sexta-feira, 19 de dezembro de 2014



Desfolhando a margarida
Passados os ecos da última campanha municipal e cicatrizadas as feridas emocionais e partidárias, voltamos à rotina de rarefeitas reuniões, no PSDB, enquanto a administração de Carlos Cruz se arrastava, anódina, inodora, insípida e incolor.
Aproximadamente em abril de 2003, houve uma reunião na sede da rua Santa Clara, próximo ao santuário dos salesianos. Nas eleições de 2002, Salviano se reelegera deputado federal, mas com votação decrescente em Juazeiro. Zé Arnon também se reelegeu, mas apenas manteve sua habitual votação por aqui e Raimundo Macedo surpreendeu, aumentando de forma significativa sua votação para deputado estadual. Havia muitos comentários de que os resultados o credenciavam a pleitear uma candidatura a prefeito, em 2004. Nessa reunião, Raimundão pediu a palavra e fez uma proposta sincera, mas insólita: queria que os membros do diretório assinássemos um documento e nos comprometêssemos a escolher candidato a prefeito aquele que, dentro do partido, estivesse melhor posicionado nas pesquisas de opinião pública um ano depois. Fui o primeiro a falar e disse que não assinaria um documento dessa natureza para ninguém. Quando todos terminaram de se pronunciar, Raimundo voltou a discursar:
- Diante da decisão de vocês, quero adiantar que estou deixando o partido.
Quem o manteve foi Tasso, alarmado pelas defecções de Arnon e Rommel Feijó, que se filiaram a um partido da base aliada do presidente Lula, eleito em 2002.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014



Presidente por uns dias
Dois anos depois, a campanha presidencial galvanizava as atenções. Lula era candidato oposicionista pela quarta vez consecutiva; Serra era o candidato da situação, mas inesperadamente Roseane Sarney passou a liderar as pesquisas. Até que um dia estourou um escândalo financeiro envolvendo o marido dela, com flagrante e tudo mais, e a campanha dela murchou como balão furado. Ciro Gomes, até então pouco lembrado nas pesquisas de intenção de voto, começou a subir e em agosto estava ombreado com Lula e Serra e a eleição estava indefinida. Recebi um telefonema de Cid Gomes, então prefeito de Sobral, meu amigo desde a época em que fui Juiz lá. Ciro viria a Juazeiro e ele queria minha ajuda. Eu já apoiara a candidatura de Ciro a presidente em 98, quando ele obteve uma votação surpreendente em todo o Brasil. Combinei com Cid e fui apanhá-lo no aeroporto. Viemos para minha casa e ele passou a manhã toda falando no celular, convidando prefeitos e outros políticos, adotando providências e antes de partir me disse que eu seria o coordenador da visita de Ciro. Foi marcada uma reunião no gabinete do prefeito Carlos Cruz, para que a gente delineasse o roteiro, o local do comício, coisas assim. Lá, embora me sentisse como um peixe fora do aquário, fiz o meu papel de coordenador. No dia da chegada, pelas duas da tarde, fui ao aeroporto e consegui organizar a carreata, com a ajuda da Polícia Militar. Havia um trio elétrico mal posicionado, bem em frente ao portão de entrada para o saguão. Falamos com o guiador e ele obedeceu, se posicionando em uma esquina bem antes do aeroporto. Fiquei em pé, na entrada da sala VIP, fazendo a triagem de quem poderia ou não entrar ali, temendo que a coisa toda virasse uma bagunça. De repente, se posta à minha frente Giovani Sampaio:
- Doutor Sávio, minha ordem para o motorista foi de que ele não se afastasse um centímetro de onde eu mandei ele ficar.
- Pois ´tá ruim, Giovani, porque eu determinei que ele ficasse a cem metros daqui.
Ele ainda resmungou alguma coisa ininteligível e saiu.
A carreata seguiu até a praça do Memorial, onde Ciro discursou para uma multidão. Ele fez questão de mencionar meu nome duas vezes, em agradecimento pelos serviços prestados.
Dias depois, setores do PT, segundo a VEJA denunciaria anos após, envolveram Ciro em episódios de repercussão negativa e ele, que realmente tem a língua solta e não é benquisto entre a classe política tradicional nem entre os gigantes da mídia, como a Rede Globo, o grupo Abril e a Folha de São Paulo, teve sua candidatura esvaziada, abrindo caminho para a ascensão de Lula, infelizmente.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

 Eu voto é na mulher

 Mais ou menos em inícios de julho, estavam definidas as candidaturas: Ìris Tavares, a professora Salete, o prefeito e Carlos Cruz, montado confortavelmente em pesquisas que lhe davam cerca de 60% das intenções de voto. Eu permanecia observando à distância, desiludido.

