos jornais Correio do Cariri, da Princesa do Cariri, e o Rebate, de Juazeiro. A crise chegou a tal ponto que somente através do diálogo, da boa política, se evitou uma guerra fratricida.

Com o objetivo de cessar as hostilidades, o prefeito do Crato enviou dois representantes a Juazeiro: o coronel Abdon Franca de Alencar e o coronel Nelson Alencar. Padre Cícero, por outro lado, outorgou poderes ao padre Peixoto e ao poderoso comerciante José André de Figueiredo a fim de conseguirem um armistício entre as partes (05). Do pacto bilateral surgiram as seguintes cláusulas:

1- Juazeiro tornar-se-ia independente;

2- Cessaria a briga entre os jornais Correio e o Rebate;

3- Juazeiro pagaria os impostos atrasados ao Crato, cerca de 30 contos de réis.

Decorrente do acordo para autonomia do município, vários cidadãos apareceram como candidatos a prefeito: Joaquim Bezerra de Menezes, José André, doutor Floro, padre Alencar Peixoto e o adventício Cincinato Silva.

As ambições políticas começaram a surgir. Havia a forte tendência de José André ser nomeado o primeiro prefeito da futura cidade. O próprio padre Alencar Peixoto abdicou de ser candidato ao cargo em prol do comerciante conforme narra o escritor Ralph Della Cava:

“Além do mais ele foi obrigado a apoiar pela imprensa a candidatura do cel .José André de Figueiredo, filho da terra, e para intendente da futura Câmara Municipal a do cel.Cincinato Silva, um adventício, sendo ambos comerciantes” (06).


Os candidatáveis ao cargo de prefeito foram pouco a pouco sendo ceifados. Dois fatores foram preponderantes: a eterna hostilidade entre os” Filhos da Terra” versus “Adventícios” e ação subterrânea de doutor Floro Bartolomeu minando os concorrentes. E com o objetivo de sanar as divergências, o padre Cícero, como Tertius, é nomeado gestor do município. Em carta dirigida ao secretário do interior, José Aciolly, em 18 de outubro de 1911,o reverendo explica sua atitude:

“As ambições permitiram que eu, atendendo ao desejo do povo, assumisse oficialmente a direção política d’aqui pª evitar embaraço na marcha dos negócios políticos” (07) (sic).


A nomeação do padre Cícero para prefeito era de bom grado para o doutor Floro que passou a ser de fato quem mandava na cidade, inclusive nos cofres da prefeitura. A indicação do padre gerou sérias divergências políticas na cidade. O escritor Manuel Diniz assim retrata:

“(...) o Padre Peixoto, Jozé André e outros chefes do movimento em prol da autonomia deste município ficaram intimamente desgostozos com o Padre Cícero, por ter este aceito o cargo de Prefeito, e começaram logo a fomentar forte intriga política no sentido de conseguirem a nomeação do Sr. Jozé André para o dito cargo”. (...) (08) (sic)


Tais acontecimentos serviram de acicate para sérias desavenças futuras entre doutor Floro e o cel. José André.

Após a queda do governador Nogueira Aciolly, correligionário do padre Cícero, assumiu o governo estadual o major Franco Rabelo.

Em 11 de fevereiro de 1911 o governador Franco Rabelo exonera o padre Cícero do cargo de prefeito convoca José André de Figueiredo para uma reunião em Fortaleza e o nomeia prefeito da cidade

Nesse ínterim, doutor Floro usou de todas as formas para amedrontar José André. Mandou distribuir panfletos nas ruas, os quais insinuavam que José André planejava “deportar os romeiros e incitava o povo a não comprar nas lojas do comerciante” ” (9) Com o intuito de afastar definitivamente as pretensões políticas do rabelista, fez sérias e graves ameaças à família do novel gestor:

“Uma fonte contemporânea chegava mesmo a apregoar que a mulher e filhos de José André estavam retidos como reféns até que ele retirasse a indicação de seu nome” (10).


Doze dias após sua nomeação como prefeito, José André desistiu de exercer cargo para o qual fora nomeado, assumindo a prefeitura o senhor João Bezerra de Menezes.

As sequelas da disputa política geraram uma inimizade séria e profunda entre doutor Floro e José André.

Vale salientar que as truculências do médico deram continuidade mesmo depois da abdicação ao cargo por parte de José André. O sogro deste, Benedito Gonçalves Dias Sobreira teve sua casa invadida e foi ameaçado de morte. Tal fato fez com que ele se retirasse com a família para a cidade de Milagres CE.(11)

Sob o pretexto que José André havia pegado em arma contra a revolução de Juazeiro, quando os jagunços invadiram a cidade do Crato, em 24 de janeiro de 1914, saquearam uma loja pertencente a José André e sua cunhada Josefa Sobreira da Franca. (12).

O ódio implacável do doutor se fez mais uma vez presente no assassinato de Paulo Maia de Menezes, cunhado de José André, morto em 09 de julho de 1914. Muito embora os acusados do homicídio tenham sido Nazário Landim, como mandante, e Mané Chiquinha como executor, havia tácita autorização de Floro. “Xavier de Oliveira in “Beatos e Cangaceiros” inocenta a participação do padre Cícero e acusa nas entrelinhas o médico ao afirmar que nenhum cangaceiro comete um crime quando não tem as costas quentes, O crime só era perpetrado após a autorização do chefe. Em quase um libelo acusatório, o escritor esclarece:

“ É simples.O cabra chega-se para o chefe e diz em meias palavras:”Fulano me dá cem mil reais p’reu dar uma carreira...em sicrano. Que qui vosmicê acha? “Ganhe seu dinheiro” respondeu o chefe. (Um coronel, ou um doutor, nunca um padre” (sic) (13).