Semanas depois, um rapaz que passava o dia ali pela praça, Beto, me perguntou se poderia pregar um adesivo de Iris em meu carro. Respondi que sim. A notícia deve ter se espalhado, porque, na sequência, Manoel Santana me perguntou se eu aceitaria formar um bloco suprapartidário de apoio à candidata petista. Concordei, convidei Luís Carlos Lima e Cícero Timóteo e nos engajamos na campanha. Comparecia aos comícios, mas não me pronunciava. O discurso petista não me era familiar, minhas motivações eram pessoais, de forma que me resguardei.

O partido instalou um comitê em uma saleta na praça, rua do Cruzeiro. Pela primeira vez, em Juazeiro, se via adultos e crianças comprando adesivos, cartazes, santinhos, distintivos e outras peças de propaganda eleitoral. Eu percorri a cidade, localizando os amigos e conhecidos, solicitando colaboração financeira. O mais surpreendente era ser procurado espontaneamente por pessoas que mal me conheciam com ofertas em dinheiro. Todo ele transformado em material de campanha, que era franciscana, mas que empolgou a cidade de uma forma que jamais vira antes. “Eu voto é na mulher” se tornou um bordão epidêmico que se alastrou por todos os bairros. Iris subia vertiginosamente nas pesquisas e Carlos Cruz despencava, enquanto os votos do prefeito minguavam. A vitória parecia possível.

Faltando poucos dias para a eleição, Mauro praticamente desistiu, jogou a toalha, e Tasso Jereissati veio pessoalmente comandar um esforço final de campanha, para que o PT não vencesse no maior colégio eleitoral do interior do Ceará. Houve comentários de que equipes percorriam os bairros mais distantes e isolados com uma pregação anticomunista, aterrorizando as pessoas mais humildes com alertas de desapropriações de imóveis e até mesmo com a falsa notícia de que, vitoriosa, Iris mandaria pintar a estátua do padre Cícero no Horto de vermelho. Uma espécie de piada de mau gosto.

A carreata final, no sábado às vésperas da eleição, foi empolgante. Sem distribuir um mililitro de combustível, na contramão do que é costumeiro por aqui, centenas de veículos circularam pelas ruas da cidade, levando milhares de curiosos, que se concentravam nas esquinas, ao delírio. A descida pela São Benedito foi apoteótica, entusiasmante. E quando meu carro despontou na rua do Cruzeiro, na direção da praça, e eu tive uma visão quase completa da extensão do cortejo e da animação do povo, me emocionei com o vigor da esperança de uma parcela tão significativa da população que acreditava em mudanças e clamava por elas.
 

terça-feira, 18 de novembro de 2014


Me engana que eu gosto Meses depois, aproximando-se a campanha eleitoral, Chico Alves teve um encontro com setores da administração e no dia seguinte abriu uma gaveta, na sede do jornal, e me exibiu vários pacotes de dinheiro. O jornal fora cooptado, mas ele conseguiu manter minha coluna incólume. Ficou estranho, porque enquanto “Outras Palavras” continuava sua cruzada oposicionista, o restante das matérias agora defendia a situação, em visível contradição.

Paralelamente, atendendo a um chamado de Salviano, formamos várias equipes, cada uma responsável por uma zona da cidade, e passamos a nos reunir visando obter um perfil das carências de cada bairro e as sugestões de prioridades para solucioná-las. Era um embrião de projeto de governo para uma futura administração, com o ineditismo de um planejamento que, embora não-científico, poderia direcionar as expectativas da população para o enfrentamento de problemas que se acumulavam sem solução. O ato final foi no Salesiano, com todas as equipes reunidas e cada uma expondo suas conclusões. A opinião generalizada era de que Salviano tentaria um terceiro mandato.

Surpreendentemente, contudo, quando ocorreu a convenção partidária do PSDB, pela contagem de quinze votos contra o meu, solitário, decidiu-se pela coligação com Mauro Sampaio, que tentaria a reeleição. Dadas as circunstâncias, em hipótese alguma eu poderia seguir tal orientação partidária. Em vista disso, entreguei meu cargo de secretário do Diretório e me afastei.


terça-feira, 11 de novembro de 2014


 O suculento fruto do acasoA administração “Unida e Forte” continuou com seu roteiro de mediocridade, sem atinar com os reais problemas da comunidade, que, por falta de exercício crítico, disfarçava sua insatisfação.

Em outubro de 98, fui localizado por Rose, a quem eu conhecera durante a administração de Salviano, vez que ela trabalhara no gabinete do prefeito. Ela me apresentou a Chico Alvez, seu cunhado, que necessitava de um advogado para formalizar um pedido na Justiça criminal, em torno de cumprimento de exigências de liberdade condicional. Surpreendentemente, dada a afoiteza, nessa mesma ocasião ele me convidou para assinar uma coluna em um jornal que ele planejava fazer circular antes do fim do ano. Aceitei o convite, pensando intimamente que aquele era mais um dos utópicos projetos de fazer jornalismo em nossa cidade e que invariavelmente sucumbiam. Passaram-se os dias e, já em dezembro, ele me telefonou para cobrar a coluna prometida, afirmando que a primeira edição já estava pronta. Por essa época, a administração Mauro Sampaio era o fracasso que eu previra. Seja por inaptidão para o cargo por parte do veterano prefeito, seja pela incompetência e má-fé de alguns assessores, a gestão municipal era visivelmente desastrosa. Apesar disso, nem uma voz, nem uma pessoa, nem qualquer instituição, pública ou privada, ousara se manifestar com uma crítica sequer às mazelas administrativas imperantes. Havia denúncias subterrâneas de corrupção, de práticas clientelistas, havia muito comentário nas ruas, mas nada de ação concreta a esse respeito. A Câmara de Vereadores estava cooptada e silente. Imagine-se a que preço. A “imprensa juazeirense” permanecia calada e, segundo os comentários, cerca de quarenta radialistas estavam nas folhas de pagamento do erário. No mês de abril daquele ano, eu estivera na Câmara, atendendo a convite do edil Chico Pinheiro, para me pronunciar sobre o movimento “Cariri sem violência”, encetado a partir do trágico e violento assassinato de Gílson Sobreira, em agosto de 1997, e fui suficientemente agressivo em relação à gestão municipal. Por acaso havia uma multidão de professores municipais contrariados no plenário e eu aproveitei a oportunidade para estimular-lhes a revolta contra as decisões administrativas que os puseram naquele estado de ânimo, afirmando que uma das mais perversas formas de violência praticada pelo sistema era a manutenção da pobreza pelo pagamento de salários aviltantes. Diga-se, por amor à verdade, que eu não agia exclusivamente impulsionado por motivos nobres como exercício de cidadania ou participação comunitária. Na realidade eu estava cheio de ressentimentos contra o prefeito, que ousara, ou permitira a assessores mal intencionados, tentar envolver meu nome e questionar minha honorabilidade no episódio da prestação de contas do IMSS. Com tais pressupostos, a primeira coluna, intitulada ironicamente de “Outras Palavras”, saiu no jornal “A Notícia”, edição número 1, com vários tópicos criticando e denunciando mazelas administrativas.

A repercussão foi imediata. Finalmente a cidade tomava conhecimento de uma voz que se levantava abertamente contra a absurda situação, montada como uma farsa, em que se vendia uma administração ruinosa e suspeita de práticas de corrupção com imagens de eficiência e competência.

“A Notícia” transformou-se gradativamente no símbolo da oposição. Sua circulação, a princípio irregular e aleatória, tornou-se semanal, com distribuição gratuita. A cada edição, crescia a expectativa nas ruas a respeito do teor das matérias. A coluna “Outras Palavras” galvanizava as atenções gerais, pelo formato, pelo conteúdo, pela linguagem empregada, lotada de ironia e gracejos. O jornal era municiado com denúncias que pipocavam daqui e dali, oriundas principalmente de servidores municipais insatisfeitos e que me conheciam da administração anterior. Por obra do acaso, sempre ele, a gestão municipal via se robustecer a cada dia uma oposição sistemática que expunha as entranhas de negociatas e episódios de incompetência.