Descrente da política, prejudicado nas transações comerciais , José André ausenta-se definitivamente de Juazeiro e vai morar em outra cidade. Foi um dos raros homens que fez oposição política ao padre Cícero em sua terra.

E por fazer parte determinante da história de Juazeiro, José André deve ser lembrado e homenageado pelos pósteros. É o passado, o alicerce do futuro de qualquer povo.

N O T A S

1- Della Cava,Ralph,1976,Milagre em Joaseiro, pag. 139

“Com o passar do tempo, seus habitantes tinham-se divididos em dois grupos hostis: os filhos da terra e os adventícios. Os filhos da terra não eram apenas os nascidos em Joaseiro mas, também, alguns dos que chegaram provenientes de Crato e outros lugares do Cariri.(...) Os adventícios,que se tornaram maioria. Incluíam muito dos imigrantes recentes originários de regiões distantes”

 2- Sobreira, Padre Azarias, 1946, Minha Árvore de Família, pag. 33 e 34. No rodapé de cada página, o referendo fornece os dados genealógicos.


3- Sobreira, Padre Azarias, idem pg.30.



4- Menezes, Fátima ; Alencar, Generosa, “Homens e fatos na História do Juazeiro 1989 pag.63
 
5- Della Cava, Ralph o.c. pag. 166.



6- Della Cava, Ralph o.c. pg.162

7- Della Cava, Ralph o.c. 169.
 
8 – Diniz,M , Mistérios do Joaseiro,1935 pag. 119\120
 
9-Della Cava,Raph o.c. pag.181


10 – Della Cava,Ralph o.c. 181. Aqui há um pequeno equívoco. José André de Figueiredo embora tenha se casado duas vezes, não deixou prole. Por conseguinte não poderia ter havido a prisão de seus filhos. O que houve foi contundentes ameaças `a sua mulher e invasão à residência do seu sogro.
 
11- Sobreira, padre Azarias o.c. pag. 29 narra:

”Benedito Gonçalves Dias Sobreira, vulgo Bibiu (+ 1918) era casado com dona Ana Angélica da Silva Sobreira (...) foram, porém, já na velhice vítimas da chamada revolução de Juazeiro que os atingiu pesadamente, em manifesta represália a seu genro José André de Figueiredo, que na qualidade de prefeito governista, pegara em armas contra os revoltosos seus conterrâneos. Veio daí a retirada de sua família para Milagres (...)”.


12- Sobreira. Padre Azarias,1969, “O Patriarca de Juazeiro” pg. 230 informa sobre o saque à loja de José André quando da invasão dos jagunços de Juazeiro na cidade do Crato:

“Logo após a tomada do Crato, ao verificar. alta noite, que a referida casa de tecidos estava sendo saqueada (...)”.
 
13- Oliveira Xavier, 1920, “Beatos e Cangaceiros”pag. 105.



BIBLIOGRAFIA

1- Della Cava, Ralph. Milagre em Joaseiro.Rio de janeiro.paz e terra 1976

2- Dinis, Manoel. Misterios do Joaseiro. Juazeiro.Tipografia o Joazeiro 1935

3- Menezes, Fátima;Alencar Generosa. Homens e Fatos na História do Juazeiro.Recife, Ed.Universitária da UFPE 1989

4- Oliveira, Xavier. Beatos e Cangaceiros. Rio de janeiro 1920

5- Sobreira, Padre Azarias. Minha árvore genealógica ( E de muitos outros)

1946 Fortaleza Revista do Instituo do Ceará

6- Sobreira, Padre Azarias. Fortaleza 1969. Oficinas Gráficas VOZES limitada.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015



Renunciando à renúncia
Eu e Dudu nos tornamos grandes amigos. Quando ele se ausentava nos fins-de-semana, eu assumia o papel dele. Certa vez, recebemos a denúncia de que um genro de Carlos Cruz havia comprado um posto de gasolina para os lados da Matriz. Repercutimos a denúncia no programa eleitoral. Ana Paula Cruz mordeu a isca e replicou no dia seguinte, negando a estória e afirmando que renunciaria, se fosse verdade. Nossa tréplica foi demolidora e criativa: estavam em nossas mãos todas as informações sobre o processo de execução que corria em uma das Varas da Comarca. O genro não honrara os cheques referentes à compra do posto e o vendedor ajuizara. Até os números dos cheques nós revelamos. E desafiamos a deputada a renunciar, como prometera. O assunto morreu por aí.
Orlete coordenava um setor do Comitê feminino, junto com Mariceli, Ana Ester, Cássia e outras lideranças. Ela encomendou 3.000 chapéus de palha na rua do Horto para distribuí-los durante a procissão no dia 15 de setembro. Cada um levava um detalhe que era propaganda eleitoral de nossa chapa. No dia anterior:
- Sávio, a gente precisa ir apanhar os chapéus, mas o comitê diz que não há um tostão em caixa. E agora?
- Quanto é a despesa?
- Dois mil e setecentos reais. Cada chapéu sai por noventa centavos...
Preenchi um cheque e entreguei-lhe. Foi minha contribuição financeira à campanha, que era MESMO franciscana.