 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Dalilas do sertão
Uns dois meses depois, fui citado como co-réu [o certo seria corréu, mas prefiro a forma antiga] em uma ação de prestação de contas movida pelo Município contra mim e contra Salviano. Foi uma punhalada traiçoeira, pelas costas. Tal ação era absolutamente incabível. Como poderia eu prestar contas de uma verba que jamais passara por minhas mãos? Fui nomeado para presidir o Instituto apenas em dezembro de 96, quando a tal verba já fora gasta até o último centavo. Ou o prefeito ou alguém ligado à administração dele estava, na realidade, destilando algum tipo de rancor contra mim, tentando de qualquer maneira manchar minha reputação, por motivos que até hoje ignoro.
Para resumir: o juiz Jaime Medeiros, competente e letrado, julgou a ação improcedente, mas sob alegação de que, como prefeito, Salviano deveria ter as contas julgadas pela Câmara de Vereadores, e para lá determinou a remessa dos autos, em decisão tão insólita quanto inédita. Jamais vira o Legislativo servir de instância para o Judiciário. E eu, que não era prefeito, fiquei sem julgamento. Recorri, pois, ao Tribunal de Justiça. Até hoje estou aguardando uma decisão...

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Portador não merece pancada
Uns quinze dias depois da posse de Mauro fui à Prefeitura, falei com ele no gabinete, narrei toda a história e lhe passei uma cópia da confissão de dívida. Ele ensaiou um chilique de irritação, mas respondi à altura, avisando que era apenas o mensageiro. Ele se acalmou e pediu para que eu voltasse quinze dias após, que ele estudaria a situação. A partir daí, ele me colocou em um jogo de empurra-empurra, me pedindo para falar seguidamente com Daltro Alencar, Fernando Sampaio, Dedé Carneiro e outros. Agi pacientemente, sem entender o porquê de tanta hesitação e demora, uma vez que o mesmo Catarino era o contador da administração dele e poderia facilmente explicar tudo.
Na Semana Santa estive em Fortaleza e lá, depois de refletir, tomei a decisão de judicializar a questão, caso minha próxima conversa com o prefeito resultasse inútil. Quando conversei com Mauro, ele me pediu que eu fosse falar com Domingos Filho, no hotel Verde Vale, em reunião marcada para uma semana depois. Fui e expliquei todo o roteiro ao deputado. Quando terminei, ele me olhou e disse:
- Doutor, vamos fazer uma consulta ao Tribunal de Contas...
- Não. O senhor vai fazer a consulta. Eu vou procurar outro caminho.
Despedi-me e fui embora. A consulta jamais ocorreu. Eu já estava com tudo preparado. No dia seguinte ingressei em Juízo com duas ações, em nome do Instituto: um mandado de segurança, para obrigar o Município a cumprir a lei que criava o órgão e uma ação executiva do contrato de confissão de dívida, para que o Município cumprisse o que prometera.
Quando o prefeito foi citado, caiu na real. Não poderia mais protelar a situação, como viera fazendo. Certo dia, apareceram em minha casa Salviano e Catarino. Expliquei-lhes que não havia interesse pessoal envolvido. Eu fora nomeado presidente do Instituto e estava cumprindo meu dever. Caso contrário, poderia até ser acusado de prevaricação.
Ficou acertado que haveria uma reunião no dia seguinte, na casa de Salviano, com a presença de Mauro. Lá, conversamos e Mauro espanou meu ego e adubou minha autoestima afirmando que em mim confiava, mas temia pelos futuros gestores, e findou por dizer que, diante das circunstâncias, ele preferia extinguir o Instituto. Respondi que não faria a menor objeção. No momento em que eu visse o ato de extinção publicado no Diário Oficial, eu desistiria das ações impetradas, até por falta de objeto.
Aproximadamente um mês depois, fui procurado pela advogada Virlene Rolim, com a cópia do D.O. com o ato de extinção. No dia seguinte, cumpri o prometido e pedi a desistência das ações. Respirei aliviado, mas o pior estava por vir.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Nuvens escuras no céu de dezembro
Em novembro de 96, logo após a eleição de Mauro Sampaio, chegou a notícia de que o Tribunal de Justiça havia decidido a causa e que o Município poderia finalmente instalar o sonhado instituto previdenciário próprio. Em reunião no gabinete, soube que Liberal seria nomeado presidente do órgão. Fiz ver a Salviano que a lei exigia que o presidente fosse formado em Direito, o que não era o caso de Liberal, e que além disso, eu pedira e ele me prometera a nomeação, anos atrás.
- Procure Liberal e combine com ele.
Falei com Liberal, meu amigo desde os bancos escolares no Salesiano, e ele concordou comigo. Fui nomeado presidente temporário, de acordo com a legislação, com a função de preparar a documentação para a instalação definitiva do instituto, tarefa a que me dediquei imediatamente.
No dia 31 de dezembro, pelas 21 horas, recebi um telefonema de Liberal me convidando para uma reunião no gabinete do prefeito. Achei insólito, Estranhei, mas fui, porque era inadiável. Chegando lá, encontrei Salviano, Catarino e Liberal reunidos:
- Qual é o problema?
- Sávio, como presidente temporário do futuro instituto, você precisa saber de alguns detalhes...
- Que tipo de detalhes?
- Sabe a verba descontada para a previdência nestes três anos? Ela foi gasta.
- Gasta como?
- Com a reforma da Praça da Matriz, com a construção da escola João Alencar, com as desapropriações do Parque Ecológico...
- Não acredito... Salviano, o gasto da verba descontada dos salários dos servidores constitui crime de apropriação indébita. Está no Código Penal.
- Agora é tarde, já está feito. Pedi a Catarino para elaborar um documento para sanar a situação.
- E que documento é esse?
- Uma escritura de confissão de dívida. O Município reconhece que deve ao instituto e que se compromete a pagar em 120 parcelas, explicou o contador.
- E nós chamamos você aqui para ter conhecimento e assinar o documento.
Muito cômodo, pensei. Gasta-se o dinheiro e joga-se a responsabilidade do ressarcimento sobre o sucessor. Por dentro, eu fervia de indignação, mas não é de meu feitio criar caso, principalmente porque se tratava de um fato consumado. Agora entendia porque Salviano, que sempre me teve elevada consideração, queria me afastar da presidência do órgão. Ele deveria ter aberto o jogo comigo. Eu não faria a menor objeção, porque meu interesse não era pessoal. Acho que lhe faltou coragem de me confessar o que agora ele era obrigado a me revelar.
Quando Catarino finalizou o documento e me trouxe para conferir, pedi-lhe que refizesse a última folha, das assinaturas, pois eu assinaria como “Ciente” e não como parte contratante, como constava na versão original. E assim foi feito. Saí de lá com minha cópia e fui direto à casa de Luis Carlos, titular do 1º Cartório, e meu cunhado, e entreguei-lhe o papel, pedindo-lhe que providenciasse ainda naquela noite o registro da escritura no livro de Títulos e Documentos. Eu já antevia que nuvens escuras se formavam em meu céu. Depois voltei para casa, me preparar para a festa do primeiro réveillon do Hotel Verde Vale, recém-inaugurado.

terça-feira, 30 de setembro de 2014


Saindo pela entrada
Desde inícios de 95 eu alertava Salviano de que, pelas conversas na rua, a tendência era o eleitorado juazeirense votar maciçamente em Mauro para prefeito. Essa impressão só fez crescer ao longo dos meses. Apesar de ser palpável a preferência da população, havia pelo menos uns quatro pré-candidatos situacionistas ao redor do prefeito. No fim, Zé Arnon venceu a concorrência e foi apontado para a disputa. Fui escalado, mas recusei fazer parte do comitê de campanha, convicto de que era trabalho perdido e, sem entusiasmo, não rendo coisa alguma em campanha eleitoral. Cheguei a ser expulso de uma reunião na reta final da campanha, após um discurso realista, taxado de pessimista e pé-frio, embora os termos utilizados na ocasião não fossem assim elegantes. Aquela foi a primeira eleição municipal em que ocorreu a apuração eletrônica que, por sinal, foi anulada, para vereador, e recontada, porque houve uma fraude grotesca. Previsivelmente, Mauro ganhou com facilidade e Arnon ainda perdeu o segundo lugar para Carlos Cruz, que, de última hora, inventou uma senha carimbada com a imagem de um imóvel, para que o eleitor ingênuo acreditasse que aquilo valia como um compromisso de doação de casa própria. Quando querem, nossos políticos são muito imaginativos e criativos, principalmente em benefício próprio.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Picos sobre o vale
Um dos pontos altos da segunda administração de Salviano foi a criação do Parque Ecológico. Mesmo reduzido a uma pequena fração do que deveria ser o verdadeiro parque, o espaço correspondente à bacia do riacho da Timbaúba, foi um primeiro passo que, se tivesse recebido o apoio das administrações subsequentes, teria dotado a cidade de um bem de valor inestimável, uma joia rara e preciosa destinada à garantia da qualidade de vida das futuras gerações de juazeirenses. Infelizmente, predominaram a mesquinharia politiqueira, a ausência de visão estratégica no planejamento urbano e, até diria, a falta de amor a esta cidade tão explorada quanto mal recompensada pelos beneficiários de sua hospitalidade e da pujança de seu potencial econômico-financeiro. A inconclusão do Parque Ecológico é um tapa na cara da cidadania juazeirense. A população, hoje em dia, se manifesta nas ruas pelos motivos mais banais. Por que não se grita pedindo a continuação dessa obra essencial? Mais uma lástima a acrescentar no rosário.
Outros pontos elevados foram a Festa do Sesquicentenário, até hoje subestimada por quem não a vivenciou nem a acompanhou, desconhecendo que foi o evento melhor organizado e culturalmente mais relevante da história da cidade. A apresentação da orquestra sinfônica de João Pessoa no Memorial superlotado e a solenidade de entrega dos troféus do sesquicentenário, na capela do Socorro, por exemplo, foram eventos suficientemente grandiosos para trazer orgulho aos juazeirenses mais exigentes; a arborização urbana com fícus, graças ao empenho de Mara Cordeiro e sua equipe; a construção dos arcos ao redor da Matriz, replicando o belo trabalho de Fidel Tenório na festa do Sesquicentenário e dotando aquele logradouro de um novo e impactante visual.

terça-feira, 16 de setembro de 2014


O embrião da FMJ
No transcorrer do ano de 1994, o Cirão estava pronto, obra da administração de Ciro no governo do Estado. Salviano reuniu todo o primeiro escalão e fomos visitar o prédio, totalmente desocupado, na companhia do almirante Ernani Aboim, juazeirense nato, residente no Rio de Janeiro. Matreiro, o prefeito homenagearia o almirante, batizando com seu nome o laboratório de física e química da nova escola e lhe pediria a doação de todo o equipamento necessário ao funcionamento do laboratório. Após os discursos informais, o almirante se comprometeu a doar o material e nos surpreendeu:
- Vocês já pensaram em abrir uma Faculdade de Medicina em Juazeiro?
Ninguém sequer sonhara com isso. Era uma ideia absolutamente nova e chegava a nós a bordo de uma oferta oriunda de uma autoridade que possuía credenciais federais elevadas.
- Faço parte do Conselho Nacional de Saúde, mas conheço os componentes do Conselho Nacional de Educação e vou levar a sugestão para ver como será recebida, concluiu o generoso almirante conterrâneo.
A Universidade carioca Estácio de Sá comprou a ideia e findou por abrir em Juazeiro a FMJ, Faculdade de Medicina que foi o pontapé inicial para a verdadeira revolução que transformou a cidade em um canteiro de obras, alargando os limites urbanos e verticalizando gradualmente o seu perfil.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Uma aquisição valiosa
Na Semana Santa, Ciro Gomes, governador, estava em Juazeiro. O plano era subirmos ao Horto, na sexta pela manhã, uma antiga tradição da população juazeirense. O encontro foi na praça do Memorial. Atravessamos o prédio por dentro do salão de exposições, o Museu. Quando chegamos em frente à coleção de dez magníficas pinturas de Marcus Jussier, retratando sinteticamente a trajetória de vida do padre Cícero, que Marcus produzira especialmente para expor em evento incluso na programação oficial do sesquicentenário, paramos e nos quedamos a admirá-las. Eu arrisquei:
- Ciro, estes quadros não podem mais sair de Juazeiro. Já fazem parte de nosso patrimônio cultural.
- E o que está faltando?
- Dinheiro para comprá-las. São trinta mil reais, a coleção.
- Faça um ofício para a Secult e me ligue avisando...
Sem querer, atropelei as pretensões de Salviano, que planejara pedir algumas obras ao governador, aproveitando a visita. No fim, deu tudo certo. Salviano conseguiu as obras e Juazeiro recebeu de presente uma mostra extraordinária do talento do artista plástico mais bem sucedido de sua história e que está até hoje lá no Memorial, à disposição de quem sabe apreciar a beleza.

terça-feira, 26 de agosto de 2014







Aprendiz de administrador

A experiência como secretário de Educação foi frustrante desde o primeiro dia. Conheci e me cerquei de gente disposta a fazer um bom trabalho, como Nailê Feitosa, mas a realidade da escola pública é inviável. O salário de professores e servidores é irrisório, o que, de cara, afasta os melhores quadros para outras carreiras mais compensadoras. Claro que há os vocacionados, que se esforçam, se preocupam com a qualidade do ensino como fator de propulsão para uma sonhada ascensão social via conhecimento. Mas estes são a exceção. Para piorar o que já é péssimo, os administradores adotaram o costume de nomear diretores e secretários escolares a partir do quadro de professores. Pelo perverso critério do apadrinhamento, desfalcam as escolas de alguns de seus melhores profissionais, que precisam ser substituídos por novatos despreparados, inexperientes. A primeira conclusão a que cheguei foi que o sonho de quase todos os professores era sair da sala de aula, seja lá o que os motivava para essa fuga.

Uma semana após minha posse na Educação, Salviano apareceu na Secretaria, localizada no Poliesportivo:

- Vamos preencher os cargos da Secretaria.

Sentamo-nos, ele, eu e Nailê e passamos a escolher diretores, vices e secretários das unidades escolares e o pessoal administrativo da própria Secretaria. Eu apenas concordava com as sugestões dele ou de Nailê, pois conhecia poucos nomes relacionados. Quando se aproximou de meio-dia, os trabalhos apenas iniciados:

- Salviano, meu relógio biológico me obriga a almoçar ao meio-dia. Vamos interromper e depois continuar?

- Não. Vamos aproveitar e fazer tudo de uma vez.

Não me dei tempo nem de refletir:

- Pois você fica aí com a Nailê, que eu vou em casa.

Depois, soube que ele comentara a meu respeito que eu era um filósofo preguiçoso. Houvesse ele usado o adjetivo entediado, teria se aproximado de definir meu estado de espírito à época com mais exatidão. Eu era mesmo um estranho no ninho da Educação.

Acreditava, e ainda acredito, que apenas um choque revolucionário no setor educacional pode alavancar o desenvolvimento sustentável deste gigante adormecido. Infelizmente, o primeiro passo dessa radical transformação ainda não foi dado, o que nos condena a ser um eterno “país do futuro”. Um futuro que jamais se concretizará, mantidas as atuais condições de temperatura e pressão. Ninguém me convencerá de que não exista um “sistema” perverso por trás dessa cruel realidade, com intenção explícita de manter o grosso da população jovem na ignorância. É o ancestral lema: “Dá-lhes pão e circo”. Desse “sistema” fazem parte as igrejas, os políticos e outras instituições poderosas, interessadas na manutenção do status quo. Some-se a isso a alienação de pais e professores, que acham que está tudo bem, e o quadro está completo. Certa vez, expus esta tese a Salviano:

- Você não é louco de pensar numa bobagem dessa?

- Sou. As soluções para uma transformação na educação, a começar pela adoção do regime de tempo integral, não são um bicho de sete cabeças. Tem que haver algo mais sórdido a impedi-las.

Na Secretaria de Cultura, minha atuação foi mais gratificante. Criamos os jogos estudantis – Jejuno´s – que, durante os quatro anos, foi um evento bem sucedido, com maciça adesão das escolas públicas e privadas, cuja integração social era o objetivo maior dos jogos. O Ginásio Poliesportivo fervilhava de crianças e adolescentes empolgados com a grata novidade. A intenção era que os jogos, dado o sucesso da fórmula, se eternizassem. Juazeiro não possui eventos tradicionais significativos. O Crato tem a Exposição. Barbalha tem a festa de Santo Antônio. Juazeiro não tem nada. Os Jejuno´s poderiam preencher tal lacuna. Minha maior decepção, com a administração municipal e com os corpos discente e docente das escolas envolvidas, é ver que um projeto simples e eficaz como esse não vingou, não recebeu a devida atenção, minguou ao longo dos anos e hoje é uma pálida lembrança. Uma lástima.

Logo no início da administração, Salviano acenou com a possibilidade de criar um Instituto Municipal de Previdência. A nova Constituição Federal, a “cidadã”, criara a possibilidade. Aderi desde logo à ideia, convicto de que era o melhor caminho. A previdência oficial, o INSS, era uma instituição caótica, deficitário, dominada pela politicagem, onde vicejava a corrupção. A municipalização, se bem administrada, era uma tentativa atraente de obter melhores resultados. A lei foi redigida, enviada à Câmara e aprovada. Alegando irregularidades formais na tramitação do projeto, três vereadores oponentes, Zé de Amélia, Fran Pereira e Gilson de Sousa, recorreram ao Judiciário e o projeto foi travado até que a Justiça decidisse. Entrementes, Salviano determinou a abertura de uma conta e passou a depositar os descontos previdenciários mensais, da municipalidade e dos servidores.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014





O ausente presente
No dia da posse da Salviano, compareci à Câmara de Vereadores. Havia uma questão pendente, em torno da possibilidade de Arnon acumular legalmente o cargo de deputado com o de vice-prefeito. Um assunto polêmico, sobre que inexistia uma norma ou mesmo uma jurisprudência definidora. Ele foi esperto e ingressou em juízo, solicitando uma solução judicial. Com a maioria controlada por Salviano, a Câmara lhe deu posse. 
Achei a solenidade aborrecida: espaço exíguo, gente em demasia, muita confusão, muito calor. Parecia a escada da AABB.
Élida me comunicara que à noite, no auditório do Memorial haveria outra solenidade de posse. Ressabiado pela experiência matinal, preferi faltar e ir direto para o Restô Jardim, onde haveria um encontro mais saboroso depois da solenidade.
Estava lá com Orlete, quando a comitiva começou a chegar. Quando me viu, de longe mesmo, Salviano:
- Além da Secretaria de Cultura, você vai acumular a Secretaria de Educação.
Ele sabia mesmo como agradar. Solange Tenório deveria ser a secretária de Educação, mas, na última hora, houve um veto incontornável e sobrou para mim.
Wilton Almeida me disse que, no Memorial, quando chamaram meu nome e eu não apareci, o governador Tasso Jereissati, de cuja presença, se eu soubera antes, teria ido, para prestigiá-lo, comentou:
- Este aí começou bem...
E foi então que Salviano fez o anúncio da acumulação. O Galeguim deve ter ficado perplexo

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Uma mancha indelével
A carreata final foi uma apoteose. Quando percorremos a rua São Benedito, tivemos a dimensão exata da vitória folgada. O povo delirava nas esquinas apinhadas. Salviano parecia um pop-star, caminhando à frente do cortejo, acenando para a multidão. 
Depois de uma eleição tranquila e de uma apuração mais serena ainda, comemoramos a vitória na casa de Carlão. Uma festa improvisada, com muita gente, a maioria cansada dos esforços.
Dias após, houve uma recepção mais formal na casa de Dedé Tavares. Quando cheguei, vi que Salviano estava reunido com um grupo de amigos lá na parte mais baixa. Quando me aproximei, ele me apontou:
- Aí está um que sempre me alertou que eu venceria por uma larga margem de votos.
Deduzi logo que ele se referia a um empréstimo financeiro de última hora, para enfrentar despesas não-contábeis, que eu condenara por julgar totalmente desnecessário e, pior, antiético.
Semanas depois, recebi a visita de Salviano e Arnon. Conversamos, e ele:
- Sávio, estamos aqui para lhe oferecer a Procuradoria Geral do Município ou a Secretaria de Cultura e Desportos. Você escolhe.
Não pensei nem um segundo:
- Prefiro a Secretaria. Quero mais é fugir de problemas judiciais.
Ficaram surpresos, mas sabiam que eu passara uns dois meses me reunindo com uma equipe, planejando o que seria o desempenho futuro da administração nos setores de Cultura e Esportes.